Os povos autóctones esperavam, ingenuamente, por uma passagem pacífica de testemunho, no conclave do MPLA e, que, na outra margem do rio grande, não fosse permitida a continuidade da vergonha na cara. Ninguém sairá da cepa torta, com a manutenção e continuidade de práticas delituosas, por mais travestidas que estejam.

Por William Tonet

Limpemos a vergonha da cara e assumamos a paternidade colectiva do território Angola ser pertença da maioria e não de uma minoria perniciosa. A omissão dos cidadãos, o silêncio sepulcral e covarde, ao longo dos 42 anos de independência, abocanhado por uns poucos, blindados com um arsenal bélico, torna-nos reféns de quem faz da má gestão da coisa pública, um trunfo.

E isso, voluntária ou involuntariamente, alimenta o ego desta tribo de políticos, enriquecidos face à impunidade do peculato, que institucionalizou a corrupção. A maioria tem de deixar de ser cúmplice do desvario de uma minoria, cuja competência assenta, exclusivamente, na apetência pelo poder, que colocou (e continua) o país no abismo.

E a agravante é de a nova liderança, pelos sinais dados, na montagem do gabinete, na “camaleonização” do sistema de justiça e judiciário, na indefinição da política económica, mas na convicção de continuar a abandalhar os mais de 20 milhões de pobres, aumentando a carga de impostos e do desemprego, logo transparecendo, não ter unhas para gizar políticas sociais e económicas de inversão.

Outrossim, a tribo política, que trafega os corredores do poder tem o “nobel da roubalheira” ao subverter o peculato, institucionalizado, como instituto charneira da partidocracia dominante e da corrupção, apresentada como trunfo. A ambição desmedida colocou corruptos, gatunos do erário público, bandoleiros, etc., apenas num lado da barricada, mas nem isso comoveu a maioria dos prejudicados a unirem-se numa corrente de indignação.

Pelo contrário, com a máquina da batota afinada, a fraude refinada, inverteu os dados eleitorais, mesmo sem terem sido apurados os resultados em 15 das 18 províncias e, como sempre calamo-nos, vergonhosamente. Os “engenheiros” da LÓGICA DA BATATA, NA LEI DA BATOTA, foram galardoados com a toga preta de venerandos juízes conselheiros, dos tribunais superiores, pelo “Senhor da Vez”, em clara contravenção à Constituição, mas afinado com a ideologia governante.

E ante mais esta inconstitucionalidade, praticada, conscientemente, por “bandidos” de colarinho branco, vermelho, amarelo e preto, os cidadãos vergaram-se às algemas dos prevaricadores. Estes, investidos de poder, em primeira instância praticam actos a seu favor ou dos que os indicaram, em prejuízo do Estado, através dos “crimes de peculato, evasão de divisas, sonegação fiscal, improbidade administrativa, trafico de influência, formação de quadrilha, entre outras praticas que se não são crimes, tratam-se de agressão ao decoro”.

O político corrupto, em Angola, subverte a lógica do bem servir e da estabilidade laboral, com a roubalheira apadrinhada, subornando os sindicatos, que se evaporaram do espectro político, numa altura em que fecham empresas todos os dias.

Uma maioria significativa de sindicalistas prostituiu-se, traindo a classe trabalhadora, pelo “dinheiro de sangue”, engrossando o exército dos “corruptos-dirigentes-empresários”. E assim tornam a maioria das pessoas, mesmo sendo exploradas, discriminadas e humilhadas, desinteressadas pela vida política, mais a mais, não interpretando a música de Waldemar Bastos: “ché menino não fala política, não fala política…”, quando esta seria a melhor altura para uma maior participação popular, na luta para a higienização da vida política, principalmente, expulsando dos órgãos do Estado, todos quantos desrespeitam a rés-pública.

Tal como dizia um visionário brasileiro, “para piorar, muitos valem-se das suas prerrogativas para tentar criar dispositivos na lei que promovam a impunidade e impeçam a organização das lutas dos movimentos populares. E o pior de tudo: um povo alienado desconhece o que ocorre nos bastidores do poder público. Como resultado, o país não avança e mantém sempre os mesmos problemas sociais. “Certa vez eu ouvi uma frase que dizia “O destino de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Sem dúvida, trata-se de uma realidade irrevogável. O Povo que não participa da política no seu país, entrega o poder a maus governantes ou estagiários, com procuração de plenos poderes e encerra-se aí a participação popular na democracia”.

Tenhamos todos vergonha de continuar a remar, em silêncio, e em sentido contrário, pois um país que admite a institucionalização da corrupção, facilmente, sucumbe. A história, seguramente, não nos perdoará

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