Os antigos presidentes cabo-verdiano, Pedro Pires, e moçambicano, Joaquim Chissano, foram convidados para, a 20 deste mês, a entrega do Prémio Mo Ibrahim para a Excelência na Liderança na Governação.

A tribuído em Março último ao ex-presidente da Namíbia, Hifikepunye Pohamba, o prémio será entregue numa cerimónia que decorrerá, em Acra (Gana), integrado no “Governance Weekend” (fim-de-semana dedicado à governação), marcado para a sede da Fundação Mo Ibrahim de 20 a 22 deste mês.

A distinção constitui o maior prémio monetário do mundo, no valor de cinco milhões de dólares, distribuído durante dez anos em tranches de 500 mil dólares.

Ao longo do fim-de-semana decorrerá, depois, o Fórum Ibrahim, que terá como tema “Questões Urbanas em África”.

Criada em 2007 e entregue anualmente, a distinção reconhece líderes africanos que tenham dado provas de excelência na liderança política.

Está aberto a ex-chefes de Estado ou de Governo de países africanos que tenham deixado de exercer funções nos últimos três anos e dado provas de liderança exemplar.

O ex-presidente cabo-verdiano Pedro Pires tinha sido o último galardoado, em 2011, tendo-se sucedido vários anos sem que o júri tivesse encontrado uma personalidade com mérito para receber o prémio.

Na primeira edição foi distinguido o ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano e em 2008 o ex-chefe de Estado do Botsuana Festus Gontebanye Mogae. O prémio é visto como uma forma de oferecer segurança monetária a dirigentes africanos que abandonem o poder.

Recorde-se que o magnata britânico de origem sudanesa Mo Ibrahim responsabiliza as “falhas monumentais dos líderes africanos após a independência”, explicando sem meias palavras (coisa cada vez mais rara) que, “quando nasceram os primeiros Estados africanos independentes, nos anos 50, África estava melhor em termos económicos”.

Mo Ibrahim diz que os interesses da Europa apenas podem ser duravelmente garantidos pela democracia e não pelo apoio aos ditadores. José Eduardo dos Santos ouviu, mas julga que democracia e ditadura são sinónimos.

“Se a Europa quer garantir a longo prazo os seus interesses, ela tem todo interesse em se aproximar dos povos africanos. Pensar que a conivência com os ditadores seria benéfica é um grande erro”, indica Mo Ibrahim.

Este empresário, que fez fortuna na telefonia celular ao criar o operador CELTEL que se tornou depois ZAÏN, qualificou de “vergonhoso e um golpe à dignidade” a contínua dependência de África em relação ao ocidente, tendo em conta os “recursos impressionantes” que abundam no continente.

“Não se justificam a fome, a ignorância e a doença que assolam África”, diz Mo Ibrahim, para quem a solução terá de passar obrigatoriamente por “bons líderes, boas instituições e boa governação”, sem os quais “não haverá Estado de Direito, não haverá desenvolvimento”.

Mo Ibrahim recorda que “havia uma África na qual o Estado era o único proprietário dos meios de informação, na qual a única televisão pertencia ao poder, na qual toda a informação era controlada. Esta África já não existe”.

Por isso, “o que aconteceu na Tunísia e no Egipto nunca teria sido possível sem as tecnologias de informação e comunicação. Apesar dos esforços colossais, os Governos destes dois países não conseguiram impedir a circulação das informações. Nesta nova África, o povo é o único soberano e os nossos amigos europeus devem persuadir-se disso”.

Comparando o posicionamento europeu com o norte-americano, Mo Ibrahim entende que “os americanos escolhem geralmente muito claramente a democracia e a luta contra a corrupção na sua relação com os Estados africanos. Seria bom que os nossos amigos Europeus fizessem o mesmo”.

Em relação às posições da Europa, recordemos que Margaret Thatcher, que em Maio de 1979 se tornou a primeira mulher a dirigir um governo britânico, proibiu nesse ano o seu enviado especial à Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe.

E fê-lo para defender a democracia? Para lutar contra as ditaduras?

Não. O argumento, repare-se, era o de que “não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros”.

“Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da ‘Frente Patriótica’. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros”, escreveu – e sublinhou várias vezes – numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.

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