O MPLA, partido no poder desde 1975, convive mal (muito mal) com a liberdade. Continua com o ADN de partido único e acha-se com o direito de formatar tudo e todos aos seus desígnios de único dono da verdade, de dono e senhor dos angolanos que, desde 1975, considera serem seus escravos.

Por Orlando Castro

Segundo o MPLA, o programa “Fala Angola” da TV Zimbo transformou-se “num tribunal em hasta pública e palco de exposição gratuita da vida privada”. E se essa intromissão é grave, mais grave é tudo estar a ser feito – por submissão – para amordaçar, ou até mesmo acabar, com o programa de Salú Gonçalves.

Curiosamente, ou talvez não, é que há também outros jornalistas a defender que a liberdade dos angolanos acaba onde começa a do MPLA, mas que a do MPLA não acaba onde começa a dos angolanos.

Alexandre Solombe, por exemplo, considera que se a TV Zimbo quiser manter o programa tem de amenizar os seus conteúdos, tendo em conta a insensibilidade de alguns dirigentes do MPLA frente à crítica. Ou seja, o regime não gosta das críticas e, por isso, os críticos é que têm de mudar o seu comportamento.

Se calhar bastaria obrigar os jornalistas a assinar um documento em que reconhecem que “Angola é o MPLA e que o MPLA é Angola”…

De acordo com a VoA, Ilídio Manuel diz que a postura do MPLA resulta do facto de querer continuar a controlar a comunicação social, considerando que a atitude do partido é uma intromissão nos assuntos que são da competência da Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA).

E, de facto, era muito mais simples ao MPLA atirar a pedra a esconder a mão, colocando a questão à sua sucursal para a comunicação social. Poderia mesmo juntar o parecer do partido, e o respectivo veredicto, de modo a que os seus serviçais da ERCA só tivessem de assinar (ou pôr a impressão digital) a decisão.

O MPLA manifestou-se particularmente agastado com o novo programa da estação televisão privada TV Zimbo, denominado “Fala Angola” e voltado para a crítica social, denúncias de casos de corrupção, abuso de poder e de impunidade.

Convenhamos que denunciar casos de corrupção, abuso de poder e de impunidade é um crime contra a segurança do Estado. Isto para além de ser mais de meio caminho andado para entrar na cadeia… alimentar dos jacarés.

Numa nota publicada na sua página digital, o partido que tem (entre tudo o resto) maioria parlamentar, o Presidente da República, o Titular do Poder Executivo, o sistema judicial, as Forças Armadas, as finanças, a economia na mão, considera que o programa “está a ser transformado num tribunal em hasta pública e palco de exposição gratuita da vida privada de outrem”.

Na nota o MPLA, que apelida de “excêntrico e polémico” o apresentador Salú Gonçalves, considera que o programa está a instigar à “desobediência, a transformar-se num ensaio para a desvirtualização da coesão social” e de assumir um papel, “como se de órgão de soberania se tratasse”.

Entretanto, numa entrevista ao jornal O PAÍS, Salú Gonçalves disse que o programa pretende “alertar as entidades de direito sobre os problemas por que as pessoas passam”.

Erro crasso. Não saberá Salú que pessoas só são os que defendem o MPLA e que, por regra, essas não têm problemas para expor?

Ao que parece a TV Zimbo ainda não tomou uma posição oficial sobre este assunto. Se calhar seria aconselhável mudar o nome do programa para “Fala MPLA” e substituir Salú Gonçalves por Luvualu de Carvalho…

… em abono de Luvualu

Estávamos no início de Novembro de 2015. Os activistas detidos desde Junho desse ano em Luanda, acusados de conspiração, queriam provocar uma intervenção da NATO em Angola que conduzisse ao derrube do Presidente José Eduardo dos Santos. Nem mais nem menos. Luaty Beirão aparecia como um infiltrado da NATO.

Quem disse tal barbaridade? Ora quem haveria de ser? Nem mais nem menos do que o então embaixador itinerante do regime, António Luvualu de Carvalho.

O rapaz estava desesperado e disparava em todos os sentidos. Ainda com o fantasma de José Eduardo Agualusa entalado na garganta, que lhe valeu um enorme puxão de orelhas do chefe do posto, descobriu mais essa pérola. Mas tinha outras engatilhadas. Esteve quase para sair a tese de que os activistas também queriam a intervenção do Estado Islâmico.

Os então detidos, acusados de actos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente do embaixador itinerante, começaram a ser “julgados” em Luanda e Luvualu de Carvalho acreditava na altura que no tribunal “outras questões serão apresentadas”.

Na altura sabia-se que Luvualu de Carvalho já conhecia a sentença. No entanto, perspicaz como era, sabia que a não devia revelar antes do julgamento começar.

“São 15 cidadãos que durante vários dias, durante várias etapas foram acompanhados pelos Serviços de Investigação Criminal. Estavam num processo de sensibilização de um grupo (…) para levarem as autoridades até um ponto, um extremo de aconteceram inclusive mortes”, salientou Luvualu de Carvalho na resposta à encomenda de Luanda a que a Lusa (obviamente) respondeu afirmativamente.

Luvualu de Carvalho esteve na colónia europeia de Eduardo dos Santos (Portugal) naquela que foi a sua primeira etapa de uma peregrinação para, reconheceu o próprio, “dar uma grande dinâmica à imagem de Angola a nível internacional”.

Socorrendo-se das afirmações feitas na altura pelo ministro do Interior, Ângelo Veiga Tavares, o embaixador itinerante repetiu – e repetir era uma das suas mais entusiásticas características – que seria posta em prática uma marcha até ao Palácio Presidencial, “levando com que fossem quebradas as regras de segurança (…) para que a guarda presidencial ou a polícia presente reagisse, matasse crianças, matasse senhoras e matasse idosos para provocar a comoção internacional e justificar então uma intervenção vergonhosa”.

O rapaz era tão genial que até parecia acreditar no que dizia. Tinha, reconheça-se, uma vantagem sobre a esmagadora maioria dos seus camaradas. Fala com tal convicção que ninguém repara que é um dos boneco usados pelo ventríloquo Eduardo dos Santos.

“É isto que se procurava. Que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ou alguns países que dela fazem parte fizessem um ataque a Angola, para que se verifique o horror que se verifica na Tunísia”, acentuou. O rapaz queria dizer Líbia. Mas saiu-lhe Tunísia. E saiu porque o fantasma Agualusa estava pousado no ombro…

Agualusa bem lhe explicou que, por exemplo, o Quarteto de Diálogo para a Tunísia, composto por quatro organizações que negociaram uma forma de garantir que o país se mantivesse uma sociedade pluralista e democrática, em 2013, num momento de crise após a Primavera Árabe, venceu o Prémio Nobel da Paz de 2015. Isto pelo “contributo decisivo para a construção de uma democracia pluralista na Tunísia”.

Luvualu bem gostaria, por alguma razão tem íntimas ligações à ex-URSS, que o Pacto de Varsóvia ainda andasse por aí. Seria uma boa ajuda para manter a NATO quietinha, não seria Luvualu? Também gostaria que a Cuba continuasse a ser o que era nos tempos do Maio de 1977 e anos seguintes.

Mas é tudo uma chatice, um complô, para azucrinar o impoluto e honorável MPLA. A URSS já não existe, Cuba até já vai à missa do Tio Sam, e a NATO apoia activistas…

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