Angola vive momentos de indiscritível podridão, no sistema de justiça e judiciário, tal como o Brasil, lá como cá, a classe política está atolada em escândalos de crimes de corrupção e peculato. Quando o regime não gosta ou teme alguém, julga e para condenar não precisa de provas, bastando a sua vontade, ou recorrer eufemisticamente ao anacrónico instituto da “Teoria do domínio do facto”.

Por William Tonet

Lá, como cá, são muitas as semelhanças, tal como um texto em que me solidarizo e no qual autor se coloca na pista da seguinte forma: “Às vezes me pergunto se é apenas falta de vergonha na cara ou um ingrediente propositado a alienação pública. O facto é que os políticos corruptos têm essa dupla função”.

Os angolanos sabem-no bem. A primeira delas é a mais evidente: praticar todo tipo de acto em favor próprio ou dos seus próximos ou escolhidos, uma vez investido do cargo público. Daí surgem crimes como peculato, evasão de divisas, sonegação fiscal, improbidade administrativa, trafico de influência, formação de quadrilha, entre outras práticas que se não são crimes, são agressão ao decoro.

A segunda função do político corrupto é a de promover alienação colectiva aos trabalhadores. Criar na população em geral a mais completa rejeição ao tema Política. Tornar as pessoas totalmente desinteressadas em participar da política. Para piorar, valem-se das suas prerrogativas para tentar criar dispositivos na lei que promovam a impunidade e impeçam a organização das lutas dos movimentos populares. E o pior de tudo: um povo alienado desconhece o que ocorre nos bastidores do poder público.

Funciona assim: Mostram-se bons aos que acreditam em milagres da água benta enquanto a grande mídia confunde corrupção com peculato, apontando as práticas do agente de trânsito ou aduaneiro, para criar nojo e aversão no resto da população. Isso dá espaço para os reaccionários e agentes da prática dos crimes de peculato prosperarem. Como resultado, o país não avança e mantém sempre os mesmos problemas sociais.

Certa vez eu ouvi uma frase que dizia: “O destino de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Sem dúvida, trata-se de uma realidade irrevogável. O Povo que não participa da política no seu país, entrega o poder aos governantes com procuração de plenos poderes e encerra-se aí a participação popular na democracia.

Este é o modelo eleitoral angolano e brasileiro. A mídia mostra nos debates apenas os candidatos favoráveis aos seus objectivos económicos e políticos, excluindo os demais do processo eleitoral aos olhos do público. O povo sem saber de nada, termina por votar sem saber quais são os candidatos na sua totalidade. Com isso consolida-se um jogo de cartas marcadas, onde o vencedor será sempre um candidato favorável as elites do regime.

Ocorre, também, em Angola todo tipo de absurdo. Bancos, latifundiários, financeiros, entre outros de imenso poder económico financiam campanhas caríssimas com muito tempo na Rádio e TV. Mas política não trata apenas de eleição. Este é mais um erro cometido pelo público. O povo, vítima da acção da mídia passa a acreditar que o seu momento de participar da política se limita às eleições. Mas na verdade, as lutas fazem parte do processo democrático e devem continuar para que os trabalhadores não só façam as suas conquistas, mas garantam que elas não retrocedam.

Os empresários participam da política sempre, logo, o povo não se pode limitar ao dia da eleição. Tem aqueles que dizem: “Não gosto de política e não quero saber” ou dizem “Isso é coisa de político”. O resultado disso é trágico.

O ensino básico é deplorável e busca apenas alfabetizar e dar escolaridade mas sem formar cidadãos habilitados para o debate e actuação política. Trata-se de um modelo que dá a escola apenas para capacitar a exercer o trabalho no final. Ou seja, robots. Isso tudo sem falar na falta de habitação decente, transporte público deplorável e o sistema público de saúde, que está um caos, entre outros problemas.

E todo aquele que se opõe a este modelo político actual é chamado de radical, criminoso, vândalo, maluco, etc., enquanto aqueles que massacram a população são chamados de homens do ano pelas revistas. Basta ler as revistas mais conhecidas na mídia que se vê a maneira como as elites tratam os movimentos populares.

Apenas quando os trabalhadores participarem efectivamente da política, sem essa de “é radical demais” e mostrarem o que querem (até porque dá para chegar lá), e reivindicarem sem esse papo de “só da para isso”, conquistarão ainda mais. E mais. Enquanto fizerem isso, haverá transparência e poderemos dizer “corrupto não tem vez”.

Não se iludam. A mídia corrupta e do regime preocupa-se mais em mostrar o que interessa a ela e a exibir atrocidades e conteúdo de diversão com o objectivo de distrair e manipular as massas. Não caiam nessa armadilha. Busquem a informação, seja na internet, seja em outros meios descomprometidos com o regime. Trabalhadores, intelectuais, jornalistas livres. Avante. Não entreguem o país à corrupção, participem da política. Vale a pena.

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