O aumento de casos de mordedura animal está a preocupar as autoridades sanitárias do município de Viana, arredores de Luanda, que registou nos últimos meses cinco casos de raiva, numa altura que faltam vacinas anti-rábicas em Angola.

A situação foi hoje avançada pelo director municipal de Saúde de Viana, Mateus Neto, que redobrou a preocupação com a carência de vacinas em todas as unidades hospitalares da capital angolana.

Segundo o responsável, que falava à Angop, nos últimos meses registaram-se cinco casos de raiva, situação preocupante, uma vez que as autoridades sanitárias locais não dispõem actualmente de vacina anti-rábica humana.

“Neste momento, quer as unidades sanitárias de Viana como a grande maioria dos estabelecimentos de saúde da província não possuem vacina anti-rábica humana, pelo que os cidadãos devem tomar muita precaução em relação ao contacto com animais”, disse.

O director municipal da Saúde aconselha, em caso de mordedura por um cão ou macaco, que se lave a ferida com bastante água e sabão e se procure imediatamente o atendimento num estabelecimento hospitalar.

Explicou que não obstante a falta de vacinas, o pessoal médico certamente vai dar os primeiros socorros e, em caso de necessidade, vai transferir o paciente para unidades de referência que tenham a vacina anti-rábica humana, como é o caso de algumas clínicas.

“Deve-se igualmente investigar se o animal tem a vacina anti-rábica em dia e se assim acontecer, certamente não será motivo de grande preocupação”, referiu.

Alertou a população para, em caso de mordedura, não se dirigir aos postos médicos privados nos bairros, pois muitos têm enganado as pessoas ministrando em humanos, vacina anti-rábica para animais.

“As pessoas devem ter muito cuidado, pois, na ânsia do lucro fácil, alguns cidadãos não hesitam em ministrar a vacina errada em humanos, que certamente não irá fazer o efeito desejado ou pode acarretar outras consequências nocivas”, frisou.

O município de Viana é um dos mais extensos e populosos da província de Luanda, com uma população estimada em cerca de dois milhões de habitantes.

Vira o disco e toca o mesmo

Há muito que o Ministério da Saúde prometeu resolver o problema. Se calhar com as eleições à porta vai fazer alguma coisa…

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No dia 9 de Setembro deste ano, o Folha 8 noticiava que a raiva matou já este ano, apenas em Luanda, 37 pessoas. Nesse altura a explicação era a mesma de agora: A falta de vacina tem sido uma preocupação, que deverá ficar resolvida nas próximas semanas, depois de uma reunião realizada, em Luanda, entre o Ministério da Saúde angolano e o Comité de Coordenação Inter-agências (CCI). Deveria ficar resolvida mas, como agora afirma Mateus Neto, tudo continua na mesma.

O CCI é o conjunto de agências humanitárias das Nações Unidas e organizações de ajuda humanitária para respostas a emergências, avaliação de necessidades, apelos consolidados, organizações de coordenação no terreno e desenvolvimento de políticas humanitárias.

“É importante que se faça um trabalho conjunto. Na campanha da febre-amarela, por exemplo, fez-se quatro intervenções em simultâneo – a luta anti-vectorial, a vigilância epidemiológica, a mobilização social e a vacinação, o mesmo deverá acontecer com a raiva”, avançou. Deveria acontecer, mas não aconteceu.

“Se os cães não forem recolhidos, todo o trabalho que se fizer é em vão, daí a importância de o governador de Luanda baixar orientação aos administradores municipais para que os serviços comunitários façam a recolha dos animais nas ruas”, apelou na altura uma fonte do Ministério da Saúde.

Raiva é problema recorrente

Em 2015, nos primeiros nove meses, já Angola contava com 19.073 casos de mordeduras de animais, dos quais 78 resultaram em mortes, na sua maioria crianças, situação que – supostamente – preocuparia as autoridades sanitárias.

Em Outubro do ano passado (2015, relembre-se), a chefe de departamento de inspecção da direcção provincial da saúde de Luanda, Paula Silva, disse que o número de mortes por raiva representa um aumento significativo, comparado com os 31 registados em 2014.

Adiantou que os municípios de Belas, Kilamba Kiaxi e Maianga apresentam o maior número de casos (15% dos casos cada), seguindo-se Cazenga (11%), Rangel (9%), Sambizanga (9%) e Viana (8%).

Relativamente às mortes por raiva registadas no período em referência (Janeiro/Outubro), o município de Viana liderava a lista dos casos, com um total de 27 óbitos, seguindo-se Cacuaco (14), Cazenga (13), Kilamba Kiaxi (10), Belas (7), Icolo e Bengo (3), Sambizanga (2) e Maianda e Samba com (1) cada.

Paula Silva admitiu que a situação era “preocupante”, salientando que continuam as campanhas de sensibilização sobre os cuidados a ter com os animais, sobretudo as crianças, já que elas representam o maior número de vítimas.

De acordo com a responsável, crianças dos cinco aos nove anos aparecem nas estatísticas como a mais afectadas, sendo também os rapazes os mais atingidos.

O exemplo do Cacuaco

Muitos dos oportunistas enganam as vítimas ministrando-lhes a vacina anti-rábica destinada a animais.

Muitos dos oportunistas enganam as vítimas ministrando-lhes a vacina anti-rábica destinada a animais.

As autoridades sanitárias do município do Cacuaco estavam preocupadas com o elevado número de ataques por cães, com uma média semanal de mais de 50 casos, registados nesta circunscrição nos arredores de Luanda.

O director municipal de saúde pública do Cacuaco, Vítor Teca, classifica como “assustador” o número de casos registados, envolvendo estes ataques a pessoas.

Entre finais de 2008 e meados de 2009, um surto de raiva assolou a capital angolana, tendo vitimado mais de 100 pessoas, sobretudo crianças.

“Semanalmente, registamos cerca de 53 casos de mordeduras e o nosso apelo à comunidade tem sido encaminhar a pessoa mordida aos serviços de saúde municipal do Cacuaco e, antes de sair de casa, lavar a ferida com bastante água e sabão”, referiu o técnico.

A médica veterinária Aida Luís Vieira explicou que semanalmente são vacinados entre 100 a 200 cães, considerando que é um número ínfimo face à população canina existente no Cacuaco.

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