As notícias do desaparecimento do primeiro satélite angolano, Angosat-1, que perdeu a comunicação com a base de controlo terrestre, continuam a dar que falar, para o bem e para o mal. Daí o Folha 8 ter procurado opiniões de alguns cidadãos, nas ruas de Luanda, sobre o enigma da localização e oportunidade da sua construção, num ambiente de crise.

Por Fazegas Manico

A maioria considera uma aberração tão importante investimento, como deixou transparecer, Fábio André, residente na centralidade do Kilamba, que disse: “O governo deve esquecer o satélite e priorizar a educação e a saúde. E caso haja negociações para construir o AngoSat-2, não anunciem porque estamos fartos disto. Estamos muito bem com o satélite dos outros”.

Manuel Pedro, morador do bairro Cassequele sobre o eventual desaparecimento, disse não haver fumo sem fogo: “Isto já me cheira mal porque não se justifica pensar no Angosat-2, se o Angosat-1 foi um fracasso total. Com a realidade que o país vive, um satélite não é prioridade, isto é algo para países desenvolvidos e Angola não é. Há necessidade do governo investir mais na saúde, educação e casas para a juventude”.

A cidadã Aniara, residente no Maculusso, defendeu ser bom investir noutros sectores, mas é necessário priorizar o saneamento básico, uma vez que quando chove o bairro fica intransitável por muitas ruas ficarem todas alagadas.

Corrobora a opinião Pedro Manuel, das Ingombotas, de um satélite não ser prioritário para Angola, uma vez o país ainda ter muito a fazer, do que preocupação na construção de um satélite.

Angosat-1 desapareceu e seguro cobre menos de 50%

Depois da euforia vivida em torno da criação e lançamento do primeiro satélite angolano, o Angosat-1, tudo indica que os USD 320 milhões de dólares terão sido jogados ao espaço, uma vez o país fabricante, a Rússia, ter perdido contacto com o aparelho e a seguradora de riscos apenas cobre, pouco mais de 48% cerca de metade do valor: USD126 milhões de dólares.

Diante das conversações para a construção do Angosat-2, estes cálculos indicam que, se o país pretende adquirir um satélite equivalente ao primeiro (USD 320 milhões), terá de acrescentar USD 194 milhões, uma vez o seguro apenas cobrir USD 126 milhões. Obviamente, são mais milhões que deverão sair do erário público.

O lançamento do Angosat-1, desde o início foi um desafio e no seu percurso espacial, nunca deixou de ser turbulento, expectante, com muitas incertezas em torno do projecto que marcou o pontapé de partida de Angola na corrida espacial.

As críticas não deixaram de chover uma vez o país não produzir o básico para as suas gentes, ter sérias dificuldades em garantir estabilidade no emprego, logo não deveria abraçar um novo lançamento depois do fracasso do Angosat-1, em 26.12.2017, construído pela Roscosmos, empresa estatal espacial russa, mas lançado em órbita através de um foguetão ucraniano, Zenit-3SLB, no Cazaquistão.

Nas primeiras 48 horas, os fabricantes russos, anunciaram a reconexão com o Angosat-1, afirmando a normalidade de tal sobressalto, perspectivando um período de avaliação terminado na primeira quinzena de Abril. Diante de tanta incerteza, pairou a esperança da reconexão depois do Executivo angolano, ter garantido o sucesso do projecto.

Numa altura que as partes parecem admitir o fracasso, foram retomadas as negociações para a criação de um novo satélite, o Angosat-2, que acarretará mais milhões de dólares dos bolsos dos contribuintes.

Ministro confirma que Angosat-1 é nado-morto

O ministro das Telecomunicações, José Carvalho da Rocha, confirmou hoje o fracasso do projecto Angosat-1, ao declarar em conferência de imprensa que o satélite está inoperante e que foram registadas “perturbações” no seu funcionamento, desde o lançamento oficial, insistindo que o satélite permanece sob vigilância dos técnicos russo em órbita, mas, ao mesmo tempo, admite que pouco ou nada há a fazer, porque já foi iniciado o processo de construção do segundo satélite angolano, o Angosat-2.

O ministro explicou que embora os 121 milhões de dólares sejam quase metade dos 320 milhões investidos por Angola no AngoSat-1, o dinheiro será suficiente para garantir o AngoSat-2, tendo em conta que as despesas com as infra-estruturas já foram realizadas.

Angosat-2 começa a ser construído já e vai para o espaço no final de 2020.

Recorde-se que após o lançamento, o Angosat-1 havia perdido sinal, chegando a gerar um clima de indignação entre os angolanos e não só, que desde aquele momento perceberam que algo estava mal. Contrariando na altura, o Executivo angolano afirmou que tudo estava correndo segundo os planos traçados.

A mentira do Executivo foi então destapada por José Carvalho da Rocha, que esclareceu que o fracasso começou desde o lançamento oficial.

O ministro também parece contraditório porque a 17.04.2018, esclareceu os deputados da 6ª Comissão da Assembleia Nacional que o satélite estava de “boa saúde” apesar da inexistência de comunicação. Passado 6 dias, declarou a inoperância do aparelho.

Em países sérios, um ministro como o José Carvalho da Rocha devia demitir-se do cargo que ocupa, isto por estar a brincar com os angolanos e o erário público.

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