Quatro dirigentes da UNITA, Alcides Sakala, Kamalata Numa, José Pedro Catchiungo e Raul Danda formalizam esta segunda-feira a sua candidatura à liderança do partido, segundo a comissão organizadora do XIII Congresso Ordinário do partido. Na corrida já estava Adalberto da Costa Júnior.

Depois do deputado e porta-voz do grupo parlamentar, Adalberto da Costa Júnior, na sexta-feira, entregam esta segunda-feira as candidaturas mais quatro dirigentes: o deputado Alcides Sakala, porta-voz e secretário para as relações internacionais da UNITA, o general na reserva e membro do Comité Permanente da Comissão Política, Kamalata Numa, o deputado e primeiro vice-presidente da bancada, José Pedro Catchiungo e o deputado e vice-presidente da UNITA, Raul Danda.

Os aspirantes à sucessão do actual presidente, Isaías Samakuva, que está à frente do partido do “Galo Negro” há 16 anos, podem formalizar as candidaturas até às 00h desta segunda-feira.

Os candidatos têm de cumprir uma série de requisitos, entre os quais a entrega de mil assinaturas, incluindo pelo menos 50 em cada província. Além disso, precisam de entregar mais 100 assinaturas dos membros da comissão política da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

As candidaturas serão avaliadas pela comissão de mandatos e os candidatos elegíveis serão anunciados no dia 11 de Outubro. Só depois desta data se saberá quem irá disputar as eleições.

O novo presidente do maior partido da oposição que o MPLA ainda permite que exista irá a votos durante o XIII Congresso Ordinário da UNITA, que se realiza entre 13 e 15 de Novembro, em Luanda.

A partir de 2002 a UNITA de Samakuva trocou a mandioca pela lagosta. E como o MPLA sabe bem disso, continua a premiar os figurantes da política angolana com lagostas atrás de lagostas. E como a Oposição sabe bem disso, continua a fingir que faz oposição para não perder as… lagostas.

Em Agosto de 2016, por exemplo, o ainda líder da UNITA disse eram muitas as pessoas que contactavam o partido a pedir que não participasse no processo de registo eleitoral oficioso e outras que queriam saber a posição daquela força política sobre o mesmo.

Na sua intervenção, Isaías Samakuva apresentou algumas razões por que defende a participação de todos neste processo, sendo a primeira que é importante o registo eleitoral para que haja mudança.

Ledo engano. O registo eleitoral não era, nunca foi, condição “sine qua non” para haver mudanças. Pelo contrário. No nosso país nem sequer votar na Oposição significa mudança. Desde logo porque os votos dados aos partidos da Oposição só vão para a Oposição se o MPLA quiser.

A UNITA sabia disso. Convém, contudo, alinhar com o MPLA. Sofreu, é claro, uma clamorosa derrota. Pôde, no entanto, escrever no seu epitáfio: Fomos uns honrados derrotados.

Para Isaías Samakuva, devia participar todos os que “pretendem uma Angola melhor do que a actual”. Dizer tal coisa quando os angolanos esperavam que a UNITA estivesse nas ruas, lutasse democraticamente ao lado dos activistas, estivesse permanentemente juntos dos desalojados, é passar um atestado de menoridade aos angolanos. E estes, assim, gostam de ouvir o líder da UNITA e nas eleições votam no… MPLA.

“Todos os que pretendem acabar com a crise e construir a esperança para a juventude devem-se registar para votar. Todos os que pretendem melhorar a educação, a saúde e acabar com as desigualdades devem se registar para votar”, referiu.

Em que país vivia Isaías Samakuva? A UNITA quis, tanto quanto parece, transformar-se numa espécie mais moderna mas igualmente anacrónica de FNLA. Bem que os restos mortais de Jonas Savimbi devem andar às voltas no túmulo…

A segunda razão apontada teve a ver, segundo Samakuva, com o receio de que “o governo quer controlar um processo que não lhe pertence”, ocupando-se do registo eleitoral, quando a Constituição angolana atribui esta tarefa à Comissão Nacional Eleitoral (CNE).

Malária ou bitacaia?

E ssa já não pega. Por outras palavras. A UNITA diagnostica com alguma precisão, reconheça-se, a enfermidade do doente com malária. Mas quando toca a ministrar a medicação… fecha os olhos e especta a injecção no doente ao lado que ali está a tratar uma bitacaia.

“O Governo vem agora dizer que o registo eleitoral não é parte do processo eleitoral. Isso não faz sentido nenhum. Porque é que o Governo quer usurpar as competências da administração eleitoral independente”, questionou Samakuva, reafirmando uma reclamação antiga.

Chamar os jornalistas para lhes dizer o que eles já sabem, chamá-los para que o MPLA saiba que a UNITA assim pensa, foi, é e será gozar com a chipala do pessoal. O regime está-se nas tintas para a UNITA e, como acontece crescentemente desde 2002, os angolanos também. É que o Galo Negro só fala. Não age, apenas (e quando o rei faz anos) reage.

Entre as várias razões apresentadas, a UNITA acusava ainda o MPLA, partido no poder, de querer anular o registo já feito de 9,8 milhões de cidadãos, com a realização de registo eleitoral oficioso, mas que pede a presença desses cidadãos para a prova de vida.

Isaías Samakuva disse que “o termo oficioso é só para enganar”, justificando que “ninguém faz prova de vida se não estiver fisicamente presente”.

“Mais de 80% da lei (Lei do Registo Eleitoral Oficioso) regula o registo eleitoral presencial. E esta competência é da CNE. Portanto, somos obrigados a perguntar de novo, porque é que o Governo quer ser ele a conduzir este trabalho? A única conclusão que tiramos é mais uma vez que o Governo não está de boa-fé e que a prova de vida é um artifício”, frisou.

Lagosta e umbigo untado

Estas teses de Samakuva, apesar de correctas, são ineficazes. Os angolanos continuam sem saber se qualquer reflexão que ultrapasse o círculo de bajuladores de Isaías Samakuva (é tal e qual o que se passava com Eduardo dos Santos e agora se passa com João Lourenço) serve para acordar aqueles que sobrevivem com mandioca ou, pelo contrário, apenas se destinam a untar o umbigo dos que se banqueteiam com lagostas em Luanda.

Perante os sucessivos desastres eleitorais (e no próximo será pior se o próximo líder não os tiver nos sítio), Isaías Samakuva continuou a querer ir de derrota em derrota até à…. derrota final. Limitou-se a posições cosméticas para tudo ficar na mesma. Não percebeu, afinal, que a UNITA enquanto principal partido da Oposição está em cima de um tapete rolante que anda para trás. Por isso limita-se a andar. E, é claro, fica com a sensação de estar a ganhar terreno mas, no final de contas, está sempre no mesmo sítio.

Isaías Samakuva foi o líder que os militantes queriam. Não foi a alternativa que os angolanos gostavam de ter. Longe disso. Ao contrário de Jonas Savimbi que, mesmo errando muitas vezes, agia, Samakuva limita-se a reagir. Em vez de entender a mensagem, manda “abater” o mensageiro.

Alguém sabe se a UNITA vai conseguir viver sem comer? UNITA no sentido dos homens e mulheres que tinham orgulho no Galo Negro que transportavam no peito. Um dia destes o MPLA virá dizer, com uma lágrima no canto do olho (sorridente) que exactamente quando estava mesmo, mesmo quase a saber viver sem comer, a UNITA morreu.

A UNITA, e nisto foi até agora igual ao MPLA, prefere ser assassinada pelo elogio do que salva pela crítica. E quando assim é… não há memória que a salve, nem mesmo a do Mais Velho.

Perder batalhas e a guerra

Depois de perdidas (embora com muita batota) as batalha eleitorais, a UNITA escolheu os seus “generais”. Fê-lo, mais uma vez, sem ouvir o Povo e limitando-se a olhar para o umbigo. Se Jonas Savimbi fosse vivo, grande parte destes “generais” não passava de “cabos”. “Cabos” que, recorde-se, passarem a generais nas FAA e o ajudaram a matar.

O sacrificado povo angolano, mesmo sabendo que foi o MPLA que o pôs de barriga vazia, não viu, não vê e assim nunca verá na UNITA a alternativa válida que durante décadas lhe foi prometida, entre muitos outros, por Jonas Savimbi, António Dembo, Paulo Lukamba Gato, Samuel Chiwale Jeremias Kalandula Chitunda, Adolosi Paulo Mango Alicerces e Elias Salupeto Pena.

Terá sido para isto que Jonas Savimbi lutou e morreu? Perguntam muitos angolanos das gerações mais velhas. Não. Não foi. E é pena que os seus ensinamentos, tal como os seus muitos erros, de nada tenham servido aos que, sem saberem como, herdaram o partido.

Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai em 13 de Março de 1966?

Foi do Muangai que saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Foi de lá que também saíram teses sobre a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; liberdade, democracia, justiça social, solidariedade e ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra hoje de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado”?

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