Em Junho, Angola participou em Madrid, Espanha, numa reunião especial do Comité contra o Terrorismo do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). E quem melhor do que a equipa de Eduardo dos Santos para falar sobre o assunto?

Por Orlando Castro

E spanha é, aliás, um local emblemático para o regime de Eduardo dos Santos. Assim como o (combate ao) terrorismo. Nessa altura o Parlamento espanhol até tinha na agenda a eventual investigação ao escândalo de corrupção na venda de armas a Angola, em que o general Armando da Cruz Neto teria estado, alegadamente, envolvido.

É claro que o regime angolano puxou, como continua a puxar, dos galões de membro do Conselho de Segurança da ONU para brilhar nos areópagos que debatem, como acontece agora depois dos atentados em Paris, aforma de combater o Estado Islâmico (EI).

Nesse encontro participaram especialistas, ministros do Interior e de Relações Exteriores e vice-ministros de 30 países. Debateram – com excelente resultados como comprovam os mais de 100 mortos em Paris – as estratégias de combate ao terrorismo internacional. Depois de debaterem regressaram felizes a casa. E enquanto o pau vai e vem… folgam as costas dos envolvidos neste sistema de agradar a gregos e troianos, a Deus e ao Diabo.

Angola foi representada nesse relevante reunião de Madrid pelos ministros do Interior, Ângelo Tavares, e das Relações Exteriores, Georges Chicoti.

Recorde-se que, numa cimeira de líderes nacionais, em Setembro do ano passado, o Conselho de Segurança pediu a todos os Estados para empreenderem medidas de urgência para deterem os combatentes estrangeiros do Estado Islâmico, na altura seriam cerca de 30 mil, originários de vários países.

Os debates teriam como foco a detecção, intervenção e recrutamento, e a prevenção das viagens desses combatentes, os processos e a reabilitação dos rebeldes que regressam aos países de origem.

De facto, a comunidade internacional está preocupada na luta contra o radicalismo islâmico. Deve ser por isso que que vendem armamento altamente letal aos operacionais do EI. Se isso tem a ver, ou não, com conflitos regionais, violações dos direitos humanos, genocídios etc. pouco importa.

Pouco importa desde que as vítimas sejam sírios, iraquianos, libaneses e similares. No entanto, quando a coisa bate à porta da Europa e atinge cidadãos de primeira, então o caldo entorna-se.

Alguém se lembra que, há menos de um mês, duas explosões destruíram duas mesquitas no nordeste da Nigéria, matando pelo menos 55 pessoas e deixando mais de 100 feridos, além de ter ocorrido outro ataque numa cidade dos Camarões, todos atribuídos ao grupo Boko Haram?

Aliás, o terrorismo é qualificado em função do número e origem das vítimas e de os seus dirigentes serem, ou não, primeiros-ministros ou presidentes. Por ser responsável por três mil desaparecidos, Augusto Pinochet e o seu governo foram uns monstros. Já por ter morto Nito Alves e apenas mais uns largos milhares de compatriotas, o MPLA é um exemplo para a humanidade.

Ninguém melhor do que Margaret Thatcher definiu esta hipocrisia da luta contra o terrorismo. Ela, em 1979, proibiu o seu enviado especial à então Rodésia de se encontrar com Robert Mugabe. O argumento era o de que “não se discute com terroristas antes de serem primeiros-ministros”.

“Não. Por favor, não se reúna com os dirigentes da ‘Frente Patriótica’. Nunca falei com terroristas antes deles se tornarem primeiros-ministros”, escreveu Margaret Thatcher – e sublinhou várias vezes – numa carta do Foreign Office de 25 de Maio de 1979 em que o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Peter Carrington, sugeria um tal encontro.

Ou seja, quando se chega a primeiro-ministro, ou presidente da República, deixa-se de ser automaticamente terrorista. Não está mal. É verdade que sempre assim foi e que sempre assim será.

E depois, enquanto esses terroristas bons fizerem o que o Ocidente quer (vejam-se os exemplos, entre outros, de Muammar Kadafi, Saddam Hussein ou Bashar al-Assad) tudo correrá bem. Quando deixarem de o fazer, alguém se encarregará de “descobrir“ as famosas (por inexistentes) ADM (Armas de Destruição Maciça) e iniciar a sua destruição.

Ou seja, se os autores morais dos atentados são árabes e as vítimas europeus, então qualquer que seja o número de mortos e feridos é uma declaração de guerra. Se os autores são, por exemplo, pretos e as vítimas também pretos, então trata-se de um pequeno incidente, mesmo que morram aos milhares.

Desde 2009, os ataques do Boko Haram na Nigéria já provocaram mais de 17 mil mortos e dois milhões de deslocados. Ora, ora! São pretos. E se são pretos, é para esse lado que a Europa, os EUA e a Rússia dormem melhor.

É claro que os árabes, tal como os africanos, podem desaparecer, mas as riquezas naturais continuam lá à disposição dos donos do mundo. É a civilização ocidental no seu melhor.

E o que são os milhões de pessoas que em toda a África morrem de fome, de doença ou pelos efeitos da guerra, comparados com as vítimas de Paris?

É claro que o importante é mostrar ao mundo o horror dos ataques em Paris, ou a resposta da aviação dos EUA, da França ou da Rússia que continua a destruir a Síria e o Iraque. Reconheça-se que, por exemplo, tal não acontece em África. Em zonas onde há milhões de pessoas que vivem em cubatas é difícil, calcula-se, ter imagens de prédios destruídos.

Além disso, o que interessa não são os africanos mas, antes, o petróleo e outros produtos vitais para o Ocidente. E se até Sarah Palin não tinha a noção do que era essa coisa chamada África, é bem natural que as ruas das principais cidades mundiais se encham de cidadãos de primeira preocupados com outros cidadãos de primeira, e não com essa espécie menor a que chamam árabes, muçulmanos ou até com os pretos.

E assim se faz a história onde as prioridades, entre outras justificações, são feitas pela cor da pele. Racismo? Não. Nem pensar. Apenas uma realidade indesmentível: uns são árabes, outros não; uns são pretos, outros não.

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