O líder da UNITA encorajou, hoje, o Executivo angolano a prosseguir o combate à corrupção e alertou para as consequências do desemprego e da inflação. Uma novidade. Se Isaías Samakuva fala de “prosseguir” o combate à corrupção é porque esse combate já existe. E se existe ainda não se notou…

Em declarações à imprensa, depois de ter sido recebido em audiência pelo Presidente da República, João Lourenço, Isaías Samakuva reafirmou a necessidade do país lutar contra a corrupção. Necessidade sim, mas só se pode “prosseguir” algo que já exista de facto e não apenas, como acontece agora, num cardápio populista para os financiadores verem.

“A UNITA sempre falou da necessidade de lutarmos firmemente contra a corrupção e estamos a seguir o processo de perto”, frisou Samakuva. De perto? Isso significa o quê? Pelas redes sociais, pela imprensa, pelos comunicados e “fake news” do Comité Central do MPLA?

O líder do maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permite que exista em Angola é de opinião que se deve reforçar o que tem sido feito relativamente ao fenómeno “corrupção”. Acrescentou, no entanto, que o processo deve ser melhorado. Ou seja?

“Infelizmente as leis aprovadas pela Assembleia Nacional não foram ao encontro do que gostaríamos de ver”, disse no final da audiência de cerca de hora e meia.

Segundo o presidente da UNITA, o desemprego aumenta, o Kwanza perde o valor real face a outras moedas, o que considerou preocupante para a estabilidade social das famílias.

Outro assunto abordado no encontro com o Presidente João Lourenço, igualmente Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo foi o processo relativo ao enterro dos restos mortais do antigo líder da UNITA, Jonas Savimbi.

Conforme referiu Isaías Samakuva, o seu partido aguarda a chegada dos resultados dos testes de ADN, que estão a ser feitos no estrangeiro (África do Sul e Portugal), para se proceder à inumação.

Os restos mortais do líder fundador da UNITA, Jonas Savimbi, morto em combate a 22 de Fevereiro de 2002, na localidade do Lucusse, província do Moxico, foram exumados a 31 de Janeiro último no cemitério municipal do Luena, a fim de recolher amostras para os testes de ADN.

Por falar no ADN do MPLA (a corrupção)

E para quem acredita (se é que ainda alguém acredita) que João Lourenço estará a fazer uma guerra aberta à corrupção convém perguntar se o MPLA – composto esmagadoramente por corruptos genuínos – estará disposto à imolação. Não é isto que manda a tradição do partido. Pelo contrário, a tradição manda culpar os outros pelos seus próprios erros.

Enquanto durou a guerra, o MPLA, no Governo desde que Angola deixou de ser província ultramarina de Portugal, justificou o descalabro social e económico com o conflito. Deitou todas as culpas pela destruição do país à UNITA, e o sujeito-culpado era o seu presidente-fundador Jonas Savimbi. Este foi morto em 2002 – fim da guerra -, mas como Angola continua no topo dos piores índices mundiais então o culpado pela estagnação, culpava o MPLA-JES, ainda era a UNITA.

E deste MPLA, outrora PT, sempre fez parte o actual presidente. Ambos, distintos produtos da casa, aprenderam a culpar os outros. É desta forma que temos João Lourenço agora a fazer o mesmo que José Eduardo dos Santos fazia, mas desta vez culpando o seu antecessor.

Convencido de que a sociedade angolana e comunidade internacional aguardam ansiosos por ver o clã dos Santos e seus outrora mais próximos na lama, João Lourenço sabia que este era o seu trunfo para subir no ranking da popularidade como um justiceiro intrapartidário. Exonerar e extinguir tudo o que esteja ligado à prole de JES, com enfoque sobretudo em Isabel dos Santos, uma espécie de Jonas Savimbi dos tempos actuais.

João Lourenço, enquanto membro do Conselho de Ministros, sempre aprovou as ilegais concessões milionárias que José Eduardo dos Santos foi dando aos filhos, e igualmente a forma repressiva como foram tratados todos os que ousaram reivindicar pacificamente por direitos humanos e que denunciaram a corrupção da qual ele também beneficiou em larga escala.

Apresentou-se ao Parlamento Europeu com um discurso a culpar. Culpou os camaradas que roubaram dinheiro e colocaram noutros países – sem nunca ter dito onde colocou o que também roubou -, e mencionou orgulhosamente a sua lei de branqueamento de capitais – chamada de repatriamento -, referiu os processos judiciais contra alguns cleptocratas de baixo coturno, e inclusive culpou e desculpou-se pelos africanos que emigram para a Europa.

Mas nem sempre poderá culpar quem culpa agora, e então passará à fase seguinte, que está em construção enquanto se escuda em exonerações. João Lourenço tem dito que não tem exonerado por razões políticas, mas não explica quais as razões afinal. Em regra, as exonerações não têm quaisquer esclarecimentos ao povo soberano. Essa é uma postura arrogante, autoritária, a mesma que marcou o longevo reinado do anterior presidente. Uma postura à medida da tradição do partido.

A cereja no topo do bolo aconteceu com a coroação como presidente do MPLA. Era o culminar de mais e mais poder. E lá chegou sem uma eleição disputada com outros candidatos. Ou seja, foi elevado a dono-disto-tudo por aclamação, como manda a tradição do partido.

Alguns defendem que ele devia mesmo acumular todos os poderes que o anterior detinha com o argumento de que só assim poderá executar plenamente as reformas que alardeia pelos quatro ventos. Será? Está-se a ver. Foi com fundamento semelhante que José Eduardo dos Santos também se transformou em dono-disto-tudo-e-arredores. A construção de um ditador.

Partilhe este artigo