O meu amigo William Tonet fez-me o desafio de escrever algumas linhas sobre o Folha 8 e eu aceitei, porque embora não esteja sempre de acordo com o que ele escreve ou o que é publicado no Folha 8, tenho de ser honesto o suficiente para dizer no mínimo, que lhe gabo a coragem.

Por Urbano Chassanha

Aceitei também por William Tonet, embora tal faceta nunca tenha sido oficialmente reconhecida, foi o primeiro mediador da guerra civil angolana, em 1991, no Luena e por isso mesmo, o considero um injustiçado.

Quando eu tinha 6 anos dei por mim a ler um artigo de um jornal na barbearia do velho Herculano (o Rato Cego) no Bailundo. Assim, sem mais nem menos. Foi uma sensação única, indescritível. Sôfrego dei por mim a ler artigo atrás de artigo. Claro que conhecia as letras, claro que formava palavras na escola, mas eu refiro-me concretamente ao texto no seu todo. Lê-lo e compreendê-lo em simultâneo era mais que uma descoberta. Era uma dádiva. De tal forma, que daquela idade é a recordação mais nítida que guardo.

Encontrar um texto bem escrito não é fácil, nos dias de hoje. Encontrar um colunista que consegue conciliar o conhecimento, com a maneira harmoniosa como discorre as frases, o seu encadeamento, o ritmo e sobretudo a lição de vida que dali tiramos é, e será sempre uma agradável surpresa nos dias que correm.

E é assim meu amigo Tonet, mesmo não estando de acordo contigo em alguns dos teus escritos, uma coisa te posso afiançar – tu és, sem dúvida, uma das maiores penas que o País pariu, no que ao jornalismo diz respeito.

Falando do Folha 8 em particular

Quando no dia 5 de Dezembro de 1994 cheguei a Luanda, vindo de Lusaka apenas dois jornais, pelo que me tivesse apercebido, ousavam criticar o regime: o Imparcial Fax do malogrado Ricardo Melo e o Folha 8. Quis a desventura que o Folha 8 ficasse praticamente só no exercício hercúleo de remar contra a maré.

Eram os primeiros passos em busca da aceitação do contraditório no País. Era um desafio que colocava em prática uma citação de Dilma Rousseff e que dificilmente poderia agradar a gregos e a troianos: “A imprensa que constrói uma democracia é a imprensa que fala o que quer, dá opinião que quer e se manifesta do jeito que bem entende.”

Sei que a luta que o vosso jornal leva a cabo, contra um jornalismo montado e financiado pelas grandes famílias comprometido exclusivamente com a preservação do seu paradigma, tentando sempre vender uma pseudo pluralidade de forma bastante sofisticada, não é fácil, e por isso mesmo, eu sou um admirador confesso da vossa tenacidade.

Tentei nas minhas pesquisas encontrar alguma matéria que expressasse o mais real possível o trabalho que o Folha 8 leva a cabo na sua senda e encontrei uma citação de George Orwell que vos serve que nem uma luva: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”

Não querendo ser mais papista que o Papa, permitam-me um conselho: Rompam com o status quo existente e tragam ao conhecimento do grande público, coisas boas da nossa terra.

Mantenham a independência dos poderes políticos que o vosso jornal encarna e preserva.

O que os angolanos precisam é de um jornalismo plural de facto.

O jornalismo precisa no mínimo ser justo e honesto.

Os jornalistas necessitam ser intrépidos na denúncia das injustiças, mas o mais exacto e honesto possível, nos relatos que fazem.

Fico autenticamente doente quando vejo os jornais abdicarem da sua responsabilidade social e se tornam disseminadores da desinformação e da ignorância.

Exige-se aos jornalistas, como intelectuais que são, compreender o momento político que o País atravessa e colocarem-se o mais rapidamente possível e intransigentemente ao serviço da causa da defesa da democracia, para acabarmos de vez, como Josemar Bosi disse: “Se a notícia publicada, nada tem a ver comigo, é “liberdade de imprensa”, mas se tiver, é “invasão de privacidade”.

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