Não há pessoa no mundo que consiga fugir de uma monarquia incrustada no cerne político e económico da sociedade humana. O Rei de Ourives é feito de ar. Envolve-nos, inebria-nos. Induz nossa liberdade de escolha. Ele possui uma capacidade de domínio inédita: a do convencimento por meio da propaganda massiva e científica. Não, não se trata de uma pessoa, mas sim de um conceito. Um conceito global.

Por Gabriel Bocorny Guidotti
Jornalista e escritor
Porto Alegre – Brasil

ORei de Ourives joga em todos os times ao mesmo tempo. Ele é francês napoleónico e inglês de Lorde Nelson. Não escolhe lados. Nega-se a descartar alguém por motivos de raça, cor, credo, religião, etc. Parece justo, não é? Seria, caso o elo que o edifica não se apoiasse no consumo. Todos são iguais, todos são consumidores. Contagiadas pela necessidade, todas as pessoas podem trazer-lhe algum tipo de benefício.

Como consequência, a corrupção dos homens. A disputa mercadológica entre pequenas, médias ou grandes empresas mexe com a sociedade, de modo que a selvageria se desdobra num interminável jogo de posses e de poder.

Os agentes do Rei de Ourives movimentam bolsos repletos de dinheiro; financiam campanhas de políticos em troca de benefícios após a eleição. Em suma, ampliam a desigualdade social.

O Rei de Ourives pode agir para o bem ou para o mal. Seu poder tem o condão de decidir o destino das pessoas. Quando um mundo melhor se torna o objectivo, o Rei será lembrado. O amor dos súbditos estará estampado em sorrisos de satisfação.

Quanto vale o amor de um grupo de desconhecidos? Todo o dinheiro do mundo. Essa deveria ser nossa maior lição, nosso grande legado. Infelizmente, o pensamento colectivo ainda não evoluiu a tais patamares.

A monarquia de Ourives, quando digna de reprimendas, precisa ter fim. O poder atribuído ao Rei é absoluto demais. Quando iremos aprender? Não aprenderemos nada até que uma camisa continue custando o salário de uma família inteira. Os pedintes sofrem enquanto os privilegiados desfrutam irresponsavelmente de abundância. Lutemos por uma sociedade mais justa.

O Rei de Ourives não pode vencer.

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