“Toda esta estória começa por um daqueles golpes de que a natureza é fértil: o meu pai morre primeiro do que a mãe dele – a minha avó Maria da Conceição Simões de Abreu Vieira da Fonseca, angolana crioula de gema”, conta ao Folha 8 Luís Rasoilo a propósito do diferendo que mantém com o seu meio-irmão Adolfo Rasoilo, general da Forças Armadas de Angola.

Por Norberto Hossi

Sem papas na língua, Luís Rasoilo diz que é “por isso que está metido nesta alhada com um general angolano corrupto e vigarista”.

Isto porque “se o meu pai – Manuel Simões de Abreu Faúlho Rasoilo (DIDO) – não tivesse morrido primeiro do que a mãe dele, com certeza que ele e a minha tia – Edjane Arlete Simões de Abreu Pereira Neto – há muito tempo que já tinham vendido o imóvel e nós, os herdeiros do meu pai, estávamos a chuchar no dedo!”

“Mas é após a morte da minha avó, em Lisboa, em 1991, que este generalzinho se revela, pelos piores motivos. É que a minha tia (a herdeira maioritária – 50%), dada a sua avançada idade, começa nesta altura a solicitar-lhe – sem sucesso – que diligenciasse pela venda do imóvel (na Baixa de Luanda – Rua Rainha Ginga, 56, ao lado do edifício do Banco de Comércio e Indústria). Queria comprar uma casa para ela, já viúva, e sentir-se segura na sua velhice, uma vez que tinha como rendimento mensal uma pensão de sobrevivência num valor ínfimo (na altura da sua morte, em 2014, o valor era de € 426,00)”, conta Luís Rasoilo.

E continua: “Afinal, como hoje se observa, ele quis (quer) dar mais uma das suas golpadas. Não satisfeito de roubar o Povo angolano, quer roubar a família. Este homem era um autêntico pé rapado, que após os Protocolo de Lusaka enriquece brutalmente”.

“Desde 1991 até aos dias de hoje, este homenzinho tudo tem feito para que aquele imóvel e outros sejam sua ilegítima propriedade. O que levou que a D. Edjane morresse sem ter usufruído na sua plenitude os bens que a mãe dela lhe deixou. Morreu amargurada, com a suprema maldade, pura maldade, levada a cabo por este sujeito, que lhe fez um mal que já não pode ser reparado”, conta Luís Rasoilo.

Em 1997, Luís Rasoilo veio a Luanda na tentativa de o convencer o meio-irmão a dar uma solução ao imóvel, atendendo há já avançada idade da tia (mais de 80 anos).

“A minha vontade era reconstruirmos e não vender, porque o dinheiro gasta-se e os imóveis ficam”, recorda Luís Rasoilo, dizendo que a resposta do general Adolfo Rasoilo foi, ipsis verbis: “Os filhos da puta que foram para Portugal não têm direito a nada. E se querem alguma coisa têm que vir para o terreno lutar.”

Em 2008, o general Adolfo Rasoilo foi a Portugal e fez renascer, segundo Luís Rasoilo, “na minha tia a esperança de que ia finalmente dar uma solução ao imóvel (solução essa que estava nas mãos dele, porque ele assustava quem quer que lhe propusesse um negócio – tentador, dada a situação privilegiada na Rua Rainha Ginga – e foram muitos, até a Teixeira Duarte mostrou interesse no mesmo). Assim, ‘sacou’ uma procuração à velhota para que pudesse vender o imóvel e combinou com ela a entrega de uma quantia mensal, que seria depois da venda do imóvel descontada na parte que lhe cabia”.

Recuemos. Contudo, a 2007. Nessa altura, o general Adolfo Rasoilo, “fazendo uso de uma procuração, com plenos poderes, que lhe outorguei em 1994 (em 2008, revogada), procede ao registo do imóvel em nome dos herdeiros. Isto passou-se em Março desse ano. Para minha enorme surpresa, o Estado angolano, em Junho desse mesmo ano, confisca o imóvel! Claro (se é que ele não estava por detrás do confisco para fundamentar, que eu contrariava e contrario, que o imóvel tinha uma data de problemas que dificultavam a sua transacção) que lá ‘resolveu’ o problema do confisco e foi reposta a legalidade”, Luís Rasoilo.

Em 2009, o general Adolfo Rasoilo “informa os restantes herdeiros que tinha um comprador para o imóvel (um Banco, que não nomeia), disposto a pagar 4 milhões de dólares, mas que não podia levar para a frente o negócio porque eu não tinha quem me representasse na celebração do acordo de venda”.

“Obviamente que eu não queria outorgar-lhe mais nenhuma procuração – não confiava nele, é claro -, por isso, ele deixa nas entrelinhas sugerido que se eu continuasse sem representação (que só poderia ser ele a representar-me), o negócio não se concretizaria, logo, o acordo que tinha celebrado com a minha tia não poderia continuar, ou seja, deixava de enviar a mensalidade à velhota. É claro que fui pressionado por toda a família para que o constituísse meu procurador, para assim não prejudicar a minha tia, que tinha já 94 anos. E, para mal dos meus pecados, lá lhe outorguei outra procuração apenas para a venda do imóvel”, conta e lamenta Luís Rasoilo.

Em Agosto de 2009, o general Adolfo Rasoilo “informa os outros herdeiros que vendeu o imóvel por 4 milhões de dólares. O comprador, que nessa altura era um banco, veio a transformar-se nos dias de hoje numa empresa de nome Lunendurg – Investimentos, Lda.”

Continua Luís Rasoilo: “Como ele nunca mais prestava contas, intentei-lhe em Março de 2011 uma acção de prestação de contas, que ainda corre seus termos passados mais de 5 anos. E, pelos vistos, mais anos se irão passar, uma vez que ele indica como testemunhas, para justificar as despesas que diz ter tido pela venda do imóvel (que dada a sua localização tinha muitos compradores, sem quaisquer despesas, a não ser as de origem nos impostos) no valor de perto de 900 mil dólares!!! com residência em Luanda e Benguela – e lá seguiu uma carta rogatória para inquirição dessas testemunhas”.

Considerando o funcionamento dos tribunais de Angola. Luís Rasoilo diz: “Não sei se alguma vez serão cumpridas e se o forem quantos anos mais levarão para o seu cumprimento? Em 2010, antes de intentar-lhe a acção, procurei obter uma certidão do Registo Predial e não me foi facultada, porque em Angola só os proprietários é que podem requerer uma certidão!”.

“Nessa altura, a pessoa que se encarregou da sua obtenção, que vê negada, tem contacto visual com o registo e procede à sua leitura e informa-me que a parte do imóvel que me cabia (1/8) tinha sido vendida à empresa Lunendurg – Investimentos, Lda. e as outras quotas-partes estavam em nome dele e de outros, que se suspeitava serem seus familiares ou testas-de-ferro.”

Luís Rasoilo bem tentou saber, via registo comercial, a razão social da Lunendurg para saber se esta empresa faz, ou não, parte do universo empresarial do general Adolfo Rasoilo. Não conseguiu.

Luís Rasoilo, que foi instituído pela sua tia (que nunca teve filhos) seu único e universal herdeiro, “já intentou mais uma acção a pedir a condenação do general Adolfo Rasoilo”, exigindo o pagamento da restante da quota-parte da sua “tia no valor aproximado de € 1.700.000,00”.

“Pois bem, ele agora foge da Justiça de Portugal, é que já seguiram para casa dele (sim, eu sei que ele lá mora e morará) duas cartas para citação que vieram devolvidas com a menção ‘mudou-se’! Requeri ao Tribunal que procedesse à sua citação para o seu domicílio profissional, o Supremo Tribunal Militar. O aviso de recepção veio assinado, só que passado quase um mês a carta veio devolvida, sem qualquer menção ao motivo da sua devolução, e o Tribunal, inexplicavelmente, não o considerou citado. E lá está para lá, há mais de 6 meses, uma carta rogatória para a sua citação”, conta amargurado Luís Rasoilo.

Num Estado de direito e democrático, desabafa Luís Rasoilo “há muito tempo que o tinha colocado em maus lençóis (apenas e só porque é um escroque). Mas, infelizmente, ele tem a protecção da clique do Eduardo dos Santos e do medo dos políticos portugueses, que preferem ver um cidadão português ser vigarizado do que enfrentar aqueles ladrões, sim, ladrões, não poupo na palavra”.

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