O Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço regressou, mais uma vez, como de tantas outras, de uma viagem ao exterior e, também, de malas vazias, pese, à partida, para a sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, ter tomado ciência da fragilidade dos cofres públicos.

Por William Tonet

Quando na manhã de regresso, bwé de UGP’s (Unidade da Guarda Presidencial) pipocavam, o perímetro do aeroporto e da cidade, augurava-se o desembarque, com o chefe de Estado, de contentores cheios de dólares, capazes de vitaminarem o emprego e a economia. Debalde.

De mãos vazias, o Presidente reafirmou à sua corte e afins, a firme convicção de continuar a prometer, prometer, prometer, quiçá, um milagre divino, em Dezembro, depois de esgotar o reforço de 16 milhões, para viagens ao estrangeiro, na incapacidade de pragmatismo, nestes dois anos, de uma política económica despida de iniciativas robustas, visionárias, de cidadania e patriótica.

Presidente, ainda bem que chegou para governar, pois o país sangra de fome, de falta de rumo, desemprego, inflação, injustiça, roubalheira dos fiscais e administrações e muito, muito descontentamento popular, por nada dar certo além da retórica que não alimenta, só revolta.

Se o país não avança e retrocede, desde 1975, deve-se fundamentalmente à visão obtusa, ao carácter discriminador e ao analfabetismo económico de quantos tenham estado no leme do país, no caso, o MPLA, que resiste em estender a mão à palmatória, reconhecendo os erros cometidos, escancarando oportunidades aos autores, despidos de qualquer partidocracia, mas munidos de valências e profundo sentimento pátrio.

Uma mixagem governativa (quadros independentes e quadros “virgens” do MPLA), através de uma ousadia presidencial, poderia, quem sabe, nestes dois anos, resultar em algo melhor do que a actual mediocridade económica e autoritarismo executivo, que coloca o país, a cada dia, mais no fundo do precipício.

Mas, quando no pedestal do cinismo, tentando confundir tudo e todos, se evoca o facto do actual Presidente (JLo) estar apenas há dois anos no poder, período raquítico em função dos 42 anos anteriores é o mesmo que sugerir ao cidadão “rebobinar” o seu disco duro mental, ao ano de 1977 e visionar João Lourenço enclausurado nas masmorras russas da Sibéria, deportado como preso político que se opunha directa e indirectamente, contra o regime do MPLA e apenas regressado, de forma apoteótica, a Angola em 2017.

A realidade, para nossa desgraça colectiva é outra. Da engenharia ideológica que, exclusivamente (desde 11 de Novembro de 1975), governou, desgovernou, afundou a indústria, a agricultura, os serviços, as pescas, amordaçou a política, as liberdades e a democracia, além de desbaratar, “corruptamente”, o dinheiro público dos cofres do Estado, fazem parte as impressões digitais de João Lourenço. Assim, num bwé fixe trocadilho popular: “qualquer realidade com a semelhança é mera coincidência”, ou seja, em Angola/MPLA, não se aplica a lógica: “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”, porque este é o único país do mundo, onde o arco-íris, por ser “Made in MPLA”, tem 44 aberrantes cores.

ERA MESMO NECESSÁRIO IR FALAR, AQUILO?

Mas a inveja de muitos, por uns poucos, o chamarem de Messias, pese nunca iluminarem o seu caminho, quanto à oportunidade, versus eficácia (com o país em crise) da necessidade de tantas viagens presidenciais ao exterior, sem que, até agora, tenham resultado na mobilização de empresários e capitais externos, para o chamado milagre económico lourencista, mesmo depois de se ter ajoelhado ao ocidente (uns consideram de forma subserviente e anti-patriótica) vendendo os seus camaradas de partido, titulando-os de marimbondos, prendendo uns, com o rótulo corrupção (justa e injustamente), única arma de arremesso, que dá certo na legislatura, por repetição ostensiva.

Internamente, a “corrupção lourencina”, já não mobiliza, perde eleitorado, converteu-se num slogan morto, caído no ridículo, por eficaz, apenas quanto ao aumento do desemprego, encerramento de empresas e serviços, suicídios de desmobilizados e pensionistas. Externamente, a “corrupção lourencina” já não capitaliza, por falta de credibilidade do programa económico e financeiro, neoliberal, que impulsiona impostos, numa sociedade, onde inexiste emprego, o sistema bancário não é credível, por falta de supervisão e dificuldade na aquisição de divisas, para a manutenção da actividade empresarial, bem como uma justiça, onde a procuradoria e os juízes, manietam as leis e subvertem o devido processo legal.

Por esta razão, ao assentar o discurso, em lugares comuns, diante de uma plateia de chefes de Estado, em Nova Iorque, onde a maioria, tinha problemas concretos, João Lourenço não conseguiu sensibilizar, sequer Washington, ali bem perto, para, questionar as razões da manutenção das reservas do Departamento do Tesouro, quanto ao envio de dólares para Angola. Esta viagem poderia ser melhor aproveitada e convertida em dois em um, ou seja, ir à ONU e a Washington em visita oficial, poupando-se assim dinheiro.

Na capital americana, ainda que não fosse recebido, na Casa Branca por Donald Trump, poderia rentabilizar a sua estadia com uma reunião de trabalho com Steven Mnuchin, secretário de Estado do Tesouro, para que este, com o compromisso do Presidente de Angola, apelasse à Reserva Federal (FED) americana para acelerar o processo de regresso dos dólares as operações bancárias, em Angola.

Assim, uma vez mais, a estratégia presidencial não augurou os resultados que seriam desejados, para a maioria sofrida dos angolanos, fartos de promessas vãs e julgamentos a um passado, que não tem reflexo positivo, na vida das pessoas. Não basta falar de corrupção, negar o passado, prender meia dúzia de “camaradas corruptos” (todos estão concentrados e ou são do MPLA), quando muitos milhares de desempregados vegetam pelo país sem saber o que dar aos filhos, fruto da política de raiva e ódio entre elefantes.

A lógica de pensavam que eu não era capaz, não é prenúncio de vitalidade de liderança, pois nesta esquina assenta que nem uma luva a assertiva de Angela Merkhel, chanceler alemã de, “um presidente ou líder não poder justificar os erros do presente, com a gestão do seu antecessor, pois quando se candidatou ao cargo, sabia da situação e foi para corrigir os erros e as políticas. Quando age em sentido contrário, jogando sempre o passado ou é incompetente ou é medíocre.”

Essa visão mostra a maturidade que um líder deve ter, quando em causa está o compromisso de emprestar, saber, vontade, disponibilidade, voluntariedade e senso de justiça, ao consulado pelo qual foi indicado, nomeado ou eleito.

A estrada é grande, a fome invade a maioria dos lares e, nestes dois anos, aumentou drasticamente, quando se um Pacto de Regime fosse aceite e levado avante, haveria um acordo entre as forças políticas, os acusados de crimes de corrupção, seriam chamados a trabalhar, em forma de condenação, para preservação da estabilidade social, do emprego e da vitalidade da economia, duas vezes mais. Pagariam, ao Estado, mensalmente, uma quantia em dinheiro, em função do quantum delapidado, por um certo período de tempo, seriam ainda, cumulativamente, condenados, a manter 85% dos empregos, por tempo indeterminado, a patrocinar hospitais e escolas, nas regiões, promover o desporto escolar e profissional, etc.. Seria uma opção diferente à da velha escola punitivista ocidental que, na maioria das vezes, não traz os resultados desejados e ansiados pela maioria dos cidadãos, quanto à devolução do dinheiro delapidado, que depois vai para os novos senhores da vez, aumentando desta forma o sofrimento popular.

Precisamos inovar e ousar, em função do momento e do contexto, contribuindo para uma nova visão da norma jurídico-penal, condenando, por exemplo, o réu corrupto, a uma pena de prisão maior, com a obrigatoriedade de prestação de serviços empresariais e público, ao invés desta gente, ficar postada ao ócio carcerário, com a possibilidade de movimentarem máquinas de calcular, onde perspectivam, no pós-prisão, como viver em grande, com os juros multiplicativos, legitimados pelo Estado.

João Lourenço poderia recorrer a uma fórmula pragmática, preferiu trilhar os mesmos caminhos, seguidos por operações fracassadas na Itália, com a “Operação Mãos Limpas” e no Brasil, com a “Operação Lava Jacto”, onde sectores políticos e do judiciário, que diziam combater a corrupção se converteram nos novos corruptos, banalizando uma tarefa importante, para moralização das sociedades, que deve estar entregue em gente séria e imparcial, visando acabar com vícios que matam a educação e saúde dos nossos filhos.

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