O empresário e filantropo Mo Ibrahim afirmou, em entrevista à agência Lusa, estar “muito surpreendido” com as mudanças políticas em Angola. Bastou ao jacaré dizer que é vegetariano e ele (como muitos outros) acreditou. Ninguém cuida em verificar se, no remanso do seu esconderijo, ele não continua a ser carnívoro. É assim que se “elegem” os ditadores.

Por Orlando Castro

“F iquei muito surpreendido pelas mudanças em Angola porque todos assumimos que o novo Presidente de Angola [João Lourenço], que era um aliado do anterior Presidente e fiel à anterior liderança, seria alguém que iria proteger essa liderança”, disse Mo Ibrahim.

Para Mo Ibrahim, quando chegou ao poder, João Lourenço provou ser independente, dando como exemplo a forma como lidou com os filhos do anterior chefe de Estado, José Eduardo dos Santos. Terá essa estratégia sido apenas uma operação de marketing? Terá sido apenas fogo-fátuo para agradar a uma população sedenta de ajustar contas com quem esteve no Poder 38 anos sem ter sido, como também foi o caso de João Lourenço, nominalmente eleito? Nada disso interessa… por enquanto. Para passar de bestial a besta basta altera duas letras…

“Não tenho a pretensão de entender em detalhe o que se passa no país, mas adoraria encontrar-me com o Presidente de Angola para tentar perceber como é que ele pensa e o que está a acontecer. É um país africano importante e espero que comecem a prestar atenção à importância da boa governação”, considerou Mo Ibrahim.

O fundador e presidente da Fundação Mo Ibrahim acha, a fazer fé nestas declarações, que ter supostamente tirado o tapete aos filhos de José Eduardo dos Santos faz de João Lourenço o messias de que Angola tanto precisa. Esquece-se que mudar as moscas sem limpar a porcaria manterá vivo e intacto o putrefacto habitat no qual o MPLA se move como peixe na água. Esquece-se que se João Lourenço quisesse mesmo acabar com a corrupção isso resultaria na extinção do seu partido, o MPLA.

Onde anda, hoje, o Mo Ibrahim que nos habituou a separar o trigo do joio, a distinguir o que são promessas do que são obras, a ver a diferença entre a obra-prima do Mestre e a prima do mestre de obras?

Onde anda, hoje, o Mo Ibrahim que responsabilizava as “falhas monumentais dos líderes africanos após a independência”, explicando sem meias palavras (coisa cada vez mais rara) que, “quando nasceram os primeiros Estados africanos independentes, nos anos 50, África estava melhor em termos económicos do que está hoje”?

Onde anda, hoje, o Mo Ibrahim que dizia que que os interesses da Europa apenas podem ser duravelmente garantidos pela democracia e não pelo apoio aos ditadores? No caso de Angola, Mo Ibrahim sabe que João Lourenço foi “eleito” como cabeça-de-lista do MPLA (não nominalmente, repita-se) num acto fraudulento e a transbordar batota por todos os poros. Recorde-se que ainda não havia resultados oficiais e já o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, corria a felicitar João Lourenço pela vitória.

“Se a Europa quer garantir a longo prazo os seus interesses, ela tem todo interesse em se aproximar dos povos africanos. Pensar que a conivência com os ditadores seria benéfica é um grande erro”, indicou Mo Ibrahim. É verdade. Mas, ao que parece, até ele está agora rendido ao facto de haver ditadores bons e ditadores maus.

Onde anda, hoje, o Mo Ibrahim que qualificava de “vergonhoso e um golpe à dignidade” a contínua dependência de África em relação ao ocidente, tendo em conta os “recursos impressionantes” que abundam no continente?

Onde anda, hoje, o Mo Ibrahim que dizia: “Não se justificam a fome, a ignorância e a doença que assolam África”, referindo que a solução terá de passar obrigatoriamente por “bons líderes, boas instituições e boa governação”, sem os quais “não haverá Estado de Direito, não haverá desenvolvimento”?

Em relação às posições da Europa, recordo-me que Margaret Thatcher, que em Maio de 1979 se tornou a primeira mulher a dirigir um governo britânico, proibiu nesse ano o seu enviado especial à então Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe.

E fê-lo para defender a democracia? Para lutar contra as ditaduras?

Não. O argumento, repare-se, era o de que “não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros”.

“Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da ‘Frente Patriótica’. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros”, escreveu – e sublinhou várias vezes – numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será, mas os africanos em geral e os angolanos em particular (nomeadamente os 20 milhões de pobres) mereciam, neste caso, mais respeito por parte de Mo Ibrahim.

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