O Povo angolano morre de fome e de doenças. Só agora o surto de febre-amarela já provocou dez mortos em Luanda. Isso não impede que Isabel dos Santos, a princesa filha do rei Eduardo dos Santos, continue a abarrotar as suas contas milionárias por ordem exclusiva do pai.

Por Orlando Castro

Isabel dos Santos acaba de receber de bandeja, por ordem do paizinho, uma obra 615,2 milhões de dólares (567 milhões de euros). É fartar vilanagem.

A obra foi adjudicada (forma eufemística que significa doação) através de um despacho do rei Presidente José Eduardo dos Santos, para que a sua filha Isabel dos Santos faça as dragagens na zona costeira da marginal da Corimba, sul de Luanda, em parceria com uma empresa holandesa.

Assim, Isabel dos Santos, através da Urbeinveste Projectos Imobiliários, e uma empresa holandesa, Van Oord Dredging and Marine Contrators, “ganharam”, em consórcio, esse milionário contrato. Mais um.

A adjudicação desta obra, diz a Lusa, foi formalizada através de um despacho presidencial datado de 25 de Janeiro.

O valor total do contrato, de 1,3 mil milhões de euros, contempla – esclarece o jornal Negócios – também a construção propriamente dita, de reabilitação e acessibilidades da marginal de Corimba, uma obra a realizar em consórcio pelas empresas Landscape e China Road and Bridge Corporation Angola, por 690,1 milhões de dólares (636 milhões de euros).

No despacho do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, igualmente Presidente do MPLA e Titular do Poder Executivo (entre outros cargos), que autoriza os contratos de empreitada, refere-se que o Governo “está comprometido na reabilitação dos problemas actuais de congestionamento de circulação nos acessos à cidade Luanda”, sendo precisamente a marginal da Corimba um dos pontos críticos.

Esta obra oferecida a Isabel dos Santos, filha do Presidente nunca nominalmente eleito e há quase 37 anos no poer, insere-se na Programação Anual de Investimentos do Programa de Investimentos Públicos, definida pelo Governo.

Em causa está a implementação do Projecto Marginal da Corimba, que “deve garantir a sua reabilitação, além da valorização e melhor preservação da zona costeira” e “uma significativa melhoria das acessibilidades” a Luanda.

O despacho refere ainda que o ministro das Finanças (figura decorativa, como todas as outras do Governo), Armando Manuel, deve “assegurar os recursos financeiros necessários à execução dos referidos contratos”, estando “autorizado” o pagamento inicial de até 15% do valor das empreitadas “com recurso às reservas do Tesouro”.

Relembra o Negócios que Isabel dos Santos está também envolvida no processo de reestruturação da Sonangol, no âmbito de um comité criado em Outubro de 2015, obviamente por José Eduardo dos Santos, com a responsabilidade de desenvolver modelos organizativos, identificar oportunidades operacionais, quantificar “o potencial de melhoria da Sonangol” e estudar o “melhor modelo de organização para condução da indústria nacional de petróleo e gás”.

Portugal, ONU, CPLP UA… de cócoras

De Henrique Granadeiro a Zeinal Bava, passando por Paulo Azevedo e Fernando Ulrich, sem esquecer José Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas, António Costa, Cavaco Silva e em breve Marcelo Rebelo de Sousa, todos foram ou vão ao tapete.

Na mesma linha estão a ONU, a CPLP e UA. Utilizando o seu poderoso manancial de golpes, Isabel dos Santos coloca-os todos KO.

É obra. O que ela quer tem, tanto em Angola como no estrangeiro (então no protectorado do MPLA na Europa – Portugal – nem se fala), tem força de lei. Em Lisboa, com excepção política do Bloco de Esquerda, todos comem e calam.

O que está à venda ela compra, o que não está à venda ela faz com que esteja. É um autêntico tsunami. E não adianta alertas, protestos, moções de censura, vigílias ou relatórios de organizações internacionais a dizer que o regime é dos mais corruptos do mundo. Ele manda e o resto são cantigas.

Segundo a Transparência Internacional, Angola está agora entre os seis países considerados mais corruptos, num total de 168 Estados analisados. Ficou na posição 163, ex-aequo com o Sudão do Sul. Atrás ficam apenas o Sudão, Afeganistão, Coreia do Norte e Somália.

É por tudo isto que, mesmo de barriga vazia, mesmo sabendo que o dinheiro lhes é roubado, os angolanos adoram a sua Santa Isabel (cada país tem a santa que merece).

Honra lhe seja feita, a filha do rei Presidente vitalício José Eduardo dos Santos resiste estoicamente à crise económica. Trata a riqueza por tu, só sabe multiplicar e faz milagres que coram de espanto qualquer outra santa conhecida.

Embora dizer o que pensamos seja, quando não é o mesmo que o regime pensa (raramente isso acontece, assumimos), um crime contra a segurança do Estado e prova de tentativa de golpe de Estado, não é mau manter a memória alimentada pela verdade.

Importa por isso recordar que Isabel dos Santos, a filha do rei Presidente (no poder há 37 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito) José Eduardo dos Santos, mas também filha do Presidente do MPLA e do Titular do Poder Executivo, é a mulher mais rica de África e também a mais rica de… Portugal.

Nada a ver (é claro) com o pai

Eentão como é que Isabel dos Santos se tornou – não sabemos quantas vezes – milionária? Desde logo porque – graças ao pai ser o dono do reino – ficava, fica e ficará com uma parte das empresas que se estabelecem em Angola. É assim. Quando assim não é, o seu pai trata de mandar fazer leis, decretos e regulamentos que permitam a Isabel e restante clã facturar sobre tudo o que entenda. Simples, não é?

Isabel dos Santos assume-se, afinal, como uma santa e acusa todos os que divulgam mentiras sobre a sua divina capacidade empreendedora. Tem razão. Aos escravos não assiste a veleidade, muito menos o direito, de – seja qual for a razão – denegrir a impoluta e divina imagem e labuta de figuras honoráveis como ela e, é claro, como o seu pai.

Certo é que Isabel dos Santos é milionária e que no seu país cerca de 70% dos habitantes vivem com menos de 2 dólares por dia. A Forbes escreveu em tempos que “é uma rara janela para a mesma trágica narrativa cleptocrática em que ficam presos muitos outros países ricos em recursos naturais”. O resultado viu-se. Isabel comprou a Forbes.

José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola desde 1979, é o chefe de Estado que governa há mais anos sem ser um monarca propriamente dito. Assim sendo, e com o apoio da comunidade internacional (EU, ONU, CPLP, UA etc.) que prefere negociar com ditadores (dos bons, é claro!) do que com democratas, inclui a família em todos os grandes negócios feitos em Angola ou com Angola. Nada mais transparente. Angola é o MPLA, o MPLA é Angola. E assim sendo…

Do ponto de vista mediático, mesmo no âmbito da Educação Patriótica que o regime pretende dar a todos os angolanos desde a barriga da mãe até à morte, Isabel dos Santos é a heroína do reino. Prova disso é dada pelo Pravda do regime (também conhecido por Jornal de Angola) que escreveu: “Estamos maravilhados por a empresária Isabel dos Santos se ter tornado uma referência do mundo das finanças. Isto é bom para Angola e enche os angolanos de orgulho.”

A compra de Portugal

Desde 2008 que a rainha santa Isabel dos Santos tem vindo a acumular um autêntico império em Portugal. Nada de anormal. Segundo o português Diário Económico, a esposa de Sindika Dokolo, recentemente medalha de ouro das “olimpíadas” demagógicas da Câmara Municipal do Porto, tem investimentos directos na banca, nas telecomunicações, na energia e no imobiliário, e indirectos em quase tudo o resto. Diz o jornal que já investiu um total de três mil milhões de euros em Portugal.

Feitas as contas e pecando claramente por defeito, as participações de Isabel dos Santos em empresas cotadas em Portugal valem mesmo um montão de pipas de massa (bem mais de três mil milhões de euros), somando-se ainda os investimentos pessoais no sector imobiliário.

Os cronistas anti-regime (pobres e mal agradecidos) falam que o autor dos milagres da santa Isabel dos Santos é, isso sim, o seu pai que, no uso dos seus poderes (que gosta de dizer que são democráticos), tem uma comissão em tudo quanto envolva dinheiro. Em Abril de 2015 foi notícia que todos os investimentos superiores a 10 milhões de dólares serão exclusivamente tramitados pelo Presidente da República

Socialismo? O que é isso?

Aideologia socialista/comunista de Eduardo dos Santos só durou até o final dos anos 1990, altura em que já tinha quase 20 anos de comando do regime. Foi então que, por obra divina, abraçou o capitalismo e começou a assinar contratos de concessão com o capital privado estrangeiro para a exploração dos inesgotáveis recursos naturais que deveriam ser de todos mas que, obviamente, passaram a ser seus e dos seus comparsas.

Isabel dos Santos, como bem defendem os cronistas e arautos caninos da manjedoura do regime, rejeita as insinuações de que seus negócios estão muito relacionados com a presidência vitalícia do seu pai. Faz sentido. Importa não esquecer que, como ela disse ao “Financial Times”, aos seis anos de idade vendia ovos como uma qualquer zungueira dos nossos dias.

O seu marido, o tal a quem o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, atribuiu a medalha de ouro da cidade, é mais assertivo quando fala da Isabel: “É muito tranquila e muito estável, gosta de ter uma perspectiva a longo prazo. Possui três qualidades que a transformam na grande força de Angola: autoconfiança, estabilidade e ambição.”

Registe-se como epílogo parcelar, que Isabel dos Santos é uma digna sucessora da mulher do rei português D. Dinis, a rainha Santa Isabel, que se tornou célebre – ao contrário da mulher mais rica de África e uma das mais ricas de todo o mundo – pela sua imensa bondade em relação aos necessitados.

A diferença está em que, para a “nossa” santa, os necessitados são apenas os que, como ela, roubaram e continuam a roubar o dinheiro que pertencia e pertence ao Povo.

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