O optimismo por natureza não deve menosprezar o irmão siamês; o pessimismo, principalmente, em países onde as lideranças, complexadamente, acreditam apenas na fórmula ocidental, para a resolução dos problemas fundamentais dos cidadãos africanos ou latino americanos.

Por William Tonet

A primeira trincheira (optimismo) alimenta o sonho de libertação e cidadania, já a segunda (pessimismo) a desilusão das más práticas governativas, identificadas com o que de pior tinha o colonialismo, a nova forma de exploração, assente no neocolonialismo ou colonialismo negro, que subjuga com toneladas de impostos a maioria preta e outras minorias autóctones patrióticas.

Em Angola, desde 2017, quando uns prometeram um novo desfraldar da bandeira, não tiveram em linha de conta a maternidade que pariu os arautos da alegada boa nova. Não é diferente, pelo contrário…

O problema de Angola não é, a ou, as pessoas de ontem, melhor não é endémico, mas sistémico. Não se trata, apenas da má governação de José Eduardo dos Santos, ao longo de 38 anos (em nome e representando o MPLA), mas de um regime caboucado na arrogância, na discriminação, no absolutismo, que antes o suportou e, agora, faz o mesmo com João Lourenço.

A natureza perversa não se altera sem uma reforma interna e uma revolução patriótica visando o fim do sistema partidocrático, em agonia total, fazendo emergir, um verdadeiramente republicano.

O actual regime angolano acredita que com recauchutagens e paliativos, a água não continuará a entrar num navio velho com 44 anos de idade, quando para se contornar a tempestade se exige marinheiros e comandantes, não só destemidos, mas frios na hora de decidir, a direcção a seguir.

A envergadura dos estragos impõe, uma união de todas as forças vivas do país, fora do espectro do MPLA, para a construção de um novo projecto político, social e económico de matriz, “Ango-Bantu-Africana”.

O sistema socioeconómico do partido no poder, está corroído, putrefacto, sem soluções de guindar a esquerda e encontrar o norte, sem hipotecar, cada vez mais, o país ao capital estrangeiro.

O problema do caos económico não se pode cingir no apontar de dedo a José Eduardo dos Santos e à sua equipa técnica, mas ao sistema partidário que ele encarnou e fortificou como poucos em África e no mundo, tornando o partido MPLA, o órgão com mais infra-estruturas que a Educação e a Saúde, juntas.

Facilmente se verifica, sem fanatismo, que o consulado de JES visava a perpetuação do regime partidocrata do MPLA, por qualquer via, nem que para isso tivesse de comer algum dos seus filhos (como parece estar a acontecer), para iludir os cidadãos escravizados, pobres e desempregados de haver uma aversão ao passado.

E tanto assim é que ninguém se opôs à indicação e nomeação de João Lourenço, exclusivamente, por José Eduardo dos Santos, que sem consulta a nenhum órgãos colegial tomou a decisão, afastando e violando o princípio de democracia interna, pelo menos, textualizado nos seus estatutos.

Nem os mais iluminados contestaram, na hora, tal decisão e não o fizeram, por uma simples razão, não era só a vontade do chefe, mas da máquina invisível do sistema, que torna absoluto o poder do líder.

Quando alguém ousa, no MPLA, andar em sentido contrário ao pensamento do chefe, mesmo que impregnado de ideias bestas ou boçais, tem sobre o dorso a espada do ostracismo e da crucificação política e social.

E se dúvidas houvesse basta rememorar as forças paralelas de apoio ao chefe, como as antigas ODP, Comissões Populares de Bairro e agora se implantam as Brigadas de Vigilância, que são uma encarnação das antigas milícias paramilitares de François Duvalier “Papa Doc”, do Haiti, os Tonton Macoute, que visam blindar o chefe, ante a insatisfação popular. Ao longo do percurso podem mudar de nome, como vem ocorrendo em Angola ou mesmo em 1970, no Haiti, ao ser rebaptizada como Milice de Volontaires de la Sécurité Nationale (Milícia dos Voluntários de Segurança Nacional – MVSN). Na Europa, mais propriamente, na Itália houve, a época do fascismo de Benito Mussolini, as milícias denominadas “camisas negras fascistas”, na década de 1920.

Estes grupos e Angola não fugirá à regra, visam espionar a vida dos cidadãos, limitar os movimentos, a actividade política, principalmente, dos partidos da oposição, se estes assentarem a sua acção nos valores das Liberdade e Democracia.

Não se vislumbra justiça, respeito as leis e a Constituição, capaz de ser charneira de uma nova aurora, face à acção quotidiana, assente na selectividade da espécie, qual seja, os contrários aos donos da situação.

Não acredito, pelo andar da carruagem, no êxito das intenções programáticas do novo Titular do Poder Executivo, enquanto timoneiro de um navio cuja bússola, pára no ponteiro de viés de pensamento único e democracia amordaçada, onde a pluralidade reside apenas nos elogios ao chefe: “grande líder; líder iluminado”.

O jornalista tem um papel fulcral, na manutenção de regimes ditatoriais ou na abertura e implantação de uma democracia cidadã, quando o sangue do país se está a esvair, com consequências desastrosas.

Assumir o bastão da liberdade, da democracia, da igualdade, em países subdesenvolvidos onde o analfabetismo é regra de dominação, não é tarefa fácil, não é missão de covardes, de oportunistas, de bajuladores, por encerrar, em si, a tesão de uma nobreza sem par, alimentadora do carácter de quem prefere a verticalidade da coluna ao vergar humilhante, ante a tirania, por mais revestida que esteja.

Conheço a injustiça, por isso a abomino, por ser, infelizmente, a imagem de marca, deste regime, sem titular, individual, mas de um, com poder executivo, gigante, anormal em democracia, por esvaziar os órgãos do Estado (Legislativo, Executivo, Judicial), que passam a ser, espezinhados e vulgarizados, por um homem com muitos poderes.

A injustiça, que recaiu no dorso, não teve paternidade individual, mas regimental, porque endémica, não estripando dos métodos de avaliação de quem pensa diferente, na viragem e passagem de testemunho. Os contrários, continuam a ser perseguidos, subtilmente, mas de forma abjecta, por ser a natureza do regime, que adora o pensamento monocórdico. Percebemos não com olhos de olhar, mas com olhos de ver, que se não me alistar no exército dos “novos bajuladores”, a justiça contra a injustiça sistémica, que me persegue profissionalmente, não cessará. Por esta razão não vejo diferenças num sistema em o centro do mal, quer combater o cancro com paracetamol, por lhe conferir poderes especiais.

Muitos de nós, diferentes, no pensamento unanimista, fomos julgados por um Tribunal Marcial, que no meu caso, mentiu e continua a manter a mesma mentira, com os prejuízos daí inerentes a minha esfera pessoal. Com a conivência de toda máquina dos serviços secretos MILITAR e civil, o procurador militar adjunto, Adão Adriano mentiu, o Bastonário da Ordem de Advogados, Hermenegildo Cachimbombo mentiu, o director da Faculdade de Direito, Carlos Teixeira mentiu, o ex-ministro do Ensino Superior, Adão do Nascimento mentiu, o juiz militar, general Cristo, mentiu, o juiz adjunto, brigadeiro Salvador mentiu, o procurador Militar, à época, Pitta Groz ao caucionar, mentiu, todos mancomunados para prejudicar uma voz que considera(va)m incómoda por reclamar justiça, liberdade, democracia e justiça, paradoxalmente, contra a injustiça que pesava contra dois homens públicos, servidores do próprio regime, acusados e condenados sem provas: Fernando Garcia Miala e Joaquim Ribeiro + 21 Polícias.

O tempo passou, os ares libertaram uns, os outros continuam presos e nós injustiçados, por algozes que continuam com a faculdade de mandar inocentes para a guilhotina.

Como nesse quadro aceitar ou acreditar que a víbora, de ontem, hoje, virou minhoca?

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