O Nvunda Tonet, bem como Sedrick de Carvalho, sempre me trataram por “Tio Orlando”, pondo o meu coração a bater mais forte e a minha angolanidade no topo do Morro do Moco. Agora resta-me, neste mundo, o Sedrick. O Nvunda garantirá este trato lá onde estiver, certamente sob a admiração de Nzambi, um Deus que só admira os bons.
Por Orlando Castro
Ontem olhei a chuva amarga que batia /tão felina quanto agre e agreste / nas vidraças do meu coração. / Fiquei sem saber se era pesadelo / ou apenas a saudade de uma dor / que fez da oração só um abafo.
Olhei a penumbra que vinha do sul
como se com ela viessem notícias
da minha banda, da outra banda.
Fiquei sem saber se a saudade vive
ou se apenas é miragem africana
num coração que baloiça ao vento.
Olhei a madrugada que sonolenta
dormia aos pés da noite sem luar,
como se fosse um canto nostálgico.
Fiquei sem saber se aquele sabor
a loengos nas esquinas da alma
era mais do que a noite esquecida.
Olhei o dia que não nascia como devia
à procura de uma razão para amanhã,
mesmo que ténue no meu horizonte.
Fiquei sem saber porque não cantou
o catuitui que todos os dias poisava
nos galhos partidos da minha alma.
E ele não cantou porque tinha partido o meu sobrinho Nvunda Tonet. E com ele partiu também o catuitui. E não mais voltará. Até sempre Sobrinho, até sempre Companheiro.

