O general secretário do comité provincial do MPLA para Organização Periférica e Rural, Bento dos Santos Kangamba, igualmente sobrinho do Presidente Eduardo dos Santos e intelectual de elevada craveira canina, elogiou a eleição nominal (coisa que em Angola nunca existiu) de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente da República de Portugal, apelando ao seu papel como “mediador” nas relações entre os dois países.

Por Orlando Castro

“N este momento não temos que ter dirigentes com muito fogo-de-artifício entre os dois países e sim com calma e paciência para ultrapassarmos os problemas. Portugal não pode ser o país onde se criam problemas a Angola, mas onde se resolvem os problemas de Angola, espero esse papel de mediador dele”, disse o general num português que, compreensivelmente, teve de ser traduzido para… português pelos jornalistas.

Bento dos Santos Kangamba falava aos jornalistas à margem de uma visita de campo ao município de Belas, na capital angolana, tendo destacado a “política muito madura” em Portugal, que “beneficia a democracia” do país, tendo em conta as eleições presidenciais de domingo.

“Vamos bebendo a experiência de Portugal, de democracia aberta”, apontou, deixando desde já o desejo de ver Marcelo Rebelo de Sousa realizar a Angola a sua primeira visita enquanto chefe de Estado português, fora da Europa.

Elogie-se, entretanto, o facto de o general Kangamba saber que Portugal se situa na Europa. Isto, por exemplo, em contraponto a Sarah Palin, agora apoiante acérrima da candidatura de Donald Trump à presidência dos EUA, que quando foi “número dois” de John McCain afirmou que África era um país.

“Seria um muito bom sinal. Não tem como os portugueses estarem contra Angola, não tem como os angolanos estarem contra os portugueses. Nós estamos condenados a viver juntos, a estar juntos, é a mesma língua, vivemos juntos, sãs as mesmas famílias, os nomes são iguais”, recordou o general do clã Eduardo dos Santos.

Angola e Portugal têm vivido vários momentos de tensão nas relações bilaterais nos últimos anos, que levaram mesmo o Presidente angolano a anunciar, em 2013, o fim da intenção de estabelecer uma parceria estratégica com o país.

“Quando se ganham umas eleições em Portugal, a primeira ligação que se tem de fazer é conversar com os dirigentes angolanos e criar aquele ambiente muito forte entre irmãos”, disse ainda o general Kangamba, certamente ciente de que – mesmo com a crise petrolífera – quando Angola espirra Portugal apanha uma pneumonia.

Numa altura de crise financeira, económica e cambial em Angola, decorrente da quebra da cotação do petróleo no mercado internacional, o alto dirigente do MPLA, partido no poder desde 1975, garante que a situação no país é “estável” e desvaloriza os recentes alertas internacionais sobre alegadas ameaças à segurança de estrangeiros em Luanda.

“A situação está sob o controlo de um Governo democrático. O poder não se vai à força, o poder é aquilo que aconteceu em Portugal, quem ganha governa. Mas alguns partidos em Angola têm levado uma má-fama, mensagens negativas de Angola, fora do país e têm de rever as suas políticas”, criticou o sobrinho presidencial, fazendo uso do que lhe mandam dizer.

De facto, Angola é um exemplo do que de mais evoluído se conhece em termos de democracia, rivalizando – eventualmente – com a Coreia do Norte e com a Guiné Equatorial. Veja-se, por exemplo abonatório da tese regimental, que esta noção de democracia é cimentada pelos três mais sublimes dignitários do país: O Presidente do MPLA (José Eduardo dos Santos), o Titular do Poder Executivo (José Eduardo dos Santos) e o Presidente da República (José Eduardo dos Santos).

Portugal sempre submisso às ditaduras

N o dia 27 de Novembro do ano passado, o secretário-geral do MPLA, Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, disse em entrevista/recado à agência Lusa, esperar que o novo Governo socialista português “mantenha relações boas” entre os dois estados.

O dirigente angolano falava à margem da segunda reunião anual da Internacional Socialista, em Luanda, encontro em que a comitiva portuguesa do PS foi aplaudida pelos restantes representantes pela posse do novo Governo de Portugal.

“As nossas relações entre povos, estados, não podem ser perturbadas, seja qual for a situação. Seja quem vier, quem estiver lá em Portugal a dirigir, nós teremos sempre as melhores relações com o Estado, Governo ou com o povo português”, afirmou Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”.

O secretário-geral do MPLA, partido no poder em Angola desde 1975, sublinhou que as relações com o PS “nunca foram más”, apesar da acção de algumas “alas”, mas algo que “já pertence ao passado”.

Pertencerá ao passado? É certo que a influência de Mário Soares é residual. Mas o seu filho, João Soares, que em relação ao MPLA penso o mesmo que o pai, é agora ministro. Além disso, o governo de António Costa conta com o vital apoio do Bloco de Esquerda que diz do regime angolano o que Maomé não disse do toucinho.

“Nós não damos muita importância àquilo que dizem contra nós. O que nós queremos é que quem estiver em Portugal tenha e mantenha relações boas com Angola. Existem relações entre nós, até quase familiares”, insistiu o dirigente do MPLA.

Recordou que chegaram a estar a trabalhar em Angola, no pico da crise em Portugal, mais de 300.000 portugueses, sublinhando também por isso a necessidade de manter o nível de relacionamento bilateral.

“Que haja um ou outro a querer problemas com Angola, nós não ligámos muito. O que importa a Angola é manter as mesmas relações que tivemos desde a nossa independência com Portugal. Seja quem estiver lá no Governo, que mantenha as melhores relações connosco”, enfatizou.

Questionado sobre a preocupação que algumas figuras do regime angolano têm demonstrado, publicamente, com a possível influência do Bloco de Esquerda, o secretário-geral do MPLA desvalorizou.

Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, que é igualmente vice-presidente da Internacional Socialista, desafiou mesmo os dirigentes do Bloco de Esquerda a visitar Angola.

“Venham a Angola. Angola está aberta, não tem problema”, disse.

Em síntese, o MPLA quer que Portugal mantenha, ou aumente, o nível de bajulação ao “querido líder”. E isso vai necessariamente acontecer. O Parlamento português tem, no caso das relações com o regime de Eduardo dos Santos, uma esmagadora maioria de invertebrados bajuladores. PSD, CDS, PS e PCP fazem desse misto de sabujice e bajulação um modo de vida, uma forma de subsistência. A excepção é o BE. Mas, como tal, apenas confirma a regra. E a cereja no cimo do bolo aconteceu agora com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa.

É que se assim não for, o regime fecha a torneira. O mesmo general Bento dos Santos Kangamba, sobrinho do presidente vitalício da reipública, bem diz: “As pessoas são as mesmas, tirando duas figurinhas bonitinhas que estão a aparecer aí no Bloco de Esquerda. Mas as pessoas que foram contra Angola são as mesmas [agora]. Eles acham que Angola até hoje é escravo, que nós somos escravos de Portugal (…) não podemos ser ouvidos e que Portugal é que manda, que Portugal é que diz e que Portugal é que faz. Os portugueses têm que saber que Angola é um Estado soberano”.

Internacional sócios-à-lista

O MPLA pertence à Internacional Socialista. O português PS também. Ana Gomes é uma eurodeputada do PS que, contudo, tem mostrado que o rei Eduardo dos Santos e o seu regime vão nus. João Soares, agora ministro, diz o mesmo. Não se sabe se continuará a dizer.

A Internacional Socialista, mau grado uma ou outra voz discordante, continua na posição em que mais gosta de estar e que, aliás, parece estar no seu ADN: de cócoras perante as ditaduras ricas de África.

E assim sendo, não se cansa de elogiar o MPLA, mesmo sabendo que o regime está no topo dos mais corruptos e violadores dos direitos humanos, entre outras “qualidades”, atribuindo-lhe os méritos de uma não só boa como exemplar governação.

Não fosse o drama do Povo e até seria uma anedota simpática. Não deixa, contudo, de ser uma eficiente operação de branqueamento.

A informação sobre este reconhecimento da IS foi exponenciada pelo vice-presidente do MPLA, Julião Mateus Paulo “Dino Matrosse”, que participou o ano passado no Conselho da Internacional Socialista.

“A internacional Socialista segue com muita atenção e satisfação os progressos de Angola e reconhece que os avanços são reflexos da boa governação do partido no poder” – sublinhou, adiantando que a organização está muito satisfeita com o trabalho do MPLA de uma forma geral.

O também secretário-geral do MPLA, referiu, entretanto, que os membros da Internacional Socialista destacaram positivamente a organização e estruturação do seu partido, o que o anima a continuar a trabalhar com a mesma determinação e fortalecer-se cada vez mais. O que significa trabalhar para os (seus) poucos que têm milhões, esquecendo os milhões que têm pouco ou… nada.

A Internacional Socialista foi fundada em 1951. Está sediada em Londres, Inglaterra, congrega 168 partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas, ex-marxistas-leninistas, autocráticos, ditatoriais e similares desde que estejam no poder e tenham riquezas substanciais, pouco importando que sejam roubadas ao Povo. Cerca de 60 dos seus filiados estão no Governo dos seus países.

No regime político português, o MPLA colhe apoios na (quase) totalidade do espectro partidário. Desde o Partido Comunista, de quem recebeu o poder aquando da independência, à ex-maioria governamental, social-democrata e democrata cristã. Está ainda fortemente irmanado com o Partido Socialista, seu parceiro na Internacional Socialista, bajulador de primeira linha e invertebrado há longos anos.

E eis que, por exemplo, José Eduardo dos Santos, também líder do MPLA, foi recebido recentemente com honras militares no Palácio do Eliseu, em Paris, pelo homólogo francês e camarada na Internacional Socialista, François Hollande.

A visita, doze anos depois do caso “Angolagate”, relançou a cooperação socialista na estratégia de limpeza de imagem e de branqueamento de um regime politicamente moribundo mas economicamente pujante.

François Hollande e o seu Partido Socialista estão apenas interessados que as petrolíferas francesas, entre outras empresas, regressam rapidamente e em força a Angola, do que em se preocupar com os valores éticos em que se baseia a própria França. Paris acha, à luz desses valores éticos e apesar de ter engavetado o socialismo, que Eduardo dos Santos é uma besta. Mas quando olha para a economia, substitui a palavra besta por bestial.

Só por mero desconhecimento dos elogios da IS ao MPLA é que a organização não-governamental Corruption Watch condena a decisão da Suíça de não reabrir o caso “Angolagate”, uma decisão que põe em causa a vontade das autoridades suíças de acabar com o crime financeiro.

“Obviamente, tanto nós, Corruption Watch, no Reino Unido, como a Associação Mãos Livres, em Angola, estamos extremamente desapontados e surpresos perante esta decisão”, disse na altura o seu director, Andrew Feinstein.

Relembre-se que, por exemplo, o partido fundado por Hosni Mubarak, durante décadas no poder, está integrado na Internacional Socialista, sendo por isso, como já em 2011 lembrava o especialista angolano Eugénio Costa Almeida, “interessante ver como muitos partidos ditos democráticos, mas com práticas bem autocratas e ditatoriais e no poder há muitos anos, alguns há mesmo mais de vinte anos, são aliados ou associados da Internacional Socialista.”

Angola é uma ditadura? Formalmente não, de facto sim. Mas o que é que isso importa à Internacional Socialista? A esta organização – como à CPLP, à UA, à ONU – só interessa saber se tem petróleo. Se tem, e tem muito, coisas menores como os direitos humanos, a democracia, a liberdade, a cidadania, a justiça social são mesmo isso – menores.

“Dino Matrosse” bem poderia perguntar: Se a Tunísia, tal como a Argélia, o Egipto, a Líbia, a Venezuela ou a China, podem ser os grandes parceiros do socialismo, mesmo que os seus líderes sejam hoje bestiais e amanhã umas bestas, por que carga de chuva não se poderá dar o mesmo estatuto a Angola e ao MPLA?

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