Hoje dei comigo a ler atentamente a entrevista que a Senhora Ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação, Professora Doutora Maria do Rosário Sambo, deu ao Jornal de Angola, e que foi publicada na edição de 29 de Março de 2019 do referido jornal.

Por Carlos Pinho (*)

Sua Excelência diz, e eu subscrevo inteiramente, que o Ensino Superior em Angola vai mal, e que parte deste mau andar tem a ver com o mau ensino primário e secundário. São palavras sábias e avisadas. E passo a citar, “Portanto, se os níveis precedentes ao Ensino Superior forem débeis, obviamente o estudante que queira ingressar no ensino superior ou ingresse, estando com fraca preparação, terá, em boa medida, dificuldade para ter sucesso académico”.

A Senhora Ministra vai por lá afora e fala inclusivamente de que por vezes a própria cooperação estrangeira pode ser castradora (aqui o termo é da minha exclusiva responsabilidade) do crescimento e desenvolvimento de pessoal docente angolano, não por culpa dessa cooperação, mas por inércia das próprias autoridades angolanas, ao não levarem a cabo concursos de admissão ou promoção de docentes nacionais.

E aqui, a Senhora Ministra foi ao busílis da questão, se bem que no meu entender nem ela própria se tenha apercebido disso. É que de facto os únicos e exclusivos responsáveis pela fraca qualidade do ensino existente em Angola são os que governam o país desde 1975.

Um aparte! Há alguns meses, falando eu com alguém com algumas responsabilidades numa universidade angolana, esse alguém me dizia que a qualidade do ensino em Angola tinha despencado a partir de 1975, com a saída dos portugueses. Ao que eu lhe respondi, “Mas isso é politicamente incorrectíssimo!”. Resposta da dita pessoa, “Mas é a verdade”. E eu enfiei a viola no saco! Começa a aparecer gente em lugares de responsabilidade que cautelosamente vai colocando o dedo na ferida. O problema é que a rapaziada que controla o esquema vigente, não vai gostar, como eu penso que não gostou nada da entrevista da ministra, a não ser que esta entrevista seja apenas para “encher pneus”.

Bom, voltando à vaca fria, ou seja, à maravilha que é o ensino actual em Angola. Não adiantará muito implementar melhorias extraordinárias no Ensino Superior, o último andar ou mesmo o telhado do edifício educativo do país, se não se começar pelos alicerces do mesmo, isto é, o ensino primário e seguidamente o secundário.

Nestes dois patamares do ensino, além das escolas públicas há igualmente escolas privadas para onde os abonados da fortuna mandam os seus filhos. Em muitas destas escolas, pelas afinidades linguísticas e culturais evidentes, e ainda por motivos históricos, por muito pouco correctos que politicamente estes motivos tenham sido, há imensos professores portugueses, tanto a leccionar como somente a dirigir o trabalho de professores angolanos.

Professores portugueses que têm ao longo de décadas desenvolvido um trabalho meritório, basta perguntar aos pais angolanos que, com as suas mensalidades, sustentam tais professores portugueses. Não quero com isto menosprezar os professores angolanos, miseravelmente pagos e frequentemente a trabalhar em condições perfeitamente inaceitáveis, e que são os únicos a quem os menos abonados pela fortuna conseguem aceder. A vida é muito complicada e injusta, os políticos assim o querem!

Pois, mas apesar da festança que foi a visita a Angola do presidente português com passeatas no meio do povo, e muitos vivas a Angola e a Portugal, a realidade, mesmo para os professores portugueses, supostamente muito bem pagos, também pode ser perversa.

Na senda do que tem sido feito nestas quase quatro décadas e meia de angola independente, os governantes menosprezam de facto todos os níveis de ensino e os professores dos mesmos, de um modo geral. Isto tanto em relação aos professores angolanos com os seus salários e condições de trabalho miseráveis, como aos professores portugueses, que não são pagos pelo Orçamento Geral do Estado angolano, mas sim pelos pais dos respectivos alunos, e que só recebem os seus salários no seu país de origem, quando o rei faz anos.

A título de exemplo, na Província de Benguela há diversas escolas com docentes portugueses e em consequência, dezenas desses professores portugueses não recebem há cerca de nove meses as transferências salariais que lhes são devidas. E não é por as escolas não processarem os seus salários conforme o respectivos contratos de trabalho. Pelo contrário, os responsáveis destas tratam religiosamente de tudo, mas alguém no sistema bancário quer que o dinheiro fique por Angola, quiçá a fermentar. É, pode ser que o dito dinheiro que por lá anda “congelado” nalguns bancos cresça, como a levadura do pão!

É igualmente lógico que face àquilo que os professores angolanos ganham, as queixas dos professores portugueses possam parecer uma tolice. Mas não, é tudo areia do mesmo saco! Trata-se do menosprezo que o ensino merece por parte dos dirigentes políticos, angolanos e portugueses (aos políticos portugueses praticamente só interessam as grandes empresas de construção civil).

E o ensino que se ministra nessas escolas privadas, com docentes portugueses, tem permitido a muitas crianças e jovens angolanos fazer boa figura quando prosseguem os seus estudos no estrangeiro. Bem ou mal, e possivelmente de um modo muito injusto para os mais pobres, tenta-se assim colmatar as falhas do sistema de ensino. Mas pelos vistos deve haver, penso eu novamente, mais uma rapaziada no sistema bancário que deve ganhar algo com a “fermentação do dinheiro alheio”.

É evidente que o problema não é a falta de divisas para se efectuarem as transferências bancárias que estão em falta. Basta ver o forrobodó que anda à volta do Fundo Soberano de Angola.

E eu que acreditava que a soberania de um país se conseguia dando uma boa educação aos jovens por forma a se garantir e a melhorar o futuro desse país. Quem me manda a mim ser ingénuo!

Ora, havendo parceiros e políticos estrangeiros que na tentativa de agradar a tudo e a todos, alinham nas tais ditas manifestações populares de apreço, esquecendo-se que o rei vai nu, corre-se o risco de se pensar que doravante está tudo bem, na cooperação entre estados.

Mas não está! E aí eu lembro-me da minha juventude e das manifestações populares, porventura genuínas, de apreço a um homónimo, Presidente do Conselho, com frases mais ou menos bombásticas do tipo “Nova Lisboa, coração de Angola, coração de Portugal” e vem então igualmente à minha memória uma frase que os meus colegas do curso de Engenharia Mecânica, da então Universidade de Luanda, gostavam muito de referir, lá pelos idos de 1973 e 1974, quando os “profes” tentavam levar-nos nalguma treta. “É a ilusão do já visto!”.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

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