Actualmente, quando alguns intelectuais e até jornalistas, falam de bicefalia, hoje como ontem (e certamente amanhã), de resto, apenas estão a bajular o presidente em exercício, para que lhes sejam garantidos lugares e tachos governamentais e similares que lhes permitam continuar a roubar e, nessa senda, como arma de arremesso utilizam a delação.

Por William Tonet

Tal como fizeram com Dos Santos para o levar ao vértice da pirâmide do poder, estes intelectualóides querem, em nome das auguradas mordomias, tornar João Lourenço um ditador, achando que só poderá governar se ele concentrar todos os poderes partidários em suplemento aos do Estado.

Assim, o que realmente querem é a continuidade do MPLA de sempre como órgão supremo do Estado, quando deveria ser um partido normal, sem qualquer interferência nos órgãos públicos, sem ousar trafegar dinheiro do Estado para comprar votos, fraudar as eleições e premiar, no final, todos os capitães da fraude eleitoral.

Tal como aqui já escrevi ocorreu, alegadamente, com Edeltrudes Costa, Adão de Almeida, Júlia Ferreira, Manuel da Silva, Silva Neto e todo um grupo de iluminados que nunca se comprometeram com o poder e gestão da coisa pública, mas com difusos interesses e esquinas sem berma.

O problema do país é que, nesta rota de transição individual, o que mais parece é não haver para os angolanos uma perspectiva de real mudança.

Logo, o falso problema da bicefalia reside no facto de os mesmos que dela beneficiaram voltarem-se agora contra o ex-monarca absoluto para conquistar benesses do actual presidente da República, que será também qual príncipe, coroado líder do MPLA, partido governista.

Ora, o foco dessa estratégia não deveria ser o combate a José Eduardo dos Santos, enquanto cidadão, mas a crítica acerba à gestão do erário e coisa públicas, no tempo em que José Eduardo dos Santos detinha poderes especiais ilimitados, como presidente do MPLA, Titular do Poder Executivo, Chefe de Estado, Comandante-em-Chefe das FAA, desempenhando ainda as funções de Presidente da República, como se fosse e era, partidocratamente, o “deus” na terra governada pelo regime.

Quer dizer, nesta nova avenida, a oposição ao invés de ficar expectante deveria ser crítica, quanto à manutenção de duas pistas, sim, para que o MPLA descesse ao pedestal da normalidade dos partidos políticos, impedindo a dualidade de funções do Presidente da República, com capacidade de colocar o MPLA acima das instituições e órgãos do Estado, cotando-se como presidente dos angolanos do seu partido, quando o racional seria ser de todos angolanos.

Infelizmente, tal como Jonas Savimbi e a sua equipa não ousou, em 1991, também, a oposição em 2017/18, mantém-se amorfa, quando poderia, com a saída de Dos Santos bater-se pela repristinação dos Acordos do Alvor, quanto à eleição de uma verdadeira e soberana Assembleia Constituinte, para definir a nova geografia do país, dos seus órgãos e dos Direitos Fundamentais do Cidadão.

Isso ninguém faz, por se considerar a contenção uma excelente estratégia para consolidar a estabilidade político-social. Erro. Erro crasso.

Na conjuntura actual, o cenário político de Angola, uma vez mais, alterou-se: NEGATIVAMENTE!

Tudo mudou, sem nada mudar, na lógica de um grupo cuja noção de Estado é de ser a casta predestinada, vocacionada para, ditatorialmente, governar o país, mau grado a maioria dos angolanos não lhes ter concedido soberania material, muito menos moral, para tal exercício.

Muito se discorreu sobre a bicefalia desde que João Lourenço foi eleito presidente da República, quando o que na realidade aconteceu é o contrário. Sempre houve bicefalia até essa altura e desde as eleições o que passou a haver é uma bipolarização do poder, ou seja, deu-se um passo à frente na instauração de um regime que, a defeito de ainda não ser democrático, se apresenta como sendo democratizante por ter havido, pela primeira vez desde 1975, uma deslocação do tabuleiro da concentração de poder na vertente do absolutismo.

Bicefalia, segundo o dicionário Priberam, é a “existência de dois líderes que dirigem simultaneamente a mesma estrutura ou organização; liderança bipartida”. Ora o MPLA não é a Presidência da República, mesmo se à cabeça desta última está um militante seu. Quer dizer, antes da eleição de JLo havia bicefalia com JES ao leme de duas organizações distintas, depois das eleições de Agosto 2017 deixou de haver, pelo facto de o MPLA ser dirigido por JES e a presidência, segundo a nossa Constituição, ser exclusivo apanágio de João Lourenço. E o que se passa agora é que voltamos à estaca zero, a partir do momento em que se concretize a nomeação do actual presidente da República como líder do partido no poder.

Agora sim, teremos um retorno ao passado na continuidade do mal, bicefalia, pois na verdadeira acepção do conceito, eis um corpo, o de João Lourenço, a caminhar, isoladamente, com duas cabeças: a de Presidente da República e a de presidente do MPLA.

Alguma vez, aqueles que entregam este cheque em branco avaliaram a valência do político e o seu desempenho em funções inferiores? Não interessa. O importante é que a ditadura partidária possa gerir o território e o líder seja o manipulador absoluto das peças do xadrez, como garantia das mordomias.

O MPLA mostrou na sua última reunião do Bureau Político ter 5 milhões de aderentes. Tal balela não passa de mero número estatístico pretensa garantia de emprego, sem convicção ideológica, portadora do síndrome do vazio intelectual de um partido político que não sabe, em todo o caso não admite, que é apenas um partido e a liderança do Estado extrapola as suas competências, um partido que ignora o que é a direcção de um país e não sabe o que é democracia. Pior ainda. É um partido avesso à democracia…

O MPLA assemelha-se, pese o risco da asserção, a um partido que parece idolatrar a índole fascista, com a apresentação de uma embalagem de preocupações sociais e de esquerda, mas só da boca para fora, apenas para confundir a navegação, pois os actos não mentem e nada de fundamental tem estado a mudar.

Nessa aqui atrás referida reunião partidária poderia abrir-se o leque de candidatos à sua liderança e, obviamente, João Lourenço estaria em vantagem, na “pole position”, mas os demais jamais poderiam ser, como na linha ideológica do fascismo, impedidos de concorrer ao cadeirão, ainda que tivessem hipóteses reduzidas.

É inadmissível que um órgão como o Bureau Político do MPLA, na tomada de uma decisão tão importante, já tenha condicionado a eleição do congresso de Setembro. Politicamente é um erro.

O que vão pensar os delegados? Nada! Vão limitar-se a gastar dinheiro para levantar a mão e aprovar o já decidido.

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