O Sindicato Nacional dos Médicos de Angola (SINMEA) acusou hoje a ministra de Saúde, Sílvia Lutucuta, de promover “tortura psicológica” contra estes profissionais nos concursos e reiterou que está em preparação “uma mega manifestação” reclamando a integração de todos os médicos. Lá terá o ministro Eugénio Laborinho de pôr as suas “tropas” em “prevenção elevada”…

A posição do SINMEA, expressa em comunicado, surgiu na sequência das declarações de Sílvia Lutucuta que, na segunda-feira, rejeitou críticas aos concursos públicos para admissão de médicos, salientando que a entrada destes na função pública não pode ser arbitrária e que um dos pressupostos de avaliação é a nota.

“Não vemos razão nenhuma para os médicos se manifestarem porque quem não teve positiva não vai mesmo entrar, não tem condição”, disse a responsável da pasta da Saúde, acrescentando que existem muitos erros médicos que devem ser evitados e que o país deve zelar pela prestação de bons cuidados de saúde. Será caso para perguntar se um Presidente que diz “haver” em vez de “houver”, ou uma ministra que falava em “compromíssio” em vez de “compromisso” tiveram nota positiva.

Na resposta à ministra, o SINMEA repudia as declarações “chocantes e desvalorizantes”, considerando “muito triste esta tortura psicológica” a que são submetidos os médicos angolanos nos concursos públicos.

“A desvalorização constante de Vossa Excelência à classe médica nacional é motivo da desmotivação da classe na prestação de serviço”, critica o sindicato.

Para o SINMEA, o teste de admissão a concurso público esvazia “os sete anos de formação de um médico” e o processo sofreu “várias atrocidades” com candidatos a prestar provas de séries diferentes, notas que não correspondiam à chave da prova e equipamentos inadequados para corrigir as provas, o que teve efeito nos resultados.

Na verdade, ao contrários dos especialistas cubanos, os nossos médicos confundem a corredor de fundo com o fundo do corredor. Em Cuba tudo é de excelência. Os clínicos sabem contar até 12… porque andam descalços.

O sindicato questiona ainda o facto de a avaliação de competências só ser feita aos médicos angolanos, e não aos expatriados, que “têm direito a transporte, alojamento condigno e salário em média de 5 mil dólares/mês”, direitos que são negados aos angolanos.

Será que os nossos médicos também queriam que, como eles, os expatriados tivessem direito a fuba podre, peixe podre, panos ruins, 50 angolares e porrada se refilarem?

O SINMEA fala ainda de uma “falta gritante de médicos” em Angola, que tem menos de 8 mil destes profissionais, ao contrário dos 30 mil que seriam necessários, o que se reflecte na sobrecarga de trabalho, enchentes nos hospitais públicos, demora no atendimento do paciente, pouca qualidade de prestação de serviço, desgaste físico, mental e social do médico em serviço e constantes conflitos entre os utentes e os trabalhadores de saúde.

No comunicado, assinado pelo presidente do SINMEA, Adriano Manuel, e pelo secretário provincial de Luanda, Miguel Sebastião, os sindicalistas reiteram “que está em preparação uma mega manifestação com a participação de médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, trabalhadores administrativos, outros sindicatos e população em geral”, com objectivo de apelar à admissão de todos os médicos inscritos na Ordem e que estejam desempregados, bem como integração de enfermeiros e técnicos de diagnóstico.

Os sindicatos da saúde prometem também paralisar todas as actividades após o estado de calamidade se as suas reivindicações não forem atendidas, recordando que estão a aguardar uma posição do Presidente da República, João Lourenço, sobre o manifesto que lhe foi entregue.

Segundo o Folha 8 “apurou”, o Presidente ainda não recebeu os pareceres vinculativos do seu homólogo do MPLA e do Titular do Poder Executivo, razão pela qual ainda não respondeu ao manifesto.

Na conferência de imprensa de segunda-feira, Sílvia Lutucuta assegurou que o concurso público para a admissão de médicos “primou pela transparência, equidade e sem facilitismo para ninguém”, salientando que nem todos tiveram a mesma prestação nos exames.

“Nós não podemos, num país em que queremos primar pela prestação de bons serviços de saúde, pôr médicos a trabalhar com formação ou prestação duvidosa, portanto a ideia é ter profissionais de saúde que inspirem confiança à população”, disse a governante.

A ministra mostrou-se também confiante de que os médicos “que estão no seu posto a prestar o melhor serviço” na luta contra a Covid-19 “não vão com certeza para manifestações que até estão proibidas durante o estado de calamidade”.

A responsável da Saúde reforçou que na actual legislatura foram realizados “os maiores concursos públicos no sector da saúde de sempre”, com 9250 profissionais de saúde admitidos na função pública no concurso de 2018 e mais 7000 profissionais num novo concurso realizado em 2019, com um “número considerável” de vagas para médicos.

“O objectivo é fazer concursos regulares desde que as condições financeiras o permitam”, disse Sílvia Lutucuta, notando, no entanto, que o Estado “não consegue absorver todos os recursos humanos” para que todos os profissionais “tenham o salário em dia”.

Recorde-se que o ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente da República, general Pedro Sebastião, afirmou no passado dia 9, em Luanda, que são os médicos cubanos que têm assegurado nas zonas mais recônditas do país, os serviços de saúde. Foi mais um atestado de imbecilidade aos nossos médicos em particular, e a todos os angolanos em geral.

Pedro Sebastião respondia hoje na Assembleia Nacional aos comentários levantados por deputados relativamente ao Relatório das Actividades Realizadas para o Controlo da Pandemia da Covid-19, apresentado no Parlamento.

A vinda de médicos cubanos e as condições salariais para os mesmos têm sido alvo de críticas sobretudo da classe médica angolana, tendo o Sindicato Nacional dos Médicos de Angola considerado mesmo a hipótese da paralisação dos serviços em protesto.

Segundo Pedro Sebastião, o Governo considera essa reclamação um não problema, porque está “habituado a viver essas situações”.

“E se nós olharmos para o país real que nós somos, olharmos ali onde o sol mais castiga, quem são os médicos que lá estão? Com todo o respeito que temos da classe, mas nós vamos encontrar aí, em municípios que todos nós conhecemos, esses médicos a emprestarem todo o seu profissionalismo, toda a sua entrega, dedicação, para minimizar os problemas por que nós vivemos hoje, com dificuldades de colocar profissionais da saúde em quantidade e qualidade nesses pontos”, frisou o general num manifesto, inequívoco e arrasador atestado de incompetência e falta de patriotismo aos nossos médicos.

Face ao quadro que descreveu, Pedro Sebastião considerou que a situação “por si só despensa comentários”.

Angola teve custos de 79,3 milhões de dólares (71,3 milhões de euros) na contratação de médicos especialistas cubanos para assistência médica em Angola.

Em Abril, a ministra Sílvia Lutucuta anunciou a chegada ao país de 244 médicos cubanos, com o objectivo de ajudarem no combate ao novo coronavírus, e que os mesmos foram distribuídos por todo o território angolano.

Folha 8 com Lusa

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