O Presidente russo, Vladimir Putin, vai discutir na quinta-feira, em Sochi, com o seu homólogo angolano, João Lourenço, o aprofundamento da “cooperação comercial e económica” entre os dois países, nomeadamente no domínio da extracção de diamantes, indicou o Kremlin. Ora aí está. Moscovo continua a entrar com a experiência e Luanda com os diamantes. No fim, os russos ficam com os diamantes e os angolanos com a experiência.

“U m dos principais temas das conversações [entre os dois chefes de Estado] será a cooperação comercial e económica. O volume de negócios bilateral [entre a Rússia e Angola] aumentou 42% nos últimos sete meses, atingindo 34,8 milhões de dólares”, indicou Yuri Ushakov, porta-voz de Putin, citado pela agência estatal russa de notícias Tass.

Uma área importante da cooperação entre os dois países é a da indústria mineira, nomeadamente, a da exploração de jazidas de diamantes – a empresa russa Alrosa é co-fundadora da principal empresa angolana de extracção de diamantes, a Catoca – e Ushakov revelou que os dois países estão a desenvolver um “programa de cooperação no domínio da geologia e mineração até 2025”, segundo a Tass.

No âmbito da cimeira Rússia-África, segundo uma nota da Casa Civil do Presidente João Lourenço, “constam da missão presidencial em território russo a assinatura de acordos bilaterais em diversos domínios, como o da formação de quadros e a implementação de uma indústria de fertilizantes em Angola”.

A referência de Luanda às questões relacionadas com a extracção diamantífera é, porém, mais velada, apenas emergindo na divulgação da agenda de João Lourenço, que manterá audiências com personalidades russas do universo político, social e económico, incluindo dirigentes de bancos, de empresas industriais e agrícolas e de minérios preciosos como diamantes.

João Lourenço faz-se acompanhar a Sochi pelos ministros da Economia e Planeamento, Relações Exteriores, Agricultura e Florestas, Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação e pelo detentor da pasta dos Recursos Minerais e Petróleos, Diamantino Azevedo.

O Presidente russo vai realizar várias reuniões bilaterais com líderes de Estados africanos nos próximos dias 23, primeiro dia do evento, e 24 de Outubro, à margem da primeira cimeira Rússia-África.

De acordo com o porta-voz de Putin, para além de João Lourenço, o chefe de Estado russo dará particular atenção aos seus homólogos do Quénia, Ruanda, Uganda, Guiné-Conacri, República Centro-Africana, Argélia, Namíbia, Etiópia, República Democrática do Congo, Nigéria e África do Sul, e ainda ao líder egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, presidente em exercício da União Africana, convidado para co-presidir à cimeira.

O porta-voz esclareceu ainda que o Presidente russo tentará manter conversas separadas “on the go” com os líderes dos 43 países confirmados que participarão do fórum, acrescentando que foi “impossível” agendar conversas de 30-45 minutos com todos eles, de acordo com a Tass.

Sochi, uma estância balnear russa no Mar Negro, acolherá a cimeira Rússia-África, para a qual foram convidados os líderes dos 54 países africanos e 43, segundo o Kremlin, confirmaram a sua participação, bem com o oito grandes associações e organizações de integração africana.

À margem da cimeira, decorrerá um fórum económico, com a presença dos chefes de Estado africanos e de representantes da comunidade empresarial e de várias agências governamentais num total de mais de 3.000 presenças esperadas.

Será ainda organizada uma feira de armamento, onde a Rússia mostrará armas modernas, incluindo o sistema de defesa de mísseis S-400 e outros sistemas de defesa aérea, bem como sistemas não militares, de acordo com o fabricante de armas Almaz-Antey.

“Esperamos que os nossos colegas africanos e os representantes da comunidade empresarial cheguem a Sochi com um pacote sólido de propostas destinadas a melhorar as relações bilaterais, e que os chefes das organizações regionais de África partilhem as suas ideias sobre como podemos desenvolver em conjunto a cooperação multilateral”, afirmou, citado pela Tass, o Presidente russo. Para Vladimir Putin, “é importante identificar mecanismos para a implementação dos acordos que serão alcançados em Sochi”.

Moscovo quer voltar a ter em África a influência política que gozou durante a Guerra Fria, assim como aceder à riqueza mineral e aos mercados potencialmente lucrativos do continente com maior crescimento demográfico estimado para as próximas décadas.

Vladimir Putin dirá aos seus homólogos africanos em Sochi que a Rússia está pronta para oferecer ajuda sem “condições políticas ou outras” e disposta a abraçar o princípio das soluções africanas para os problemas africanos.

Em termos comerciais, Moscovo quer recuperar tempo e mercado, até porque parte muito atrás dos seus principais concorrentes.

A Rússia fez saber nos últimos dias que o seu comércio com os países africanos ultrapassou a barreira dos 20 mil milhões de dólares no ano passado, mas este registo coloca-a abaixo dos cinco maiores parceiros comerciais do continente, de acordo com o Eurostat, lista encabeçada pela União Europeia, seguida pela China, Índia, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos.

Os maiores produtores de diamantes do mundo são a Rússia, o Botswana, o Canadá e a Austrália, e a indústria dos diamantes é dominada por duas companhias mineiras, a Alrosa (da Rússia e que opera em Angola) e a De Beers, que opera no Botsuana, Canadá, Namíbia e África do Sul. As duas companhias representam cerca de metade das vendas de diamantes em bruto em todo o mundo.

Angola tem um enorme potencial diamantífero nas regiões norte e nordeste do país, com dados que indicam para a existência de um total de recursos em reservas de diamantes superior a mil milhões de quilates.

Esta informação foi divulgada no dia 30 de Junho de 2017 durante a apresentação de um estudo sobre o “Potencial Diamantífero de Angola: Presente e Futuro”, realizado pelos serviços geológicos das diamantíferas russa, Alrosa, e da angolana estatal, Endiama.

No que diz respeito aos kimberlitos, são responsáveis por 950 mil milhões de quilates, enquanto que os aluviões correspondem a mais de 50 mil milhões de quilates.

O director-adjunto da Empresa de Investigação científica na área de pesquisa e prospecção geológica da Alrosa, Victor Ustinov, que apresentou o estudo, referiu que esses dados demonstram que o potencial kimberlítico de Angola é 15 vezes superior ao potencial aluvionar.

“Ao mesmo tempo, podemos dizer que em Angola existem territórios com muito boa probabilidade de descoberta de novos jazigos de diamantes”, disse, acrescentando que a empresa conjunta da Alrosa e Endiama, a Kimang, estava a realizar os seus trabalhos de prospecção geológica numa dessas áreas. O estudo refere que Angola tem territórios com grandes probabilidades de descoberta de diamantes.

Os resultados da pesquisa apontam que os territórios, que abrangem as províncias da Lunda Norte, Lunda Sul, Malange e Bié, apresentam alto potencial diamantífero, e sem probabilidades de existência de diamantes as províncias do Uíge, Zaire, Luanda e Bengo.

Com potencial provável, o estudo indica os territórios integrados pelas províncias do Cuanza Norte, Cuanza Sul, Huambo, Huíla, Benguela, onde poderão ser descobertas reservas kimberlíticas com teor médio de diamantes e reservas aluvionares de média dimensão.

Ainda por esclarecer o seu potencial estavam as províncias Cuando Cubango, Moxico e Namibe, devendo ser realizado trabalhos de investigação científica, defendeu o responsável.

Victor Ustinov sublinhou que uma vez realizados estudos de investigação adicionais é possível aumentar o potencial diamantífero de Angola em pelo menos 50%.

“Com o potencial de 1,5 mil milhões de quilates de diamantes podemos estar seguros que o sector de mineração vai se desenvolver de forma significativa”, disse, indicando trabalhos que devem ser desenvolvidos nesse sentido.

“É necessário desenvolver novos métodos de prospecção que permitam descobrir jazigos kimberlíticos e aluvionares a grandes profundidades, usando métodos de estudos geofísicos, geoquímicos, análises de imagens espaciais e estudos analíticos”, disse.

A finalizar, Victor Ustinov sublinhou que o potencial diamantífero de Angola “é muito alto e nos próximos anos o país será palco de grandes descobertas”.

No final dessa apresentação, em declarações à imprensa, o então ministro da Geologia e Minas de Angola, Francisco Queiroz, disse que a informação apresentada é de grande utilidade para Angola, “não só para efeitos pedagógicos, científicos, como também para o trabalho que se está a realizar de recolha de informação ao nível do Plano Nacional de Geologia (Planageo)”.

Francisco Queiroz disse que Angola estava a trabalhar com as autoridades da Rússia para a recolha geológica em posse russa, trabalhos realizados para integrar na base de dados do Planageo.

Folha 8 com Lusa

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