Estamos, sinceramente, a gostar de ver. Uma regra fundamental do Jornalismo diz, ou dizia, que se o jornalista não procura saber o que se passa é um imbecil, e que se sabe o que se passa e se cala é um criminoso. Cá quem em casa, goste-se ou não, não somos imbecis nem criminosos.

Por Orlando Castro

Os jornalistas, ou similares (políticos, ex-políticos, candidatos a políticos etc.), angolanos procuram saber o que se passa. E a prová-lo está o facto de que muitos que eram, até 2017, fiéis, acérrimos e férreos (quase todos desde nascença) adeptos dos quatro costados de José Eduardo dos Santos mas viraram o bico ao prego. São uns vira-casacas.

Como paira no ar (nos cofres privados e nas Forças Armadas) a séria possibilidade de o sumo pontífice do MPLA ir ficar no trono durante o tempo que quiser, tal como o seu antecessor, é ver muitos desses jornalistas, ou similares, a dizer que nunca foram “eduardistas”, nem sequer seus simpatizantes. Vale a pena continuarmos atentos.

Cremos (ingénuos, é claro) que a imprensa livre é de facto um pilar da democracia. O problema está quando, como é um facto em Angola, a democracia não existe, ou existe de forma coxa e apenas formal, numa reminiscência da União Nacional de Salazar ou, talvez, do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, de Hitler.

Muito coxa, embora os donos dos jornalistas e os donos dos donos digam o contrário. Ouçam, por exemplo, as mais impolutas figuras do Governo (ou das suas sucursais) de João Lourenço nesta matéria, casos de João Melo, Adelino de Almeida, Victor Silva, Luís Fernando etc..

José Eduardo dos Santos, enquanto dono disto tudo, chegou tão cedo ao sector da comunicação social que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, fazer com que os seus mercenários, chefes de posto ou sipaios, titulares de emprego na Imprensa (latu sensu), continuassem a sua nobre missão de transformar jornais, rádios e televisões no tapete do poder.

E foram estes mesmos que logo afiaram as navalhas para apunhalar, pelas costas, o então “líder carismático” do MPLA. E quando ele tombou, foi ver esses mercenários a pontapear a imagem de Eduardo dos Santos, negando (tal como fez o novo querido líder, João Lourenço) a pés juntos e pela alma da santa mãe que sempre foram contra ele.

José Eduardo dos Santos chegou tão cedo que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, transformar jornalistas em criados de luxo do poder vigente. Mas como o sumo pontífice passou de bestial a besta, a carneirada logo disse – seguindo a tese e o exemplo de João Lourenço – que se fez alguma coisa de errado foi por ter sido obrigada.

Em Angola, Eduardo dos Santos chegou tão cedo que conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, garantir que esses criados regressariam mais tarde ou mais cedo (muitos já lá estão) para lugares de direcção, de administração, de ministros, de secretários de Estado, de assessores, de governadores, etc..

Por sua vez, João Lourenço não só deu cobertura legal como nobre à promiscuidade do jornalismo com a política-propaganda do MPLA. Mudam-se os donos, mudam-se as vontades. Tarefa, aliás, fácil para quem já nasceu sem coluna vertebral.

João Lourenço deu carácter não só legal como nobre ao facto de que quem aceita ser enxovalhado pode a curto prazo – basta olhar para muitas das Redacções – ser director, administrador, ministro, secretário de Estado, assessor ou presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA).

Em Angola, João Lourenço deu carácter não só legal como nobre ao facto de o servilismo ser regra para bons empregos, garantindo que esses servos vão estar depois a assessorar partidos, empresas ou políticos.

Pois é. Muitos estão a cuspir no prato que lhes deu tanta comida. Mas o que seria de esperar de tantos analfabetos funcionais (sabem ler e escrever mas não lêem nem escrevem)?

Cá para nós, pode crer senhor Presidente João Lourenço, advogamos desde 1995 a tese de Thomas Jefferson: “Se me coubesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, não hesitaria um momento em preferir a segunda opção”.

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