O cabeça-de-lista da CASA-CE às eleições gerais angolanas de quarta-feira disse hoje que só admitiria uma eventual coligação com um MPLA diferente do actual, com “mais patriotismo e, sobretudo, mais sensibilidade para com os cidadãos”. Ou seja, quando os angolanos esperavam a estocada final, Abel Chivukuvuku volta ao seu ambíguo “sim, não, talvez”. E como MPLA há só um…

Chivukuvuku, que falava à margem do comício de encerramento de campanha do seu partido, em Luanda, tinha admitido anteriormente uma “geringonça à angolana” com a restante oposição, mas não tinha descartado uma aliança, caso fosse necessário, com “um MPLA diferente” do actual.

Questionado pela Lusa sobre se se referia a um MPLA (no poder desde 1975) com líderes diferentes dos actuais (o presidente do partido, José Eduardo dos Santos, e o vice João Lourenço), Abel Chivukuvuku respondeu negativamente.

“O que conta não são as pessoas, o que conta são as atitudes, o compromisso com os cidadãos”, disse o líder da CASA-CE, acrescentando que o MPLA teria de demonstrar mais “patriotismo e, sobretudo, sensibilidade para com o cidadão”.

Sobre as suas prioridades caso vença as eleições de quarta-feira, Abel Chivukuvuku apontou a necessidade de “usar os recursos do país em benefício de todos os cidadãos”.

“Acabar com a corrupção, acabar com o desperdício. Acabar com a insensibilidade”, disse o cabeça-de-lista da CASA-CE, que deixou ainda uma palavra para a grande maioria de jovens presente no comício da tarde de hoje.

“A maioria da nossa população é jovem. Quem quiser realizar Angola tem de apostar na juventude”, realçou.

Abel Chivukuvuku também admitiu a possibilidade de os resultados de quarta-feira levarem a que as forças da oposição façam “uma coligação à angolana”.

Essa fórmula pós-eleitoral tinha sido avançada pelo candidato da UNITA, Isaías Samakuva.

“Por Angola, pela mudança, temos de pôr todas as portas abertas”, admitiu Chivukuvuku, classificando esse hipotético entendimento como uma “gerigonça angolana”.

A UNITA conseguiu 18% dos votos nas últimas eleições gerais, em 2012, enquanto a CASA-CE atingiu os 6%. O cabeça-de-lista do MPLA, João Lourenço, tem reiterado os apelos ao voto e a uma maioria qualificada nestas eleições, afirmando que aquele partido é o único que pode garantir a estabilidade em Angola.

O melhor seria estar calado

Recorde-se que a Assembleia Nacional aprovou no dia 28 de Junho o Projecto de Lei Orgânica sobre o Regime Jurídico dos Ex-Presidentes e ex-vice-Presidentes da República, que sofreu várias alterações à forma inicial, designadamente a retirada da designação de Presidente Emérito. Ou seja, mudou a embalagem mas manteve-se o produto, mudou o acessório mas manteve-se o essencial.

O diploma foi aprovado com 156 votos a favor, do MPLA, o proponente, da CASA-CE, do PRS e da FNLA, 20 contra, do grupo parlamentar da UNITA e nenhuma abstenção.

As alterações começaram com a designação do diploma, que passou a ter o título Lei sobre o Estatuto dos Antigos Presidentes da República de Angola, referindo no segundo artigo do primeiro capítulo que “a presente lei aplica-se não só aos antigos Presidentes como também aos antigos vice-Presidentes da República de Angola que tenham cessado funções”.

Na sua declaração de voto, a UNITA, maior partido da oposição, justificou não concordar com o carácter de urgência da lei, salientando que o país quando Angola teve um ex-Presidente, desde 1979, pelo seu falecimento, o que “dá a entender que está em causa encontrar um fato ‘pret-à-porter’, à medida de um homem e na sequência dar boleia ao antigo primeiro Presidente da República e seus descendentes”.

Para a UNITA, há questões com as quais “não pode pactuar”, apesar de reconhecer que “um Presidente da República após o fim do seu mandato deve auferir direitos que dignifiquem o seu estatuto e goze de imunidades”.

Tudo isto, disse a UNITA, “quando o país tem muitos dos seus antigos combatentes e centenas de milhares dos seus ex-militares, muitos deles mutilados de guerra, constituídos em exército de mendigos, fora da caixa de segurança social, e a Assembleia Nacional aprova uma lei que dê uma dupla subvenção às ex-primeiras damas da República”.

Esta votação revelou mais uma vez o poder do MPLA que, sem grande esforço, chutou para canto o pensamento da maioria dos angolanos, ignorou as teses da UNITA (que mostra ser, de facto, o único partido da oposição) e mostrou ao eleitorado que os outros partidos só estão interessados no seu próprio umbigo, fácil de untar com pequenas mordomias.

Isto porque o líder da CASA-CE, Abel Chivukuvuku, defendeu a proposta de lei do MPLA, mesmo quando ela se aplica a dois presidentes responsáveis por algumas das páginas mais sanguinárias de Angola. Agostinho Neto escreveu com rios de sangue angolano as páginas dos massacres de27 de Maio de 1977, e José Eduardo dos Santos fez o mesmo durante a guerra civil.

Certamente que a posição do líder da CASA-CE se deve ao reconhecimento do papel de José Eduardo dos Santos na colocação de Angola no “ranking” dos países mais corruptos do mundo, na liderança do índice da mortalidade infantil no… mundo e na criação de, num país com perto de 26 milhões de habitantes, 20 milhões de pobres.

E, assim sendo, Abel Chivukuvuku está apenas a assumir e transmitir o pensamento de um povo sofredor cuja figura mais emblemática é Isabel dos Santos, a multimilionária Presidente do Conselho de Administração da Isangol, ex-Sonangol. Reconheça-se, em abono da tese do líder da CASA-CE, que esta posição é digna de um rasgado elogio e de um diploma de mérito por parte do MPLA.

Na defesa da tese do MPLA, o presidente da CASA-CE diz que “é algo necessário e normal em todas as sociedades democráticas para que haja serenidade, transmita-se confiança e segurança para aqueles que tiveram um determinado papel em determinado tempo e que quando saem precisam que o estado lhes garanta segurança, tranquilidade mas sobretudo dignidade”.

Ora aí está. O líder da CASA-CE deixou cair a máscara e está reconhecido – só lhe fica bem, diga-se – a José Eduardo dos Santos e esqueceu-se (o que é fácil) de quem dele fez um homem: Jonas Malheiro Savimbi. Aliás, trata-se de um agradecimento a quem o pôs a comer lagosta e o socorreu quando foi ferido.

Assim, “o mais importante é – segundo Abel Chivukuvuku – transmitir confiança, segurança e sobretudo dignidade para aqueles que desempenharam determinadas funções”, e com isso “transmitir confiança ao país”.

Quem foi que, recentemente, afirmou que em caso de vitória nesta eleições de quarta-feira iria construir uma cadeia exclusiva para gestores públicos do actual Governo, no quadro de um plano anticorrupção? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que, recentemente, em Benguela, perante centenas de militantes da CASA-CE e representantes da sociedade civil, responsabilizou o Governo do MPLA, chefiado por José Eduardo dos Santos, pelos 20 milhões de pobres? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que, recentemente, considerou que existe um fio condutor capaz de ligar a corrupção aos actuais níveis de pobreza, referindo não ser sensato que se castigue o agente da polícia que pede uma «gasosa» ao automobilista, enquanto o ministro se mantém impune? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que, recentemente, afirmou: “Vamos criar uma polícia especial contra a corrupção como os sul-africanos tinham chamada Scorpions, mas com ordens para começar a apanhar de cima, e vamos construir no Sumbe uma cadeia especial para os mais velhos”? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que, recentemente, falava do colonialismo doméstico e tecia duras críticas ao Governo devido ao que chamava de falta de projecto de Nação? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que, recentemente, disse: “Agora são José Eduardo dos Santos, Manuel Vicente, Kopelipa, colonialismo doméstico, e a partir daí entrámos no tal ciclo de reprodução da pobreza: uns começaram a ter, e são os novos colonos domésticos, e outros deixaram de ter porque são os excluídos”? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que, recentemente, dizia que “o mais grave das nossas sociedades é o espírito de resignação voluntária do cidadão e ausência do espírito de reivindicação”? Foi Abel Chivukuvuku.

Quem foi que hoje ao admitir formar governo com o MPLA (e MPLA há só um) se ajoelhou, assinou a rendição e beijou a mão ao ditador? Foi Abel Chivukuvuku.

Folha 8 com Lusa

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