O MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, acusou recentemente a TV Zimbo de “instigação à desobediência”. O Serviço de Investigação Criminal (SIC) também vai processar o jornal “Crime” por difamação. E ainda há mais casos. O MPLA/Estado está a deixar cair a máscara.

Por Norberto Hossi (*)

Escreve a DW África (Deutsche Welle) que em Abril deste ano, o director do jornal “Liberdade” foi ouvido pela Procuradoria-Geral da República (PGR), num processo que envolve Bornito de Sousa, actual vice-presidente da República. Em causa está uma entrevista publicada pelo semanário que acusava o então ministro da Administração do Território (MAT) do desvio de milhões de kwanzas destinados às autoridades tradicionais.

“As vozes contrárias ao Governo sempre foram intimidadas”, lembra o director do jornal, Escrivão José. “Quando fazemos matérias jornalísticas e de investigação recebemos algumas ameaças, dado o trabalho que temos vindo a fazer, e agora recebemos este processo”, afirma.

Ainda assim, o jornalista diz que o semanário vai continuar a desempenhar o seu papel: informar. “O jornal vai continuar a fazer o seu trabalho. Por isso é que constituímos esse projecto, para dar voz aos que não têm voz. E estamos prontos para enfrentar a justiça do nosso país, mas garantimos aos nossos leitores que o jornal Liberdade sempre informou com verdade e vamos continuar nesta senda”, assegura.

Este não é o único caso de pressão contra a imprensa angolana. Na semana passada, o MPLA acusou a televisão privada Zimbo de “instigação à desobediência”. Em causa está o conteúdo do programa “Fala Angola”, que retrata os problemas sociais do país.

O segundo caso envolve o Serviço de Investigação Criminal (SIC), que vai processar criminalmente o jornal “Crime” por ter publicado na sua última edição que a execução de um alegado delinquente, a 1 de Junho, tenha sido uma espécie de “queima de arquivo”. Ou seja, teria informações sobre um suposto desvio de milhões de kwanzas por parte do SIC.

Em declarações à DW África, o jornalista Jorge Neto diz não ter dúvidas sobre a pressão exercida sobre os profissionais da imprensa em Angola.

“O caso do jornalista Mariano Brás, por exemplo, foi um vídeo que se tornou viral nas redes sociais e o jornalista, no exercício da sua profissão fez uma investigação, apurou algumas causas e trouxe o assunto à baila numa perspectiva que as autoridades nem sequer tinham noção”, refere.

No Tribunal Provincial de Luanda decorre um processo crime movido pelo antigo procurador-geral da República, general João Maria de Sousa, que acusa os jornalistas Mariano Brás e Rafael Marques de injúria e ultraje a órgão de soberania. A sentença será conhecida a 6 de Julho.

Todos (os que não são do MPLA) debaixo de fogo

Recentemente o director-adjunto do Folha 8, Orlando Castro, participou no programa “Conversas ao Sul”, da RTP África. Por dizer algumas verdades sobre o nosso país, o regime orientou alguns dos seus sipaios para retirarem a cavilha da granada. Exactamente a mesma estratégia do tempo de José Eduardo dos Santos.

Para os ortodoxos do regime é inaceitável que o Folha 8 não se conforme com o estado a que o país chegou. Mas vamos continuar assim. Nunca mos conformaremos com a miséria, com a fome, com a indignidade, com o roubo e com tudo o que de mau tem acontecido no nosso país.

Em 16 anos de paz nada mudou. A fome, a miséria, a indignidade, a mortalidade infantil, os roubos, os assassínios e tudo o resto continuam a somar pontos porque, de facto e de jure, poucos têm milhões e milhões têm pouco ou nada. Temos 20 milhões de pobres.

Compreendemos que muitas das nossas posições contra a actuação do MPLA não sejam bem aceites por muitos dos seus altos dignitários. Mas não aceitamos nem aceitaremos ficar quietos e calados perante o que consideramos estar errado. Apesar de sabermos que muitos do mais altos dirigentes do MPLA/Estado preferem ser assassinados pelo elogio do que salvos pela crítica, continuamos a tentar salvá-los, coisa que manifestamente eles não fariam por nós.

O MPLA está em todas, lidera em força e com alguma qualidade (reconhecemos) quer as acções internas quer externas, vai somando apoios em muitos sectores políticos, empresariais e intelectuais, para além de alargar os tentáculos do partido/regime a um cada vez maior número de entidades submissas e bajuladoras.

Dizer o que pensamos ser a verdade (mesmo sabendo que ela dói) é, continua a ser, a melhor qualidade de um Jornalista. Não é assim em todo o lado, mas é assim no Folha 8. E por ser assim, quase como um “defeito” de fabrico, é que o MPLA/Estado/regime de João Lourenço voltou à velha técnica das ameaças, dos avisos, das perseguições.

Nesse programa da RTP África falou-se obviamente de Angola e das ilusões que um dos nossos mais reputados prestidigitadores e ilusionistas (João Lourenço) trouxe à cena governativa do país.

Reconhecemos que João Lourenço esteve quase a convencer-nos (mais a uns do que outros) que, com ele, os jacarés passariam a ser vegetarianos. Mas não passou do quase. Além disso, os seus serviçais encarregaram-se logo a seguir de demonstrar que os jacarés não só são carnívoros como andam cheios de fome…

(*) Com DW África

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