A maioria dos jornalistas em Portugal recebe menos de 1.000 euros líquidos por mês e um terço trabalha com vínculo precário, segundo um inquérito do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, hoje divulgado.

Por Orlando Castro (*)

Nada mau. Ficamos a saber que, segundo o ISCTE, é igual ser jornalista, produtor de conteúdos, operário nas fábricas de enchimento de textos de linha branca, ou moço de fretes dos donos dos “jornalistas” e dos donos dos donos.

O trabalho, realizado por uma equipa do ISCTE, em parceria com o Sindicato dos Jornalistas e o Obercom, conclui que, no ano passado, 69% dos jornalistas recebiam entre 501 e 1.500 euros líquidos por mês, dos quais 23,3% recebiam entre 1001 e 1.500 euros, 23,9% entre 701 e 1.000 euros e 21,8% menos de 700 euros.

E, e… viva o velho! É que isto de ser tapete de luxo do poder exige um grande investimento. No entanto, os mais dotados (ausência de coluna vertebral e capacidade para pensar pela cabeça – seja ela qual for – do Director) poderão um dia ser assessores de políticos e depois verão chegar a recompensa de todo o seu esforço: serem directores de qualquer coisa.

“Se estabelecermos os 1.000 euros como ponto de divisão, verificamos que 57,3% dos jornalistas ganham menos, apesar de o rendimento mensal médio líquido ser de 1.113 euros”, lê-se num sumário do estudo, intitulado “Os jornalistas portugueses são bem pagos? Inquérito às condições laborais dos jornalistas em Portugal”.

Porém – acrescenta o estudo a apresentar no sábado durante o 4.º Congresso dos Jornalistas, que decorre de hoje a domingo em Lisboa – “11,6% dos jornalistas recebem menos de 500 por mês e, desses, 7% nem sequer recebem 300 euros”.

No que respeita aos rendimentos na profissão, o trabalho evidencia ainda que só 19,4% dos jornalistas recebem mais de 1.500 euros mensais, sendo que, destes, 10,8% ganham até 2.000 euros, 3,6% até 2.500 euros e só 5% auferem um valor superior.

O estudo – cujos autores garantem ser “o mais recente e abrangente inquérito já realizado em Portugal, respondido por quase 1.500 jornalistas” – conclui também que, destes, 87,5% encontravam-se a trabalhar, enquanto 7,9% estavam em situação de desemprego. Além destes, 2,2% estavam reformados e 2% em estágio (1,5% em estágio profissional e 0,5% em estágio curricular).

Relativamente aos vínculos laborais, o ISCTE nota que, no ano passado, 33,4% dos inquiridos não tinham contrato fixo, trabalhando “em condições contratuais precárias e sujeitos a instabilidade, insegurança e fragilidade”.

Neste grupo incluem-se os colaboradores (16,4%), dos quais a maioria (8,8%) tinha uma avença e os restantes (7,6%) trabalhavam à peça, e os 17% de profissionais que se assumiram como ‘freelancers’.

Entre os inquiridos, dois terços referiu ter contrato de trabalho, 56,3% dos quais sem termo e 10,5% a termo certo.

Em 2016, os contratos de trabalho dos jornalistas em Portugal eram maioritariamente de 35 a 40 horas semanais (64,7%), mas 27,7% afirmaram não saber a carga horária semanal prevista nos seus contratos e a maioria assumiu trabalhar mais de 40 horas por semana (13,8% têm uma semana laboral de 51 a 60 horas e 9% até trabalham mais de 60 horas).

Apesar da elevada percentagem de jornalistas que trabalha mais horas do que o previsto no seu contrato, apenas 3,9% são remunerados pelas horas extraordinárias e 10,2% são compensados em tempo de descanso pelo trabalho extra, sendo que quase dois terços do total (63,4%) não têm qualquer compensação pelo trabalho extraordinário.

Algo que, sustentam os autores do trabalho, demonstra “uma elevada discrepância entre a carga horária contratualizada, a prática profissional efectiva e a remuneração devida”.

Num mercado descrito como de “elevada concentração”, o ISCTE diz haver 25,8% de jornalistas que prestam serviço para mais de um órgão de comunicação social dentro do mesmo grupo, dos quais mais de dois terços (66,8%) não recebem remuneração extra por esse trabalho.

“A progressão na carreira dos jornalistas inquiridos parece quase impossível, pois mais 80% não têm progressão há mais de quatro anos, mesmo nas empresas de comunicação social onde ela está prevista”, lê-se no sumário, que acrescenta que “28,4% de jornalistas não progridem na carreira há mais de uma década e 29,4% têm a carreira congelada há pelo menos sete anos”.

Por outro lado, são 22,5% os que não progridem há quatro a seis anos e 19,7% os que estão sem progressão na carreira há menos de três anos.

Neste contexto laboral, o trabalho nota que “quase dois terços dos jornalistas inquiridos (64,2%) já pensaram, pelo menos uma vez, abandonar a profissão”, apontando como motivos o baixo rendimento (21%), a degradação da profissão (20,4%) e a precariedade contratual (14,3%).

E, se 39,2% dos jornalistas inquiridos já passou pelo desemprego, estes profissionais estão “muito divididos quando à probabilidade de perderem o emprego no futuro próximo”: “Se 35,1% consideram que ficar desempregado é improvável, 40,9% acham provável, com 15,7% a afirmarem que é extremamente provável a curto prazo”.

“Apesar de a maioria dos jornalistas que já passou pela situação de desemprego ter conseguido regressar à profissão em menos de um ano, a percepção dos inquiridos acerca da probabilidade de voltar a encontrar emprego no jornalismo perante uma situação de desemprego em 2016 é muito pessimista”, acrescenta.

Composto por 78 perguntas, o inquérito do ISCTE foi respondido por quase 1.600 jornalistas entre 1 de Maio e 13 de Junho de 2016, tendo sido validadas 1.494 respostas.

Como diz, ou dizia, Inês Pedrosa, “temos cada vez mais jornalistas que saltam das redacções para se tornarem criados de luxo do poder vigente”. E, é claro, depois dessa rodagem há sempre a possibilidade de ver criados saltarem do poder para serem sobas nas empresas, fundações, institutos e similares com especialização em estar sempre de acordo com os seus donos.

Nota: Em memória dos jornalistas despedidos por quererem ser apenas jornalistas e com um abraço especial a Miguel Portas.

(*) A partir de informação veiculada pela Lusa

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