A DOR DO DESABAFO

Duas coincidências justificam este texto. Faleceu a Jornalista Olga Vasconcelos, a primeira mulher Jornalista no Porto, com quem trabalhei durante 18 anos na Redacção do Jornal de Notícias. A notícia chegou-me quando revia na televisão o filme “Matem o Mensageiro”.

Por Orlando Castro

O filme “Matem o Mensageiro” conta a história verídica de um dos maiores escândalos da CIA. O jornal local San Jose Mercury News não era nenhum Washington Post, mas o jornalista Gary Webb faz lembrar a dupla Woodward e Bernstein, que desvendou o caso Watergate, nos anos 70.

É a história verídica do jornalista que desvendou, nos anos 90, um grande escândalo que envolveu droga, a interferência americana na soberania da Nicarágua e a CIA.

A história é intrigante. Gary Webb descobre uma história que o leva a investigar as origens sombrias da epidemia de crack que assolou as ruas de Los Angeles. Acaba por descobrir que a agência norte-americana CIA, durante o mandato de Ronald Reagan, estava envolvida no contrabando da cocaína para os Estados Unidos da América, usando os lucros das vendas para armar os rebeldes na Nicarágua e assim ajudá-los a depor o Governo socialista.

Apesar das advertências dos grandes traficantes e dos agentes da CIA para suspender a investigação, Gary Webb continuou irredutível e a investigação levou-o a visitar prisões da Califórnia e da Nicarágua, corredores do poder em Washington e bairros perigosos de Los Angeles. Pôs em risco a própria vida e a da família para, no final, mostrar aos americanos que havia algo de podre nos métodos da CIA, e que isso estava a ceifar vidas americanas. Poucos anos depois foi encontrado morto com dois tiros na cabeça. Suicídio, disseram as autoridades.

O Jornalismo na minha Terra

Em 15 de Junho de 2021, quatro jornalistas angolanos realizaram em Luanda, junto das instalações da Procuradoria-Geral da República, um protesto para denunciar “perseguições” judiciais contra profissionais de comunicação social em Angola. No dia 2 de Fevereiro de 2018, a Procuradoria-Geral da República anunciou a criação de um corpo especial de funcionários e magistrados para se dedicar a investigações preliminares sobre denúncias feitas pela comunicação social e redes sociais. Recordam-se?

A estratégia do MPLA é simples. Como não gosta da mensagem, a solução é calar, se possível de forma definitiva, o mensageiro. De cartazes em punho, com os dizeres: “Basta! Investiguem os Procuradores e não os Jornalistas”; “Jornalistas não Roubam o Povo”; “Perseguir Jornalistas é Oprimir a Sociedade” e “Abaixo as Perseguições contra os Jornalistas”, Coque Mukuta, da “Voz da América”, Lucas Pedro, do “Club-K”, Jorge Neto, do jornal “O Estado News”, e Escrivão José, do “Jornal Hora H”, permaneceram no local cerca de uma hora.

O jornalista Lucas Pedro, na altura notificado a responder em, pelo menos, três processos, disse que o objectivo foi contestar uma série de processos que a Procuradoria-Geral da República, através do Serviço de Investigação Criminal, tem feito nos últimos tempos.

“Só no mês transacto, que é da liberdade de imprensa, vários jornalistas angolanos em Luanda, foram intimados quase no mesmo dia para responder a inúmeros processos, todos eles sobre difamação e calúnia”, disse Lucas Pedro.

Segundo o jornalista, ainda que os factos denunciados sejam reais e “com provas documentais, é sempre [considerado] difamação pública e calúnia”.

Lucas Pedro considerou que a liberdade de imprensa e de expressão em Angola “é volátil”, lembrando que, inicialmente, com a assunção do poder pelo Presidente angolano, João Lourenço, em 2017, “havia uma certa abertura a nível da imprensa”.

“Mas de 2017 para cá há um declínio de 200%, porque deteriorou-se a liberdade de imprensa. A partir do momento que o Estado começou a chamar a si os órgãos de comunicação social [criados] com dinheiro de corrupção […) as suas linhas editoriais passaram a ser iguais à da TPA [Televisão Pública de Angola], todo o mundo vê hoje a linha editorial da Zimbo, todo o mundo vê o que a Rádio Nacional faz, a Angop é o órgão mais coerente, reconheço, mas os restantes são de lamentar, não se faz mais jornalismo como deve ser”, disse.

Questionado se receava que o órgão que representava venha a ser encerrado, Lucas Pedro disse acreditar que sim, “porque o Club-K nunca correspondeu às expectativas do Estado”.

Por seu turno, Coque Mukuta disse que o grande objectivo do protesto foi manifestar às autoridades que os jornalistas não são os culpados dos problemas que vêm acontecendo no país: “Há pessoas que devem ser investigadas, e não os jornalistas”.

“Nós somos sete jornalistas com processos nesta altura em curso, a sermos investigados, eu já tenho 13 processos-crimes na PGR e é preciso que a PGR perceba que a actividade jornalística, tal como a deles, é de boa-fé, nós não estamos aqui a perseguir ninguém”, salientou.

Coque Mukuta considerou inaceitável que a PGR continue a “atrapalhar” a vida e o trabalho dos jornalistas, considerando que “quando se intimida o jornalista certamente se intimida a sociedade”.

Tendo em conta, na altura, a aproximação das eleições gerais em Angola, o jornalista considerava que a intenção do Governo era “colocar medo às populações”.

“Os jornalistas não podem falar, imagina você. Esse é o grande objectivo das autoridades angolanas e como resposta (…) decidimos vir aqui fazer um acto de protesto e dizer à Procuradoria-Geral da República que não somos corruptos. Devem investigar os corruptos, devem ver os procuradores que estão envolvidos em processos e não os jornalistas”, sublinhou.

De acordo com Coque Mukuta, a maioria dos jornalistas estavam a ser processados por pessoas ligadas ao poder político, pessoas que “conseguem influenciar um procurador, [que] quando quer abre um processo contra o profissional”.

Para Coque Mukuta, a liberdade de imprensa e de expressão em Angola “não está nada boa” e as vicissitudes que viveu no passado são as mesmas de agora.

Com o encerramento de vários órgãos privados nos últimos tempos, Coque Mukuta disse que a população está agora refém de uma informação “que convém ao poder político”.

“Manipularam, receberam os órgãos todos, fizeram os órgãos todos reféns e agora vão atingindo os jornalistas que lhes parece com maior liberdade, para acabarem de cilindrar quase todos e esse é o grande objectivo deles”, disse.

Já o jornalista Escrivão José, director do “Jornal Hora H”, com mais de 20 notificações, todas por calúnia e difamação, disse que pretendeu alertar o Governo para parar com a perseguição aos jornalistas.

“Todas essas notificações são de governantes angolanos e são mais para intimidar. Quando somos chamados a responder apresentamos as provas, muitas vezes as fontes que dão o rosto são chamadas e tudo não passa de intimidação”, disse.

“Queremos que investiguem os governantes corruptos, que desgraçaram este país, os que roubam o dinheiro, o erário público e não os jornalistas. Tenho uma notificação a responder no dia 17 de um governador que alegadamente havia desviado dinheiro para abastecer água numa determinada região e estarei lá”, referiu.

Escrivão José disse que tinha recebido várias vezes mensagens anónimas com ameaças de morte, tendo já denunciado o facto ao Serviço de Investigação Criminal, que garante que vai encontrar essas pessoas, mas “nunca esse processo andou”.

Por sua vez, Jorge Neto, jornalista do jornal “O Estado News”, disse que era alvo de três processos-crimes, que via como uma forma de intimidação do seu trabalho, mas garantiu que isso não vai fazer parar o trabalho, “que é formar e informar as comunidades sobre aquilo que se passa no país”.

Na sua opinião, a liberdade de imprensa e de expressão no país deu mostras nos últimos tempos de estarem a subir, “mas os últimos sinais” indicam que essa tendência se inverteu.

“Se tivermos em conta o número de jornais que circulam, o número de rádios que temos, e as que temos são todas ligadas ao poder político, são poucas independentes e o mesmo com os jornais, logo, isto é um sinal claro de que temos uma fraca liberdade de imprensa”, realçou.

Sobre o possível desfecho desses processos-crimes, Jorge Neto disse que é difícil prever, “porque a justiça em Angola ainda anda atrelada ao poder político”. “Isso ainda é um enigma, vamos continuar a lutar pelas nossas liberdades e direitos, que é de informar”, acrescentou.

Na mesma altura o jornalista Francisco Rasgado chegou a ser detido no âmbito de um processo-crime por difamação e injúria movido pelo antigo governador provincial de Benguela, Rui Falcão, tendo sido posteriormente absolvido.

Faleceu a primeira mulher jornalista no Porto
(texto de Zulay Costa publicado no Jornal de Notícias)

«Faleceu Olga Vasconcelos, antiga jornalista do JN e a primeira mulher jornalista nas redações do Porto. Foi, também, a primeira mulher em Portugal membro do Instituto Internacional de Imprensa, seguindo-se a Francisco Pinto Balsemão. Tinha 79 anos e não resistiu a doença prolongada.

As cerimónias fúnebres decorrem hoje, a partir das 10.30 horas, na Igreja do Foco, no Porto. O corpo segue, depois, para o Cemitério do Prado do Repouso.

Olga Vasconcelos era casada com Fernando Martins, ex-diretor adjunto do JN, com quem teve cinco filhos. Sempre “atenta à realidade”, gostava “muito de reportagens e o noticiário internacional também a atraía muito”, recorda o marido, salientando o pioneirismo da esposa. “Parece que já tinha no sangue ser uma pioneira. Foi a primeira mulher jornalista no Porto e a mãe foi a primeira mulher a advogar no Porto”.

Ela “gostava imenso de ler e, a determinada altura, ainda adolescente, começou a colaborar com um suplemento que o Diário de Lisboa tinha, O Juvenil. E apaixonou-se pelo jornalismo”, conta Fernando Martins.

A primeira mulher jornalista no Porto ainda cursou Direito (estava no quarto ano e só ficaram por completar duas cadeiras), antes de se render à profissão. Entrou no Jornal de Notícias em 1971, “ainda no tempo da censura, em que a informação era muito controlada”, após frequentar um pequeno estágio no jornal brasileiro O Globo, no Rio de Janeiro.

“Não foi fácil, mas não teve grandes problemas. A nossa redação era muito sui generis, era muito, como se diz agora, resiliente”, diz Fernando Martins.»

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