“África em mim” é o título do livro de poesia de Maria Manuela Rocha, hoje (dia em que comemora 84 anos de vida) apresentado no Porto (Portugal). Respirou-se, sentiu-se, África mas sobretudo Angola. E como a poesia, tal como Caungula (Camaxilo, Lunda, Angola, onde nasceu a autora), não se define – sente-se, o melhor mesmo é ler o livro.

“D esde muito pequena começou a distinguir o pipilar e o canto dos passarinhos da sua terra: debaixo da mulemba frondosa ouvia o seripipi e naquela palmeira escutava a benguelinha”, conta Tomás Lima Coelho, escritor luso-angolano e autor do prefácio, transportando-nos para essa nossa Terra onde o infinito beija eternamente o horizonte.

Acrescenta Tomás Lima Coelho que “a savana verdejante assistia ao voo dos bandos de bicos-de-lacre e dos peitos-celeste. No capim alto enternecia-se com as viuvinhas e os rabos-de-junco”. Quando a poesia de Maria Manuela Rocha abraça a prosa-poética do prefaciador, dá nisto: Lágrimas mais ou menos contidas.

Continuemos. “Naquele imbondeiro via as garças pousar em lampejos de brancura e quando caía a tarde sossegava com o arrulhar das rolinhas. E, assim que a noite caía, adormecia protegida por cazumbis benfazejos”. Alguém se atreve a melhor retratar a poesia de Maria Manuela Rocha, naquele que é o seu primeiro livro?

Vejamos um pouco mais da proposta de viagem a outros tempos feita por Tomás Lima Coelho, embalado na arte e mestria de Maria Manuela Rocha: “Com os passarinhos a menina de Caungula aprendeu a voar com asas de imaginação e com essa aprendizagem cresceu e se tornou mulher. No seu coração já habitava a poesia, mas guardava-a para ela”.

Felizmente que a não guardou para sempre. Todos nós ficamos mais ricos ao ler, ao sentir, ao viajar, ao chorar com a poesia de Maria Manuela Rocha.

Quem é a autora

Maria Manuela Rocha nasceu em 22 de Julho de 1933, em Caungula, Camaxilo, distrito da Lunda. Filha de militar, percorreu Angola de Norte a Sul. Fez o ensino primário no Moxico (Vila Luso), e o Secundário no Colégio Paula Frassinetti, das Doroteias, em Sá da Bandeira, Huíla. Fez o Curso do Magistério do Primário e passou a trabalhar como professora. Trabalhou em Camacupa, Silva Porto, Cuemba, Chinguar, Vale do Queve e Luanda.

Casou em 1957 com Óscar Emílio Gomes Cochat, de quem tem uma filha, Paula Cochat. Enviuvou em 1961, tendo adoptado a sua enteada, que criou.

Já em Luanda fez o, à data, 7º ano, no Liceu Salvador Correia e, posteriormente, tirou o curso de Serviço Social no Instituto de Educação e Serviço Social Pio XII. Foi Directora da Casa Pia e do Lar Feminino de Transição, durante longos anos.

Foi para Portugal em finais de Outubro de 1975, tendo sido colocada no Ministério da Educação, na cidade da Guarda. Reformou-se em 1993, tendo ido viver para o Porto, cidade em que a filha residia. Inscreveu-se, então, na Universidade do Auto Didata e da Terceira Idade (UATIP), onde aprendeu pintura, vocação que desconhecia ter, tendo participado em inúmeras exposições. Pinta essencialmente Angola, mas dedica-se, igualmente, a outras temáticas, designadamente ao retrato. É autora de dezenas de quadros, alguns dos quais aparecem na foto.

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