O meu pai faz parte daquela geração obrigada a combater em África na, chamemos-lhe assim, guerra do Ultramar e, tal como uma parte substancial dos seus camaradas, jamais havia saído da sua terra, visto o mar ou conhecido um português indígena. Mas pelo menos deram-lhe a quarta classe antiga que faria dele -segundo esses antigos – quase bacharel. Ou como se disse em Gil Vicente quando personificado o povo: Bacharel doutor. Mas mesmo assim foi ao Éden calhando-lhe em sorte Cabinda e não Angola.

Por Brandão de Pinho

É curiosa a percepção completamente errónea que os mais velhos têm do seu tempo e de como as coças frequentes e recorrentes para obrigar aquelas débeis e subnutridas cabeças a um processo reiterado de memorização de rios e rios de linhas de caminhos-de-ferro da metrópole e províncias ultramarinas e tudo o mais que desse para decorar os consumia.

Assim os neurónios que deveriam estar a fazer sinapses com outros neurónios de raciocínio, de imaginação ou de inteligência para indagar e questionar, para acicatar a curiosidade natural e acirrar a inquietude infantil foram submetidos ao que menos não era do que uma autêntica, genuína e “emepêliana” lavagem cerebral.

Vamos conceber um quadrado com quatro cantos que constituiriam a Catalunha, Caxemira, o Curdistão e Chipre do Norte e o centro na intersecção das duas diagonais caberia a Cabinda.

Imaginemos agora os países, ou mais concretamente os Estados-Nação devidamente reconhecidos como tal por outros que tais -como não é o caso da Formosa – ilha descoberta pelos portugueses ao largo do Mar da China que acolheu os nacionalistas chineses em debandada – depois da submissão do Japão na II Grande Guerra Mundial – ante a perseguição dos marxistas, leninistas, estalinistas e em derradeira análise futuros ex-maoistas – e com um pouco de esforço e devaneio “eduardistas” ou “lourencistas” pois estas correntes alimentam-se de retórica infinita.

Se de início Taiwan era país, até com assento na ONU, aos poucos, a paciente e cínica diplomacia sino-soviética tratou de o desqualificar e pese embora seja uma das maiores economias do mundo e uma democracia plena, o Império do Meio só tem relações com quem abdicar de as ter também com Taipé. É como uma “concubina” ciumenta e histérica essa Dona China, apesar de não o parecer em público, só se revelando no recato do lar. Virtudes públicas, vícios privados diz muito bem o aforismo.

Ninguém sabe bem ao certo quantos países há. A por mim reportada mas não reputada ONU imputa um número e a FIFA imputará outro. E outras organizações disputarão outros. O caso africano da Somalilandia vs Somália é exemplar pois o primeiro é país mas não funciona e o segundo não o é mas funciona bem.

Convido-vos então a um exercício de reflexão puramente especulativo e hipotético com 5 alíneas, e, designemo-las pelas vogais da Língua da Última Flor do Lácio:

a)– A Catalunha terá de se despachar e aguardar a conjugação de alguns factores tais como: a consumação do Brexit, a independência da Escócia, a reunificação da Irlanda, a cedência das praças africanas a Marrocos por troca com Gibraltar (abrindo-se assim uma Caixa de Pandora), a manutenção dos lunáticos de esquerda no poder antes que os ainda mais amalucados do recente partido de extrema-direita espanhol tenham voto na matéria, as boas relações com a Rússia e China para uma implacável guerra digital, o declínio anunciado da União Europeia, a escolha de candidatos catalães desta vez irrepreensivelmente impolutos e o mais importante, a percepção de que o F.C. Barcelona está condenado ao ostracismo e pequenez do futuro campeonato de futebol catalão.

e)– Eis então o caso mais complexo: – Caxemira. É complicado fazer futurologia acerca de um estado (ou melhor, região) nada homogéneo pelo menos em termos religiosos. Encravado entre três potências nucleares. Mas a China mais tarde ou mais cedo irá ser a mediadora e surgirá um protectorado (de facto, não como no caso de Cabinda ante Portugal) mais ou menos autónomo. Um protectorado da China, obviamente. Um país, dois sistemas.

i)– Imagine-se, e, sabendo-se que os Curdos são o maior grupo étnico do mundo sem pátria – e tendo em conta o precedente estado sionista – e sabendo-se ainda que de facto o Curdistão iraquiano é um país com intensas relações económicas até com a Turquia cujo parlamento tem não poucos deputados completamente devotos e leais à causa curda, sabendo-se então tudo isto, predigamos então se haverá mais dúvidas do que saber se a Turquia e o Irão irão ceder território, ou não, para o futuro estado, pois Síria e Iraque não têm outro remédio.

o)– Outra vez os genocidas turcos em bicos-de-pés como que se se arvorassem e ufanassem de ser os legítimos e genuínos herdeiros do grande império otomano nascido dos escombros do império bizantino, desabrochado da perversa degenerescência do império romano, que vigorou após o colapso do império grego, etecetera. Desta vez em Chipre. No norte do Chipre, mais concretamente. Onde os seus indolentes não cidadãos complacentemente vivem num limbo insustentável que os vai esmagando ao ponto dos seus homólogos gregos insulares em referendo passado os rejeitarem tanto quanto Maomé rejeitou o presunto (presumo… mas poderá ser outro produto suíno).

u)– Um raciocínio silogístico de matriz aristotélica partindo do princípio que Cabinda se tinha ajoelhado a Angola e Portugal, o que não é o caso. Se a economia de Angola vive (outrora em 60% e agora em pouco mais de 40%) suponhamos, de 50% do Petróleo, e, se dois terços do ouro negro vêm de Cabinda, então um terço (1/2 X 2/3 = 2/6 = 1/3) de toda a riqueza de Angola resulta somente do Petróleo de Cabinda, excluindo madeira, produtos agrícolas e… turismo, por exemplo – que antes da queda do Estado Novo tinha um potencial descomunal. O paraíso na terra como me dizia o meu pai quase todos os dias enquanto malhava o ferro da forja flamejante e me tinha mais como ajudante do que aprendiz de ferreiro, martelando-me o cérebro com Cabinda isto, Cabinda aquilo, Cabinda aqueloutro, coçando a cabeça e cantarolando uma ladainha donde escapavam palavras tais como camarão, cerveja, calor, cinema ao ar livre, cidade cintilante e Congo. E mais “Cês”. Alguns indizíveis. Cruzes credo.

Posto isto há que colher a moral desta fábula ao jeito de Monsieur La Fontaine:

1– Alguém tem dúvidas que os cabindas, étnica e linguisticamente nada têm a ver com Angola?

2– Alguém tem dúvidas que Cabinda e os cabindas querem a sua auto-determinação?

3– Alguém pensará porventura que as FLEC/FLAC se finaram quando mais correctamente estarão em hibernação?

4– Alguém duvidará que o enclave, ou melhor, socorramo-nos de um neologismo, “exclave”, (pois enclaves são o Lesoto, São Marino e o Vaticano), de Cabinda está enfiado nos fartos e lácteos seios dos Congos sem qualquer adjacência ou contiguidade geográfica com Angola?

5– Alguém no seu perfeito juízo achará que quando se instalar de facto a democracia em Angola, por ventura até sob tutela do General Lourenço, que Cabinda passará de uma Região Autónoma até se tornar independente de Angola de facto… e de Portugal e da UE?

Cantemos então! Avante Angola! Avante Cabinda? Avante!!!

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