O líder da bancada parlamentar do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, veio hoje mostrar que a palhaçada é uma instituição nacional, gerada, parida e desenvolvida há 42 anos pelo partido de José Eduardo dos Santos e João Lourenço. Se não é, certo será que o líder da sua bancada será exonerado nas próximas horas.

Por Orlando Castro

Salomão Xirimbimbi, fazendo uso da sua “educação patriótica” e do seu respectivo doutoramento com distinção máxima, lamentou a “delicada” situação de subsistência alimentar que afecta a população de parte do território nacional, no Sul, assolada por uma prolongada estiagem.

A dita “delicada” situação de subsistência alimentar, que em linguagem clara quer dizer FOME, afecta não só os angolanos do Sul como, por razões diferentes, mais uns milhões em todo o reino esclavagista do MPLA.

Salomão Xirimbimbi transmitiu a posição enquanto procedia à leitura da declaração política daquele grupo parlamentar maioritário, na Assembleia Nacional, na abertura da sessão plenária que hoje aprovou, na generalidade e de acordo com as “ordens superiores” que determinam que todos os deputados do MPLA são meros autómatos, o Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2018, com a abstenção da oposição, que pretende fazer sugestões na discussão na especialidade.

O líder parlamentar do MPLA recordou que também em outras parcelas do território angolano, os cidadãos vivem situações graves de saúde pública, com o surgimento de surtos de cólera e malária, vitimando inúmeros cidadãos, “pelo que urge debelá-las o mais depressa possível”.

É preciso ter uma lata do tamanho do Kwanza para falar de tudo isto como se o MPLA não estivesse no poder há 42 anos, como se o país não estivesse em paz total há 16 anos. Lata que, como sempre, leva os autómatos a zurrar supostas preocupações sem, contudo, reconhecer que é graças ao MPLA que Angola é (entre muitas outras fatídicas gangrenas) um dos países mais corruptos do mundo e líder mundial da mortalidade infantil.

Noutro sentido, o do panegírico e de culto do chefe, saudou a presença no Parlamento – o que aconteceu pela primeira vez – e a mensagem do Presidente da República, João Lourenço, sobre o OGE 2018, considerando-a comprometida com o bem-estar dos angolanos.

João Lourenço que, para além de ser um filho do MPLA, foi sempre um figura de destaque no partido, chegando a ser ministro da Defesa e que é hoje seu vice-presidente. É, portanto, caso para perguntar se – mesmo criado em cativeiro – um filho de jacaré consegue ser vegetariano…

Para o deputado, Salomão José Luheto Xirimbimbi, que já foi Vice-Ministro do Planeamento, Ministro das Finanças, Coordenador da Comissão de Economia e Finanças do Comité Central do MPLA, Presidente da Comissão de Economia e Finanças da Assembleia Nacional, Governador da Província do Namibe e Ministro das Pescas, a presença do Presidente angolano na abertura da discussão em torno do OGE 2018, que se prolonga até 15 de Fevereiro, data da prevista votação final do documento, reforça o Parlamento como centro de decisão política.

Reforça o Parlamento como quê? Centro de decisão política? Como é que alguém pode dizer tantas barbaridades sobre uma Assembleia que é dominada, domesticada, formatada de acordo com os interesses de um só partido, o MPLA?

Xirimbimbi expressou igualmente satisfação pela iniciativa do Presidente em submeter no início do ano uma iniciativa legislativa com vista ao repatriamento de capitais angolanos no exterior, para serem aplicados em prol do desenvolvimento económico e social de Angola.

Apesar de ser um dos mais experimentados políticos do regime, foi visível o excelente desempenho de Salomão Xirimbimbi como um dos melhores ventríloquos do MPLA. Ele mexia os lábios mas a voz que a todos chegava era a de João Lourenço, tal como antes fora a de José Eduardo dos Santos.

Sobre o OGE 2018, Salomão Xirimbimbi considerou que a proposta continua a valorizar a função social, o investimento público e experimenta mesmo um crescimento, contemplando projectos de continuidade de reabilitação das vias terciárias e secundárias.

Valorizar a função social? Onde será que Salomão Xirimbimbi descobriu isso? Não descobriu. É claro. Não se pode descobrir o que não existe. Limitou-se a dizer o que sabia ir agradar ao chefe. E acertou. Também não admira. A sua experiência é enorme. Andou mais de 20 anos a servir o “querido líder”, o “escolhido de Deus”.

Segundo Salomão Xirimbimbi, a proposta do OGE para este ano contém acções que visam melhorar a situação económica e social de Angola, com vista a garantir a estabilidade macroeconómica e instaurar-se um clima propício ao crescimento económico e à geração de emprego.

Veremos o que vai acontecer. Certamente que numa qualquer remodelação governamental Salomão Xirimbimbi voltará a ser ministro. Ao que parece, entre um néscio do MPLA e um génio de outro partido, ou mesmo sem partido, João Lourenço (tal como Eduardo dos Santos) não tem dúvidas: escolhe o… néscio.

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