Em Angola, o regime, o peculato, a ladroagem e a corrupção, são irmãos siameses. Irmãos nascidos há já muito tempo. No melhor, torna-se desnecessário acreditar numa cirurgia de “separação”, tão caboucada estão as raízes do mal do unanimismo.

Por William Tonet

Todos os dias emergem novas denúncias, sobre o desvio de fundos, obras subfacturadas, milhões e milhões de dólares transferidos ilegalmente para o estrangeiro. E, na esquina do cinismo governamental, emerge a justificativa do desconhecimento criminoso sobre os montantes desviados e das lavandarias de destino ou de passagem.

E como se todos os angolanos discriminados fossem matumbos, eis que Marcy Lopes, secretário para os Assuntos Políticos, Constitucionais e Parlamentares do Presidente da República, afirma: “Ninguém sabe quanto dinheiro existe lá fora. Se soubéssemos, não haveria necessidade de estarmos a fazer esta lei. O Estado teria meios necessários para ir buscar esses dinheiros”.

E, numa aliança perfeita de quem não diz o que sabe, mas o que lhe mandam conveniente e estrategicamente dizer, o banqueiro e actual governador do Banco Nacional de Angola, José de Lima Massano adianta: “Não temos, nessa altura, condição de saber o que os cidadãos têm no exterior”.

Mentira!

Os responsáveis pelos desmandos e desvarios económicos e financeiros estão identificados, fazem parte da família partidocrata que desde 10 de Novembro de 1975, fez com que a Lei Constitucional fosse aprovada, exclusivamente, “ pelo comité central do MPLA” e assinada, não por um órgão colegial ou de Estado, mas pelo presidente do MPLA, António Agostinho Neto.

Aqui chegados, os ex-proletários, que advogavam a defesa cega ao socialismo de Karl Marx, impondo a visão de Estado de Lenin: “proletários ao poder”, “bancos estatizados”, “economia centralizada”, sempre tornaram, na calada da noite, estes slogans vazios e despidos de qualquer conteúdo programático e patriótico.

Tanto assim é que a discriminação social, política, económica e a corrupção, não nasceram em 1991 nem atingiram o apogeu, depois da morte de Jonas Savimbi, em Fevereiro de 2002. Não!

Estes institutos sempre estiveram no ADN do partido no poder, com a institucionalização, desde 1975, das lojas do povo e, das lojas dos dirigentes, onde havia tudo do bom e melhor, vindo do ocidente, para os membros do bureau político, do comité central e do Conselho da Revolução do MPLA , numa época em que falavam fervorosamente do socialismo.

À época, já acentuavam as diferenças e o gosto pelas mordomias, sem justa causa, em “nome do poder popular”, caricatamente não do povo (operários e camponeses) no poder, mas da roubalheira, institucionalizada, para benefício de uns poucos, alcandorados no poder.

Ora, o endereço dos senhores da “gang da ladroagem”, está politicamente identificado e não deixa dúvidas, por todas as casas terem número, nome de rua e endereço postal.

Foram eles que levaram o país ao abismo económico e à desintegração social, ante a incubada apetência feroz, aos pergaminhos do liberalismo e do patamar de proprietários vorazes, promíscuo passaporte para o roubo do sonho da maioria dos autóctones angolanos, carentes de um projecto-país, onde a eleição de uma verdadeira Assembleia Constituinte dogmática, para elaboração de uma nova carta constitucional cidadã, com a definição clara da carta de direitos e dos órgãos do Estado despartidarizados.

É hora, neste Maio 2018, não só de recordar Nito Alves, barbaramente assassinado, em 1977, por ousar, no fervor revolucionário de autodidacta, temperado nas matas dos Dembos/Piri, 1.ª região do MPLA, denunciar a falta de uma visão política de esquerda e de um esquema capitalista, em cima do muro. O tempo deu-lhe razão…

Ainda assim, os pobres, na santa ingenuidade acreditaram, que a transição (de José Eduardo dos Santos para João Lourenço), sem uma ampla mobilização popular, para exigir uma ruptura com as actuais práticas governativas, se revolucionará, com medidas económicas cosméticas, paliativas e show-off de exonerações, conferissem sensibilidade aos actos da nova tribo política, que, afinal, era e é a continuação da mesmice governativa, pois pune o pilha galinhas e inocenta os ladrões de colarinho branco.

Não se pode esquecer que a víbora não vira minhoca, pelo contrário, transforma-se na “anaconda” que nos engole cada vez mais…

É uma ofensa, dizer-se ter sido feita uma lei (repatriamento de capitais), para sensibilizar, “biblicamente”, o ladrão a auto incriminar-se.

Sejam sérios, é o mínimo que o país e a fome geral, se vos exige, porquanto o paradeiro dos detentores do dinheiro público, responsável pela falta de medicamentos, comida e cadernos escolares, fica bem na Avenida Ho Chi Min. Todos sabem, as razões da omissão (também é criminosa), de não se questionar e responsabilizar uns poucos a devolução de dinheiro público, ilicitamente desviado, como os 500 milhões de dólares, da linha de crédito da China, afectos a um projecto privado, para a construção do Shopping do Gika, que ficou a meio.

Igualmente, não se questiona a indiferença dos generais Manuel Hélder Vieira Dias Kopelipa e Leopoldino do Nascimento “Dino”, sobre a proveniência e o desaparecimento de 500 e 280 milhões de dólares, respectivamente, das suas contas bancárias particulares, alojadas no BES Dubai (Banco Espírito Santo) e fartamente denunciadas, pelos sistemas bancário internacional e jornalistas. Eis o caminho, para puxar o fio do novelo.

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