O país, mais uma vez, ficará a ver, por arrogância desmedida, a culpa morrer solteira, com a exoneração, a seu pedido, do ex-Comandante-Geral da Polícia Nacional, Alfredo Eduardo Manuel Mingas “Panda”. Um acto de nobreza. Raro. Digno. Mas a pergunta atravessa a mente de todos: O que o levou a fazê-lo? Foi, por causa do acidente? É verdade terem morrido pessoas, mas a fatalidade, quando bate à porta (pode acontecer a qualquer um de nós), devem ser analisados todos os pormenores e envolventes.

Por William Tonet

Segundo dados da perícia criminal, numa primeira fase, em função do laudo, o comissário “Panda”, não é apontado como culpado. No entanto, por ser quem é, foi alvo de um prévio julgamento popular, alegadamente, fomentado, maliciosamente, por forças que o viam como empecilho.

Certa ou errada, a tese parece prosperar, principalmente, quando acometido, no leito hospitalar, não receber mais do que o cinismo de entidades do sector, do vice-Presidente da República e, principalmente, do Comandante em Chefe das FAA, cuja solidariedade institucional se devia, publicamente, em estado de fraqueza psico-emocional.

Terá faltado, ainda, destes, o benefício da dúvida, ao companheiro de armas e, quando assim é, só uma divisa deve ser hasteada: “kassinda”.

Não se pode servir actores indiferentes ao teu drama, daí recomendar a nobreza de espírito e carácter, “estarem juntos, mas não misturados”, e bater com a porta é o mais acertado.

Mas, nesta fase, de fervilhar popular, a ponderação e visão estratégica de Estado deveriam levar a magistratura do Presidente da República, na qualidade de comandante das tropas, a indeferir os argumentos e pedido de Alfredo Mingas “Panda”. Ao não fazê-lo abriu um sério precedente, mais grave, destapou a podridão que grassa no seio da família castrense e do regime em geral.

Por muito que queiram dar voltas que a roda desconhece, na política não há coincidências… Falta tacto, muito tacto, para se conter o clima de crispação no seio castrense e político, também…

Em Angola, tudo é difuso, tudo é confuso, face à capacidade lícita ou ilícita de alguns actores políticos, chegados ao poder, transfigurarem-se, completamente, surpreendendo até o mais incauto cidadão, caído, mais uma vez (na campanha eleitoral de 2017), na ladainha da tribo-42, cada vez mais dinossaura.

Esta tribo, sub-repticiamente, vem dando golpes de Estado, de 2002 a esta parte, sem armas e canhões. Fá-lo, agora, com “soldados” de toga preta (Juízes e Tribunais), Constituição atípica, Comissão Eleitoral fraudulenta e leis draconianas, contrárias a toda a ética, transparência e à verdade democrática.

Este enredo, caminha ao som da peça teatral: dois em um, que anestesia a população apenas com pacotes de exonerações, palhaços de repatriamento de capitais e príncipes da corrupção, a volta de um disco que roda e toca o mesmo, num salão onde não existem culpados, não debela a fome dos milhões que têm pouco. Mas, o hoje, tal como o ontem, anda na lógica da batata, na lei da batota.

Os estômagos famintos esperavam o contrário, estavam dispostos a abraçar uma guerra social onde, no centro, estivesse a estabilidade económica, a esperança de vida, a revogação da Lei Geral do Trabalho (por a actual ser, vergonhosamente, contra os trabalhadores), a reforma da Constituição (partidocrata, defensora da perpetuação de um partido no poder), mais e melhor emprego de carteira assinada, enfim, o sonho de nova aurora, face ao discurso de mudança.

E este assentava na promessa do CABEÇA-DE-LISTA (candidato) do MPLA, nas eleições de 2017, de 500 MIL EMPREGOS…

Bravo, rejubilaram os que acreditaram, que víbora pode virar minhoca, dando palmas, votos e até a CNE batotou, fornecendo milhões de votos, da oposição, denunciados por comissários eleitorais, que estranhamente, colheram a omissão e cumplicidade da UNITA e CASA-CE.

Mas o mais grave foi a ocorrência do DIA SEGUINTE depois da outorga de vitória; da tomada de posse; do controlo do Estado, no pedestal da arrogância assassinar a verdade, na primeira esquina.

Assassinar, matar, sim, pois o “cidadão-eleitor” foi confrontado, em pouco tempo com o incumprimento de uma promessa eleitoral, tão pouco a crueza do Presidente da República, Titular do Poder Executivo, o novo “Dono Disto Tudo”, em sublime insensibilidade, afirmar em 8 de Janeiro de 2018 que haveria, ZERO EMPREGO; ZERO AUMENTO SALARIAL, muito DESEMPREGO e “EXPULSÃO” DE 50% DOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO PÚBLICA.

Esplêndido masoquismo, para uns, cinismo político elevado, para outros, apunhalando a esperança e o sonho de um arranque com perspectivas, para os 20 milhões de pobres, que acreditaram na estória da carochinha, poder, com um toque de mágica, reformar o reino do inferno.

O TPE (Titular do Poder Executivo), elegeu o show off, ao invés do pragmatismo, com políticas de apoio à banca e aos banqueiros (metade do gabinete são accionistas de bancos comerciais), ao invés de políticas sociais, capazes de fazerem baixar os preços do tomate, da fuba, feijão, óleo alimentar, galinha, que aumenta e inflaciona, todos os dias, em 8 meses, para os pobres, obrigados, na maioria das vezes, a fazer ½ refeição/dia.

Estes, cada vez mais raquíticos e indigentes, são ainda obrigados a pagar altos impostos, luz, água e outras mordomias, para manter a vida de nababos das máfias corporativas dos órgãos dos poderes, legislativo, judicial e executiva, cujos integrantes têm subsídio moradia, saúde, guardas, motorista e altos salários, quando apenas defendem os seus umbigos, acumulando ilícita e dolosamente riqueza e poder, em nome do povo.

Neste séquito, uns são mais responsáveis do que outros, porquanto, os legisladores/deputados do MPLA (bancada maioritária), tinham a soberana oportunidade de recuperar a credibilidade, jogada nos monturos lamacentos da desgovernação e corrupção, derivada dos 42 anos de acumulação primitiva do capital.

Infelizmente a miopia, destapou-lhes a pequenez de raciocínio e, ao invés de optarem por ser um partido democrático, com liderança própria, independente, depois da partida de José Eduardo dos Santos, da Presidência da República, preferiram o “lambe-botismo”, agora, nas asas do novo Titular do Poder Executivo.

Este comportamento vergonhoso é uma clara demonstração dos deputados, não estarem à altura dos novos tempos e da confiança popular. Tinham todas as condições de fazer bem ao MPLA e, consequentemente, ao país, uma vez, que a sua fiscalização e independência iriam obrigar o Titular do Poder Executivo, a fazer mais e melhor, ser humilde, nos actos e rigoroso na gestão da política económica, sabendo ter outro verdadeiro contra-poder e não meras marionetes.

O MPLA não está, verdadeiramente, comprometido com o combate à corrupção, o peculato, a roubalheira. Os seus deputados e dirigentes, quais comerciantes e empresários, têm a preocupação cimeira de se servir e não servir o povo, logo, aceitam lamber o tapete vermelho, na desmedida ambição de, um dia, poderem ser chamados ao Executivo, onde se trafega com facilidade a delapidação dos cofres do erário público, porta escancarada ao enriquecimento fácil.

Este comportamento demonstra traição ao slogan: “O mais importante é resolver os problemas do povo”, tornando-os covardes de um templo putrefacto, indiferente à miséria e sofrimento dos povos, carentes de uma política económica, capaz de defender o consumo, para os pobres, com base no fomento do emprego, alavanca do desenvolvimento.

Segundo o Papa João Paulo II, o emprego é a nova arma do desenvolvimento. Infelizmente esta premissa ao que parece, não faz morada, na equipa económica de João Lourenço, caso contrário, ao invés de contas de multiplicar, fariam as de poupar, rentabilizando dois importantes activos imobilizados (aviões presidenciais, comprados na época de JES), na placa do Aeroporto Internacional de Luanda, pagos com dinheiro público e, que, por capricho, não voam, alegadamente, por se desconfiar ter o antigo chefe de Estado deixado alguma macumba.

Como se pode levar a sério gente que estende a mão à caridade internacional e freta aeronaves internacionais, pagas caro, quando as tem em casa? Não se pode continuar a brincar desta forma com dinheiro do povo. Por este andar nunca se vai combater a corrupção, pois querem fazê-lo subvertendo a lógica racional.

Este quadro leva-nos ao músico argentino Enrique Santos Discépolo, reescrito em 1986, por Raul Seixas caracterizando a maldade de muitos dirigentes que falam em nome do povo, mas levam-no ao suicídio (letra da música disponível em: http://letras.mus.br/raul-seixas/221824/).

Cambalacho

“Q ue o mundo foi e será uma porcaria eu já sei/ Em 506 e em 2000 também/ Que sempre houve ladrões, maquiavélicos e safados/ Contentes e frustrados, valores, confusão/ Mas que o século XX é uma praga de maldade e lixo/ Já não há quem negue/ Vivemos atolados na lameira/ E no mesmo lodo todos manuseados/ Hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor/ Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador/ Tudo é igual, nada é melhor/ É o mesmo um burro que um bom professor/ Sem diferir, é sim senhor/ Tanto no norte ou como no sul/ Se um vive na impostura e outro afana em sua ambição/ Dá no mesmo que seja padre, carvoeiro, rei de paus/ Cara dura ou senador/ Que falta de respeito, que afronta pra razão/ Qualquer um é senhor, qualquer um é ladrão/ Misturam-se Beethoven, Ringo Star e Napoleão/ Pio IX e D. João, John Lennon e San Martin/ Como igual na frente da vitrine/ Esses bagunceiros se misturam a vida/ Feridos por um sabre já sem ponta/ Por chorar a bíblia junto ao aquecedor/ Século XX ‘cambalache’, problemático e febril/ O que não chora não mama/ Quem não rouba é um imbecil/ Já não dá mais, força que dá/ Que lá no inferno nos vamos encontrar / Não penses mais, senta-te ao lado/ Que a ninguém mais importa se nasceste honrado/ Se é o mesmo que trabalha noite e dia como um boi/ Se é o que vive na fartura, se é o que mata, se é o que cura ou mesmo fora-da-lei”.

Como se vê, por este andar, a situação de Angola, não vai despencar, correndo-se o risco da indefinição passar a constituir uma canção, para promoção dos corruptos, ladrões, assassinos e incompetentes.

É preciso impedir, através de uma revolução pacífica, como prognosticaram, Martin Luther King, Mahatan Gandi e Nelson Mandela, que a verdade não continue a ser a vítima nesta guerra, pela afirmação da dignidade do homem angolano.

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