A vice-presidente do MPLA, Luísa Damião, disse que o partido pretende que os seus quadros e dirigentes sejam efectivamente defensores intransigentes da linha política, dos princípios e valores da orientação ideológica da organização, respeitando o povo e lutando, incansavelmente, pela defesa dos seus interesses. Isso inclui a “linha política” exemplificada pelos massacres de 27 de Maio de 1977?

A responsável, que falava na abertura do curso de formação político-ideológica para os membros do Comité Central, disse que o MPLA encara a elevação constante do nível politico-ideológico e cultural dos quadros, dirigentes e militantes como uma das mais importantes tarefas da construção do partido, para que sejam exemplares na luta pela causa da agremiação e na materialização do seu programa, visando a melhoria das condições de vida e do bem-estar social do povo angolano.

Tem razão. Por alguma razão, ao fim de 44 anos de governação, o MPLA conseguiu a notável proeza de ter no país 20 milhões de pobres, gerir um dos países mais corruptos do mundo, registar alguns dos mais altos índices de iniquidade social e de mortalidade infantil, bem como uma elite que é das mais ricas do mundo.

A iniciativa da direcção do partido, explicou Luísa Damião, radica na necessidade de se intensificar e de se dotarem os quadros e dirigentes dos fundamentos inerentes à ordem organizativa e ideológica, face à missão do MPLA e aos novos desafios. Ou seja, tudo fazer para que Angola continua a ser o MPLA e para que o MPLA continue a ser Angola, mesmo que tenha de mentir, como fez o Presidente do partido, João Lourenço, quando disse ao mundo que em Angola não havia fome.

A líder partidária afirma ser, igualmente, uma oportunidade para familiarizar os novos membros do Comité Central, através de orientações e normas estratégicas que presidem à organização e garantem a unidade de acção dos militantes. Tudo se resume à tese de que a educação patriótico… do MPLA é o mais alto valor que pode ser almejado por todos quantos advogam um país esclavagista.

Luísa Damião defende que a educação, sempre dentro dos espírito dos fundamentos político-ideológicos, é a mais importante tarefa de todas as actividades do partido. Fundamentos que passaram pela defesa letal do marxismo-leninismo, do capitalismo selvagem, do socialismo parasitário, da social-democracia do fiado e por aí fora.

“Os órgãos e organismos de direcção, em particular o Comité Central, defendem que o conhecimento é uma das armas mais importantes para o combate político e a principal condição do êxito no exercício pelo partido do seu papel de força dirigente do Estado angolano”, referiu Luísa Damião. Conhecimento baseado também no facto, indesmentível, de que Agostinho Neto é o único herói nacional e não um genocida da pior espécie que todos deveriam condenar e sentir-se envergonhados por ele ser angolano.

Para Luísa Damião, a fidelidade (canina) “aos principais valores orientadores da nossa acção política é uma condição obrigatória que deve ser observada pelos membros, respeitando-os em todas as circunstâncias e em todas as situações possíveis, a fim de que não só seja mero conhecimento, mas também uma causa concreta”. Ainda bem que a vice-presidente do MPLA disse tudo isto. Embora amanhã possa, como é costume, dizer que não disse, é certo que os angolanos que pensam com a cabeça certa ficam a saber (se acaso já não sabiam) o que é que o MPLA pensa, quer e impõe.

Luísa Damião chamou a atenção para as responsabilidades dos membros do Comité Central, alegando ser uma missão difícil e complexa que exige muita dedicação, trabalho, identidade político-partidária, fidelidade e comprometimento. Faltou acrescentar a fidelidade canina, a bajulação, a subserviência e o endeusamento a quem for o “querido líder” na altura. Tal como ela fez quando endeusou José Eduardo dos Santos e depois passou a fazer o mesmo a João Lourenço e fará a qualquer um, mesmo que esse se chame Bento Kangamba, Nuno “Carnaval” ou… Kalupeteka.

Por isso é que ela defende uma “visão ampla, convicção política, capacidade e disponibilidade para o trabalho” como outras das exigências de um membro do Comité Central.

Quanto às autarquias, a vice-presidente do MPLA considerou uma grande viragem na vida política de Angola e na maneira de fazer política, tendo apelado à participação de todos, por estarem sujeitos a uma intensa agenda de tarefas estratégicas, com destaque para a divulgação do Pacote Legislativos Eleitoral, visando atingir os objectivos traçados pela direcção partidária. Objectivos que passam, ela não disse mas sabe, por só realizar eleições autárquicas quando o MPLA tiver a certeza de que as ganha folgadamente, quando a máquina eleitoral do Estado/MPLA estiver suficientemente afinada para conseguir converter em votos no MPLA os que pertençam a outros partidos.

Partido Estado, Estado partido

A nossa querida Luísa Damião é mesmo uma prestidigitadora sublime, até mesmo quando refuta que haja partidarização em Angola, na escolha dos quadros que dirigem o país. Tem toda a razão. Como é que alguém pode falar de partidarização se, desde 1975, todos sabem que o MPLA é Angola e que Angola é o MPLA?

“Não acho que haja, assim, tanta partidarização, porque o partido que vence as eleições está no direito de escolher quadros da sua confiança. E em qualquer país do Mundo é assim que acontece. Não é que haja partidarização. Não”, sustentou Luísa Damião com o brilhantismo intelectual que se lhe reconhece. E como para além dos que trabalham nos partidos não há quadros independentes…

Aliás, como nos ensinaram os grandes líderes da nossa classe operária, Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e agora João Lourenço, em Angola a regra revolucionária era, é e será sempre a mesma: Entre um génio sem partido e um néscio com cartão do MPLA, o patriotismo exige que se contrate o néscio.

“Revisionismo histórico: promotor da Unidade Nacional, ou instrumento de manipulação e opressão política?” “Dos fracos e vencidos não reza a História”, são as traves-mestras das políticas do MPLA, pouco importando que por circunstancialismo estratégicos de manutenção de poder seja necessário, de quando em vez, dizer o contrário e até sacrificar algum dirigente.

Que o MPLA nunca foi um partido preocupado com a inclusão “dos outros”, tão angolanos quanto os seus próprios militantes (alguns se calhar até mais), trazendo-os para o palco do debate político consequente, disso ninguém pode ter dúvidas. Entre “integrar” e “submeter”, a escolha tem sempre recaído na 2.ª alternativa. Sem surpresa! Está no seu ADN.

O MPLA sempre cultivou a ideia de que, fora do Partido, “nem inteligência e nem sapiência!”. Dito de outra forma, o partido hegemónico em Angola, atento ao seu autoproclamado papel messiânico, desde cedo incutiu nos seus militantes a crença de que entregar os comandos do País à Oposição, qualquer que ela fosse, seria o mesmo que “abrir as portas do inferno”. Sem o MPLA para nos valer, profetizam os seus dirigentes, restaria apenas um deserto estéril e amorfo, e os angolanos perderiam a sua identidade, tornando-se um povo à deriva, sem futuro e sem esperança.

Nada mais falso. Mas é preciso estar sempre atento. A máquina da propaganda, que entre cargos para uns e fuba (mesmo que podre) para quase todos, nos abalroa todos os dias e não tem descanso. Trabalha sem parar.

A hegemonia opressora do MPLA (partido que criou e desenvolveu, à sua volta, uma aura santificada de infalibilidade) tem condicionado, fortemente, o surgimento e consolidação de uma alternativa sólida de governo, minando a autoconfiança dos agentes políticos da Oposição, “domesticando-os” em certa medida, e adormecendo-os “num sono de benesses e falsas honrarias”. E o medo do desafio de governar a enorme crise angolana, cheia de buracos escuros e de alçapões, adensa-se e toma conta dos líderes da Oposição, que receiam atirar-se à “fogueira”. Por isso reagem timidamente e nunca agem.

O despudor inerente ao revisionismo histórico em Angola não incomoda… nunca incomodou a “cadeira do Poder”. Antes pelo contrário. A acção deliberada de falsear a História visa reforçar o “castelo” onde se refugia e prospera a chamada “elite dirigente”. Extirpar do seu sentido maior, por exemplo, o esforço patriótico empreendido pelos demais partidos históricos, que também tiveram o seu quinhão na luta anticolonialista, significa retirar importância à própria luta armada, e ao sacrifício representado pela morte de milhares de angolanos. Mas também aqui, a necessidade permanente de reafirmação política da “elite dirigente” sobrepõe-se a qualquer outro ditame, não admitindo, à “concorrência”, a veleidade de grandes voos… nem mesmo que só históricos.

Por preguiça mental, alguns intelectuais e historiadores angolanos (acríticos, ou mais ou menos a soldo do regime) não se dão, sequer, ao trabalho de consultar, seriamente, as numerosas fontes históricas que retratam um MPLA-guerrilheiro, conduzido com uma visão profundamente autocrática e violenta, e que, uma vez proclamada a Dipanda, logrou trazer para o Estado embrionário que criou e ainda tutela, todos os vícios totalitários dos regimes políticos que o influenciaram.

O Povo angolano sabe quem são os seus verdadeiros heróis, e não os mistura com os “heróis de plástico” apresentados pela propaganda oficial. “Verdadeiros heróis” porque também os há fabricados, alindados no seu carácter, despidos das suas contradições e excessos, alguns deles alçados mesmo à condição de semideuses… os “eternos libertadores do Povo”, a quem tudo é permitido. E é aqui que reside o problema.

Angola tem sido mergulhada, ao longo das últimas décadas, numa intencional lavagem cerebral, de consequências imprevisíveis para o resgate da Verdade histórica, que se desejaria inclusiva e plural.

Já ao tempo da luta armada, cedo o MPLA revelou o que lhe ia na alma: o seu carácter exclusivista, sectário, defensor da exclusão do “outro”. Por isso, também, ainda que se arvorasse a pertença a um extracto superior de revolucionários, nunca o MPLA se inclinou a construir pontes com outros movimentos nacionalistas, condenando nestes a ousadia de lhe disputarem o título de libertadores e o exclusivismo revolucionário. E a situação mantém-se, sem evidência de qualquer vontade de mudança.

Para apagar o contributo dos principais partidos da Oposição da memória das gerações pós-Independência, não é preciso que se fale mal desses patriotas. Basta que, nos livros oficiais adoptados pelas escolas do País, não se fale da sua acção em prol da autonomia da Nação. É, pois, o “apagamento propositado do outro” que nos conduz à situação presente de hegemonia do MPLA na sociedade angolana. O grande culpado da falta de preparação da Oposição para o exercício do Poder é o próprio partido que dela tem beneficiado. Daí a mesquinhez “adivinhada” no slogan do Partido divino: “Ou nós, ou o caos!”

Se hoje “só o MPLA tem obra para mostrar ao Povo”, como disse João Lourenço num comício no Huambo, tal situação é fruto da sistemática desvalorização do papel dos partidos da Oposição ao regime, distorcendo e menorizando a sua representatividade, falseando a Verdade histórica e condicionando as escolhas populares, por forma a eternizar-se no Poder.

A acção propagandística do MPLA, incidente nas populações menos intelectualizadas, nas aldeias, nas pequenas cidades da Angola profunda, nos musseques e junto de algumas faixas do desmesurado funcionalismo público angolano, têm sido sempre no sentido de condicionar o voto popular na sua pluralidade, quer pela criação de um clima psicológico de medo da mudança, quer pelo incentivar de um fenómeno de dependência patológica (muito parecido, nos seus efeitos, à toxicodependência).

No mais íntimo do seu ser, o dirigente do MPLA sente, realmente, que faz parte de uma “casta superior”, a quem foi divinamente atribuída a “missão evangélica” de tomar conta de Angola e dos seus Povos, dos negócios do Estado e da Arca do Tesouro nacional.

A queda (que será inevitável) do regime vigente, mesmo que suportado por dezenas de anos de poder (ou até talvez por isso mesmo), arrastará, inevitavelmente, o reescrever da História de Angola, libertando-a das carregadas cores dogmáticas e ideológicas impostas pelo MPLA, dessa forma permitindo que as novas gerações tenham acesso, finalmente, à Verdade histórica. Que assim seja! Um dia!

Partilhe este artigo