João Lourenço, general, ministro da Defesa e candidato de parte do MPLA à Presidência da República de Angola, nas eleições gerais de 23 de Agosto, disse hoje, em Luanda, que pretende combater a corrupção acabando “com muita vontade” com um outro mal que é o da impunidade. Agora é tempo de os leitores se rirem com tamanha lata e desfaçatez.

Por Orlando Castro

Passada a fase inicial de mais esta anedota oficial, regressemos à actuação do candidato do regime. Numa primeira entrevista colectiva dada a alguns órgãos nacionais, João “Malandro” Lourenço reiterou que o combate à corrupção (Angola é dos países mais corruptos do mundo) está na linha da frente quer nos principais documentos do partido, na moção de estratégia do líder do partido, bem como no seu programa de governação. Ou, ainda, na encíclica divina do “escolhido de Deus”, José Eduardo dos Santos.

Tratando-se de uma anedota velhinha (tem, pelo menos, 42 anos), os decibéis dos risos começam a perder potência, assim como os dos aplausos dos sipaios arregimentados como figurantes para este programa de fraco, muito fraco, humor.

João Lourenço frisou que quer o líder do partido quer a direcção do MPLA (que caninamente está sempre de acordo com o que o líder manda) “concluíram que a corrupção é um grande mal que entre outras coisas coloca a reputação do nosso país perante a comunidade internacional”.

O general João Lourenço (ou terá sido o ministro da Defesa? Ou o candidato?) pareceu ter descoberto a pólvora. Ou terá sido a roda? Com que então a “corrupção é um grande mal”? E “quer o líder do partido quer a direcção do MPLA” concluíram isso? É obra, senhor candidato! Um Nobel estará garantido.

“Se tivermos a coragem, a determinação de combatermos a impunidade com certeza que conseguiremos combater a batalha da luta contra a corrupção”, disse João Lourenço. Pois é. Tudo indica, fazendo fé na prática dos 38 anos de poder de José Eduardo dos Santos, que o candidato do MPLA está a pensar acabar com a impunidade dos pilha-galinhas, mantendo-a para os que roubam todo o aviário. Não será mais do mesmo mas será, com certeza, muito mais do… mesmo.

Também se não fosse para isso João Lourenço não seria candidato. Gente séria do MPLA não aceitaria ser uma marioneta nas mãos de quem, desde sempre, privilegia os poucos que têm milhões (dando-lhes mais milhões), estando-se nas tintas para os milhões que têm pouco ou… nada.

Para o candidato de uma parte do MPLA à Presidência da República, há um outro mal que se propõe a combater que é o problema da má gestão dos recursos públicos, certamente replicando os eficientes exemplos e estratégias de combate praticados em países onde não existe “má gestão dos recursos públicos”. Como em muitas outras coisas, João Lourenço deverá adoptar a “bíblia” da Guiné Equatorial e da Coreia do Norte.

“É que se criou na nossa sociedade a mentalidade que tudo que é do Estado é para se cuidar de qualquer forma, não há contas a ajustar para ninguém, não há patrão, temos que trabalhar no sentido de inverter esta mentalidade”, referiu João Lourenço.

Mentalidade essa fomentada ao longo de 42 anos por criminosos, corruptos e similares que dominaram esse mesmo Estado. E quem foram eles? José Eduardo dos Santos como líder supremo, tendo na sua equipa altos dignitários do regime, desde logo o próprio João Lourenço.

Para a inversão deste quadro, avançou o também vice-presidente do MPLA, deverão ser aplicadas um conjunto de medidas de carácter administrativo, legislativo, de educação moral e cívica, que vão permitir “colocar na mente das pessoas que o que é público é sagrado”. Onde está a novidade? Os 20 milhões de angolanos pobres sabem que o que “é público é sagrado”. E isso também é sabido pelos angolanos que são gerados com fome, nascem com fome e morrem pouco depois com… fome.

“O que é público tem dono, o que é público é de todos os angolanos e como tal temos a obrigação de cuidar, de preservar e de prestar contas ao dono desse património que é o povo angolano”, apontou João Lourenço, cumprindo assim o seu calendário eleitoral.

Calendário eleitoral que estabelece que ele deve mentir às segundas, quartas e sextas e aldrabar às terças, quintas e sábados. Ao domingo faz a síntese do trabalho de semana: mente e aldraba.

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