Perante o, sociologicamente interessante, despertar dos vampiros originado pela reacção do MPLA (não da visada, Luísa Damião, como seria de esperar) a um artigo de opinião publicado aqui no Folha 8, façamos o exercício de falar de Pessoas Politicamente Expostas (PPE) como se Angola fosse (não é ocaso) um Estado de Direito Democrático.

Por Orlando Castro

Antes, recordemos que este caso (verdadeiro potenciador do orgasmo vampiresco, se bem que atópico) deu nova vida a machistas, feministas e similares da nossa praça que, a uma só voz, consideram que “é nojento ainda haver gente que não é do MPLA”. Esta é que é a questão.

Consta, aliás, que vão propor à comunidade científica internacional a inclusão da expressão “Síndrome do MPLA”, versão angolana para a “Síndrome de Estocolmo”, explicando que se trata de um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado (44 anos) de intimidação pelos donos de Angola, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade para com o seu agressor.

Em abstracto, a Constituição consagra a liberdade de expressão e informação e a liberdade de imprensa como direitos fundamentais, não podendo o exercício destes direitos ser impedido, ou limitado, por qualquer tipo ou forma de censura. Terá o MPLA promulgado, entretanto, alguma adenda dizendo que nada disto se aplica quando o visado é um seu dirigente?

Mulheres de… primeira (as do MPLA)

O MPLA encorajou o executivo liderado pelo seu Presidente, João Lourenço, no combate contra aquilo que ele próprio criou como uma instituição nacional: corrupção, impunidade, bajulação, nepotismo e branqueamento de capitais.

O apelo foi feito pela vice-presidente do MPLA, Luísa Damião, ao presidir à principal cerimónia das comemorações do 62.º aniversário da fundação do partido, que decorreu no final do ano passado em Waco Cungo, na província do Cuanza Sul.

“É nossa tarefa apoiar o executivo na construção de uma Angola próspera, cada vez mais democrática, solidária e inclusiva, onde o mais importante continua a ser a resolução dos problemas do povo, a implementação de políticas públicas, que correspondam aos anseios e expectativas dos cidadãos, o que passa por uma aposta na melhoria das condições de vida dos cidadãos”, afirmou Luísa Damião.

A vice-presidente do MPLA reiterou que, nesse sentido, os titulares de cargos de responsabilidade política no partido e no Estado “devem ser os primeiros detentores de atitudes que dignificam o ‘M’ e Angola, através de “um comportamento exemplar”. Presume-se que assassinar zungueiras não esteja nesse rol de “comportamentos exemplares”. Já mandar o partido contestar um artigo de opinião em que o autor considera nojento não respeitar o direito à total privacidade da criança órfã é um “comportamento exemplar”.

Após referências históricas sobre o caminho percorrido pelo MPLA desde 1956, em que saudou todos os responsáveis pelo então movimento que combateu o regime colonial português, Luísa Damião regressou à actualidade, para manifestar o apoio do MPLA às operações “Transparência” e “Resgate”, em curso no país. Como sabemos todos, estas “operações” são impolutas e nada têm de… nojentas (provocar repulsa ou asco).

Que mais é que a Luisinha poderia dizer? É claro que ela sabe o que diz mas, como sempre, não diz o que sabe. Todo o cuidado é pouco, até porque ainda não está provado que os decretos presidenciais, os de hoje como os de ontem, sejam suficiente para que os jacarés passem a ser vegetarianos.

“Devemos apoiar e encorajar o executivo a prosseguir com a ‘Operação Transparência’, que visa combater a imigração ilegal e exploração ilícita de diamantes e à defesa da soberania nacional e protecção dos recursos minerais, e a ‘Operação Resgate’, que visa combater as actividades que provocam a desorganização dos centros urbanos com actos de vandalismo que prejudicam a segurança, a ordem e a saúde pública, bem como os bens patrimoniais do Estado”, sublinhou Luísa Damião.

Para que as operações atinjam os objectivos, prosseguiu, “os militantes, simpatizantes, amigos do MPLA e a sociedade civil devem desempenhar o papel de fiscalizador activo”. Devem mesmo, Luísa? Ao fiscalizarem não correm o risco de chocarem com uma daqueles balas-marimbondo que Savimbi mandou vaguear eternamente nos nossos céus? Não correm o risco de serem acusados de estarem ao serviço de Eduardo dos Santos, o “querido líder”, o “escolhido de Deus”, o “arquitecto da paz” que de um dia para o outro passou de bestial a besta? Terá sido isso que aconteceu com a zungueira Juliana Cafrique?

Luísa Damião lembrou, por outro lado, que o Dia Internacional dos Direitos Humanos, era a “ocasião propícia” para se fazer “uma reflexão sobre os casos cada vez mais crescentes e graves de violência” que se registam na sociedade angolana, “onde as mulheres e crianças são as principais vítimas”. Pois são…

“O respeito pelos direitos humanos passa pela educação dos cidadãos e a elevação da sua cultura jurídica. Gostaria de lembrar que a violência doméstica é um crime público e todos nós devemos denunciar os casos que ocorrem na nossa comunidade”, referiu, defendendo que há necessidade de se reflectir sobre a pertinência de se proceder a alterações na Lei contra a Violência Doméstica.

“A sociedade está chocada com os recentes casos, em que mulheres sofreram violência dos seus parceiros, onde uma delas foi assassinada e colocada numa fossa. Precisamos de paz no seio das nossas famílias. Acabemos com a violência no seio das famílias. Temos que reflectir sobre a pertinência da alteração da Lei contra a Violência Doméstica, para torná-la mais severa e punir os prevaricadores” acrescentou.

E então os massacres (nada nojentos) do 27 de Maio de 1977 não merecem uma reflexão, mesmo que pequenina? É chato haver angolanos com memória que acham que a verdade não prescreve, não é Luisinha?

Não sabemos se, com a publicação deste texto, não voltaremos a ter a reacção de contestação do Departamento de Informação e Propaganda do Comité Central do MPLA, ou dos machistas, feministas e similares da nossa praça que, a uma só voz, consideram que “é nojento ainda haver gente que não é do MPLA”. Seja como for, certo é que os seus orgasmos atópicos só poderão originar uma gravidez igualmente atópica.

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