Um provérbio popular diz “que é quando a casa do vizinho está a incendiar que devemos colocar a barba de molho”. A justiça angolana está mal, aliás, nasceu mal, cresce mal e com o actual regime, morrerá mal, pois na actuação pirotécnica, lesa milhões de cidadãos, muitas vezes na lógica do espectáculo discriminador de um poder, cuja espinha dorsal assenta no fascismo ideológico.

Por William Tonet

E quando assim ocorre, mesmo na desproporção e desvantagem de armas, os homens de bem devem lutar para o desabrochar de uma verdadeira justiça cidadã, administrada por procuradores e juízes imparciais, escravos apenas do direito.

Hoje, o regabofe jurídico visa apenas consolidar um poder, afinal o mesmo, cujo objecto é o de se perpetuar, por todos os meios.

Felizmente, meu pai, ensinou-me do pedestal da sua autoridade moral, que uma das maiores virtudes de um cidadão, principalmente se comprometido com a política, é o de vestir, todos os dias a camisa da humildade e do espírito do perdão.

Na profissão, esta grata que orgulhosamente carrego, faz muitos anos, quantos os que se confundem na esquina do vento, o papel do jornalista é o de escrutinar os poderes instituídos, nunca o passado, que não volta e não gere o presente.

Por esta razão, sempre desertei dos exércitos da bajulação e da leviandade seguidista, quando os políticos apenas excitam os cidadãos para colher dividendos pessoais, ao invés de resolverem questões sistémicas.

Manuel Hélder Vieira Dias Kopelipa, o general e homem de primeira linha de José Eduardo dos Santos que (honra lhe seja feita) não mudou de barricada – ao contrário de muitos outros que estão sempre ao lado de quem estiver no Poder -. esteve no dia 24.04 na DNIAP- Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal. Será que isso é, por si só, matéria de facto para ser criminoso, suspeito ou arguido? Não. Aliás, até prova em contrário todos são inocentes. Ou será que, na ânsia de agradar ao Chefe, essa máxima basilar de um Estado de Direito foi invertida?

Na verdade, parece que a “lei” foi alterada e que até prova em contrário todos (os que não são da elite vigente) são culpados até prova em contrário, ou mesmo havendo prova inversa. E tanto assim é, ou querem que seja, que alguém da Procuradoria-Geral da República tratou de pôr a boca no trombone nas redes sociais para lançar a suspeita sobre Kopelipa.

Eu, particularmente, não tenho razões de estar contente com este general, pelos malefícios causados à minha vida, principalmente a profissional, com a cassação da minha carteira profissional, por defender, à época, Fernando Garcia Miala e Joaquim Ribeiro, injustamente, acusados e condenados.

Não acredito ter sido o consulado de Kopelipa cheio de virtudes, tão pouco seja um homem sem mácula, mas é precisamente por isso que estou impedido, por higiene intelectual, de exalar, maus fígados ou eleger o instinto de vingança, por agora já não ter poder e uma aliança com o “status quo” me poderia catapultar, qual marionete que dançaria de acordo com o “discotequeiro”.

Sou combatente contra as injustiças, pois vivi na pele, principalmente, a injustiça que visa os pobres, os discriminados e os mais fracos. Hoje ela visa, os arredados do poder, como justificativa de um combate à corrupção e a impunidade, quando se assiste a um conjunto de erros, praticados pelo Ministério Público, que na sua caminhada de afirmação, parece não prescindir de baixarias e humilhações.

Actualmente, o Ministério Público, com os decibéis da demagogia ao rubro, os seus trombonistas sabendo que o terreno da especulação face à débil preparação mental da maioria dos cidadãos, quase só emotiva e nada racional, “etilizada” pela actual liderança do país que faz passar a justificação de que os corruptos estão todos confinados ao séquito de Eduardo dos Santos, eleito por JLo como o Marimbondo-mor, logo, passou a mensagem de que mais um membro do séquito de JES, estaria a caminho de ser emprenhado.

Por isso, no dia 24.04, logo se ventilou a hipótese de Kopelipa ter ido prestar contas, na qualidade de arguido constituído, para fazer declarações sobre alegadas fortunas, licitas ou ilícitas acumuladas ao longo dos anos em que foi chefe da Casa de Segurança e do Gabinete de Reconstrução Nacional. Nesta luta em que vale tudo, dentro do MPLA, JLo baixou a ordem superior de que não importa a sociedade que se vai construir, mas sim a urgência em destruir a que existe.

Afinal a que se deveu a presença, desta vez, de Kopelipa, no DNIAP?

A esta pergunta, o procurador Josias Malaquias desvendou – de forma lapidar – o mistério ao F8: “É possível que ele venha, um dia, ao DNIAP como arguido, uma vez fazer parte da turma dos marimbondos do ex-presidente Eduardo dos Santos, que têm de justificar a riqueza que ostentam, mas desta vez, pelo que sei, veio acompanhar a direcção da Biocom (uma vez a sua empresa fazer parte deste grupo), sobre alegados dinheiros aboletados da SONANGOL”.

Recorde-se haver, alegadamente, uma orientação de JLo de se perseguir, para investigação e apuramento de responsabilidades financeiras, patrimoniais de empresas privadas que tenham sido ilicitamente abonadas com dinheiro da Sonangol.

A Biocom tem no leque de accionistas a Sonangol e deduz-se que milhões tenham sido ilicitamente canalizadas, para esta entidade vocacionada a produção de açúcar e outros derivados.

Relembre-se que 20% do capital da Biocom pertence à Sonangol, empresa estatal angolana do ramo petrolífero que tem como objectivo principal a prospecção, pesquisa, desenvolvimento, produção, transporte, comercialização, refinação e transformação de hidrocarbonetos líquidos e gasosos e seus derivados, incluindo actividades de petroquímica;

40% do capital é da COCHAN, empresa líder em investimentos globais de capital em mercados de elevado potencial, actuando nos segmentos de comércio, agro-indústria e logística comercial;

E que os restantes 40% do capital pertencem à Odebrecht Angola Projectos e Serviços Lda, empresa de direito brasileiro e angolano que actua na área de engenharia, agro-indústria e construção civil.

“Ao que parece a ideia que havia de um eventual ilícito se esfumou, pois houve precipitação de informação prestada ao Presidente da República de que haveria ilegalidade e transferência ilícita de dinheiro da petrolífera estatal para a Biocom, mas afinal o que se constatou foi que o general desvendou o enigma, esclarecendo nunca ter a SONANGOL dado dinheiro a fundo perdido, pelo contrário, enquanto accionista não só faz parte da sociedade, como também concedeu um empréstimo legal, à luz das leis em vigor, cunhado num contrato escrito, entre as partes”, esclareceu a mesma fonte.

Então ainda não foi desta que, como sectores que pretendem ser (e em alguns casos até são mesmo) mais papistas que o próprio Papa (no caso JLo), mais um homem de JES iria parar à cadeia, pese Kopelipa estar, ao que parece, na linha da frente dos que têm de ser “abatidos” para que o “animal” antropófago sobreviva e possa, inclusivamente, ser alimentado pelos tratadores internacionais.

A Biocom (que, por sinal, não é obra dos actuais donos do país) é a primeira empresa de Angola a produzir e a comercializar açúcar, etanol e energia eléctrica a partir da biomassa.

Instalada no PAC – Polo Agro-Industrial de Capanda, na Província de Malanje, Município de Cacuso, numa área de 81.201 hectares dos quais 70.106 são agricultáveis e 11.095 destinam-se a áreas de preservação permanente da vegetação nativa, a empresa destaca-se pela modernidade e tecnologia aplicadas no processo industrial e agrícola.

A produção de açúcar da Biocom destina-se ao mercado interno, a produção de energia eléctrica tem como Cliente a RNT (Rede Nacional de Transporte de Electricidade) e o etanol é fornecido às indústrias de bebida e produtos de limpeza.

A Biocom tem como visão, contribuir com o desenvolvimento de Angola por meio da produção de alimentos, da produção de energia eléctrica a partir da biomassa e da produção de combustíveis a partir de fontes renováveis.

A estratégia da empresa é pautada pela competitividade, sustentabilidade e pelo foco em Pessoas, apoiando-se nas seguintes directrizes:

Estabelecer uma relação de longo prazo e de confiança com Clientes, parceiros e fornecedores, sendo reconhecida pela capacidade de realização, transparência e excelência de resultados;

Integrar-se na sociedade, contribuindo para o desenvolvimento sustentável da comunidade onde actuamos;

Promover o crescimento e desenvolvimento dos nossos Integrantes, com foco na segurança do trabalho e no respeito pelo meio ambiente.

Finalmente, ainda não foi desta, que Manuel Helder Vieira Dias Kopelipa vai responder por eventuais actos ilícitos, praticados, quando era o turbo de JES. Se tiver uma robusta acusação, com direito a defesa, ninguém se deve opor, mas de nada vale, o apologismo da vingança.

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