Até há pouco tempo, os portugueses europeus eram uma espécie em franco crescimento. Agora, pela mão da “sociedade” mais ou menos anónima, de Cavaco, Coelho & Portas, as coisas mudaram. Mudaram, não de forma sincera e honesta, mas mudaram.

Por Orlando Castro

Q ualquer homenagem, em Portugal, a José Eduardo dos Santos, presidente da Angola há 36 anos sem nunca ter sido nominalmente eleito, e presidente do MPLA, partido que “governa” o país desde 1975, não terá dificuldade em juntar quase 100% do Produto Interno Bruto de Angola (para isso basta convidar a família Eduardo dos Santos).

Para tal basta pôr no terreno os caixotes de dólares que o embaixador de Angola em Lisboa, Marcos Barrica, e o seu homólogo itinerante, Luvualu de Carvalho, têm à disposição.

Assim, os portugueses africanos que nos últimos anos nasceram de gestação espontânea, um híbrido ao estilo da subserviência de Passos Coelho, Cavaco Silva e Paulo Portas (com António Costa não será diferente) perante ditadores, correspondem a uma espécie de mercenários que nada têm em comum com muitos outros portugueses de outrora, esses sim africanos de alma e coração.

Muitos destes andam por Portugal, sobrevivendo no dilema institucional de em Portugal serem considerados angolanos e de, em Angola, serem considerados portugueses. São, digamos, uma geração esquecida e perdida.

Os novos descobridores portugueses rumaram para a África rica (caso de Angola) para sacar tudo o que for possível e depois regressam à sua normal e tipificada forma de vida, voltando a ter a porta sempre fechada.

Com a conivência consciente de Eduardo dos Santos, que não dos angolanos, Portugal aposta tudo o que tem (lata) e o que não tem (dignidade), nos mercenários que têm a porta blindada e sempre fechada, remetendo para as catacumbas todos aqueles portugueses que sempre tiveram a porta aberta, tal como aprenderam por cá.

Como é que se vê a diferença? É simples. A grande diferença é que os portugueses europeus, os que agora aceleram na tentativa de chegar à cenoura na ponta da vara de Angola, sempre consideraram (quiçá com razão) que até prova em contrário todos os estranhos, sobretudo os de cor diferente, são culpados, são perigosos, não são confiáveis.

Já os portugueses africanos, os que deram luz ao mundo, os que ainda hoje choram ao ouvir Teta Lando, Elias Dia Kimuezo, Carlos Lamartine ou os N’Gola Ritmos, entendem que até prova em contrário todos os estranhos são inocentes.

Em África, os portugueses africanos aprenderam a amar a diferença e com ela se multiplicaram, cresceram e evoluiram. Aprenderam a ser solidários com o seu semelhante, fosse ele preto, castanho, amarelo ou vermelho. Aprenderam a fazer sua uma vivência que não estava nas suas raízes.

Na Europa, os portugueses aprenderam a desconfiar da diferença e a neutralizá-la sempre que possível. Aprenderam a ser individualistas mesquinhos e a só aceitar a diferença como exemplo das coisas do demónio.

Com o re(in)gresso de milhares de portugueses africanos ao Portugal europeu, a situação alterou-se apenas por breves momentos. Tão breves que hoje, 40 anos depois da debandada africana, quase se contam pelos dedos de uma mão os que ainda se assumem como portugueses africanos.

Isto é, muitos dos portugueses europeus que foram para África tornaram-se facilmente africanos. No entanto, ao re(in)gressarem às origens ressuscitaram a velha mesquinhez de um país virado para o umbigo, de um país de portas fechadas. Voltaram a ser apenas europeus.

Nessa mesma leva vieram muitos portugueses africanos nascidos em África. Esses não re(in)gressaram em coisa alguma. Mantiveram-se fiéis às suas raízes mas, é claro, tiveram (e ainda têm) de sobreviver. Apesar disso, só olham para o umbigo de vez em quando e as suas portas só estão meias fechadas.

Acresce que muitos destes acabaram por constituir vida em Portugal, muitos casando com portugueses europeus. Por força das circunstâncias, passaram a olhar mais vezes para o umbigo e a porta fechou-se quase completamente. Foram colonizados (integração é outra coisa).

Chega-se assim aos filhos, nados e criados como “bons” portugueses europeus. Estes só olham para o umbigo e trancaram a porta. Por muito que o pai, ou a mãe, lhes diga que até prova em contrário todos (brancos, pretos, amarelos, castanhos ou vermelhos) são inocentes, eles já pouco, ou nada, querem saber disso.

Por força das circunstâncias, os portugueses africanos diluíram-se no deserto europeu, foram colonizados e só resistem alguns malucos que, por força dos seus ideais, admitiram que o presente de Portugal poderia estar na Europa, mas sempre e desde sempre tiveram a certeza que o futuro estava em África.

Como em tempos dizia o meu amigo Gil Gonçalves, “quando a cabeça não dá para mais nada, a única saída é embarcar para Angola e espoliar mais uns pretos”. Não é só a cabeça que não dá para mais nada, o próprio país é um deserto e os seus dirigentes uma resistente espécie de parasitas.

Mas, diga-se, a culpa não é só dos portugueses de hoje que, ao contrário dos de ontem, procuram sacar tudo o que podem, começando o exemplo pelos governantes, passando pelos gestores e administradores públicos e restante casta.

A culpa também é nossa. Dos angolanos que colocaram os portugueses de ontem, muitos dos quais deixaram mesmo o cordão umbilical em Angola, ao mesmo nível dos de hoje, ou muitas vezes a um nível bem mais baixo.

E Maio de 2009, o Semanário Angolense dizia que “aos outros imigrantes é exigido o cumprimento da lei, mas aos portugueses não”. E acrescentava: “Muitos até falsificam documentos e dizem-se naturais de Malange – maioritariamente “nasceram” em terras da Palanca Negra –, Huíla, Benguela, mesmo sem nunca lá terem estado”.

E o jornal concluía: “É urgente investigar e descobrir quem promove e protege essa invasão silenciosa de portugueses”.

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