Neste mês de Maio sempre nos recordamos de momentos marcantes, protagonizados pela direcção do então, nosso, MPLA, quanta ingenuidade era a nossa, ante um líder carismático, ante a maldade, capaz de uma atroz invenção, de fraccionismo e golpe de Estado, por medo do debate de ideias, da diferença de opiniões e da livre expressão no seio do próprio partido, então protagonizada por uma nova elite.

Por William Tonet

Em Maio de 1977, não houve pioneirismo, pelo contrário, não tendo Neto conseguido massacrar a humilhação passada no Congresso de Lusaka, o primeiro democrático do MPLA, onde o eleito foi Daniel Júlio Chipenda e o segundo derrotado Neto, consumou, nesta data (1977) a grande chacina, para estancar, com o temor, uma série de cisões e problemas que calcorreavam incubados, desde a sua chegada (Neto) ao MPLA, convidado pela anterior direcção. Esta demonstração de força, serviu para demonstrar, que se o poder fosse posto em causa, a direcção e Neto, não teria pejo de sacrificar com a própria vida todos quantos intelectualmente o afrontassem. Foi assim ontem, é assim hoje, infelizmente.

Numa só palavra, quando este partido sente o poder ameaçado, não hesita: humilha, assassina, destrói, elimina, atira aos jacarés.

É a sua natureza perversa demonstrando não estar o MPLA preparado para perder o poder e, em democracia, com a força do voto se isso vier a acontecer, a opção pela guerra será o recurso mais natural deste partido.

Não é em vão que temos dois exércitos: as FAA e o exército privado a UGP (Unidade de Guarda Presidencial), mais a partidarização da Polícia Nacional; da Segurança de Estado; do SIC (Serviços de Investigação Criminal); do sistema de Justiça e dos Tribunais e maioria dos juízes, tudo previamente montado, para contrariar a vontade popular.

Neste, tal como em todos os Maios, nunca me esqueço, por força do sofrimento de milhares e dos assassinatos de igual número, das prisões arbitrárias, da Comissão de Lágrimas, da Comissão de Inquérito, dos fuzilamentos indiscriminados, etc..

Muitos acreditaram, em 1979, com a ascensão de Eduardo dos Santos ao poder, um eventual reencontro com a verdade e a reconciliação interna, sobre a alegada intentona, que ele próprio sabe nunca ter existido. Infelizmente, não se conseguiu despir da cobardia e cumplicidade, ostentada desde o tempo de Agostinho Neto e sua clique: Lúcio Lara, Onambwé, Iko Carreira, Costa Andrade “Ndunduma”, Artur Pestana “Pepetela”, entre outros.

Dos Santos mostrou ser um homem que, pelo poder, é capaz de tudo: viola a Constituição, as leis, humilha, desonra e assassina, todos quantos não o bajulam. Exemplos para quê, eles estão à mão de semear… nas cadeias, no exílio, nos cemitérios, no estômago dos jacarés.

Por não o bajular, o “Dono Disto Tudo”, mandou apagar da história os primeiros acordos de paz mediados por um angolano, aos 19 de Maio de 1991, no Alto Kauango, Luena – Moxico. Depois, não contente, mandatou que um ministro do seu ensino superior, se vestisse de mente inferior e anulasse acordos universitários internacionais. No rescaldo ordenou que um procurador adjunto da República, para manter o tacho viesse a público mentir, sob a minha qualificação académica, quando ele mesmo, não tem noção do que é a doutrina do Direito e deve ter passado, ameaçando os docentes com armas de fogo, pois só assim se pode aferir a sua baixa interpretação jurídica. No final, ainda transformou uma ordem profissional, a dos Advogados, num apêndice da Segurança de Estado e o seu bastonário, num invertebrado agente.

Tudo isso porque Dos Santos, não tendo conseguido, assassinar-me em Maio de 1977, talvez ande arrependido e pretenda fazê-lo agora, despindo-me de todos os títulos agora… para que eu vegete na indigência, não possa exercer a minha profissão de docente e advogado, colocando a minha família à fome. No entanto, há algo que o Presidente Dos Santos não conseguirá assassinar: a verdade. Esta não prescreve e, ao contrário dele, é eterna.

Isso só demonstra maldade, falta de ética, baixa estatura moral e incompetência, sendo as prisões arbitrárias, os julgamentos sem prova, os assassinatos selectivos, os roubos milionários dos filhos, da família e dos seus dirigentes, a corrupção institucional e a crise económica – financeira, que o país atravessa, uma demonstração clara.

Se alguém em sã consciência se questionar sobre as razões de um alegado engenheiro de petróleos, há 36 anos no poder, nunca ter visitado a Faculdade de Engenharia, apresentado a tese de licenciatura ou mesmo um projecto, de petróleo iluminante, já que o outro, crude para transformação e ou exportação, não deveria ter nota qualificativa. Recorde-se que um projecto de petróleo iluminante, seria fácil de ser implantado até por um técnico médio, uma vez apenas ter de seguir o que existia, no tempo colonial, nas zonas rurais e suburbanas; geleiras a petróleo, candeeiros petromax, fogões a petróleo, etc..

Neste Maio, maos do que a perseguição que faz a quem não o bajula, não reconheço capacidade ao auto-denominado arquitecto da paz, incapaz que foi de construir estradas que durassem mais de 15 anos, e a feroz perseguição que faz aos pobres: proibiu a importação de carros com mais de 3 anos, para fazer o monopólio com a sua clique, mandando para o desemprego milhares de pessoas, proibiu o pagamento de impostos pelas petrolíferas em dólares, afectando as reservas do país, institucionalizou a corrupção e o roubo e o país está na banca rota. Em 2016, Angola, com o mesmo MPLA, no poder, está igual a Maio de 1977, sendo a única diferença, ainda não ter começado a perseguição generalizada, as prisões arbitrárias em larga escala, de mais inocentes e os assassinatos selectivos, onde manterá o refrão: “não vamos perder tempo com julgamentos”, tudo para perpetuação do seu anacrónico regime.

Finalmente, não tendo JES um compromisso com Maio, por não se posicionar, como um verdadeiro líder, capaz de ver para lá do seu cordão umbilical, resta-nos lembrar o que de positivo tinham o comandante Nito Alves e o “canoa” José Van-Dúnem e outros, honrando a sua memória, até um dia se reconhecer o erro histórico da história nebulosa e sanguinária do MPLA, que teima em não se reencontrar.

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