A Covid-19, as constantes exonerações das exonerações, o preço do petróleo e outras maleitas do nosso país são vitais para que o Governo do MPLA (o único partido a governar Angola desde a independência) continue a desviar as atenções do cerne dos nossos problemas: a criminosa incompetência do Governo. Sabemos que é chato, mas nós temos memória.

Por Orlando Castro

Estamos (os que estão) na Páscoa. E, por isso, recordamos mais uma vez, tantas vezes quantas for preciso, que o Papa Francisco exortou a que os governos (não sabemos se o nosso tem ouvidos) ouçam o grito dos pobres, “cada dia mais forte, mas também menos escutado, sufocado pelo barulho de alguns ricos”. Ricos? Onde? Perguntam em uníssono o Presidente da República, o Presidente do MPLA e o Titular do Poder Executivo.

Por cá só temos 20 milhões de angolanos solidários com o Papa Francisco e que, com a barriga vazia e a aprender a viver sem comer, compreendem o altruísmo de um governo que tenta que eles voltem a ter peixe podre, fuba podre, panos ruis, 50 angolares e porrada se refilarem…

“O clamor dos pobres é diariamente cada vez mais forte, mas a cada dia menos escutado, já que é dominado pelo barulho de alguns ricos, que são cada vez menos, mas mais ricos”, censurou o Papa. Mais uma vez João Lourenço pediu ajuda aos seus assessores para fazerem a tradução desta afirmação do Santo Padre.

Nós por cá somos cerca de 30 milhões, considerando a soma dos angolanos de primeira (os do MPLA), de segunda (os que dizem que são do MPLA) e os outros. Pobres? “Só” 20 milhões. Angola é, por exemplo, dos nove Estados lusófonos o país com pior cobertura de serviços básicos de Saúde, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Banco Mundial (BM). Será possível? Independente há 45 anos, tendo no governo sempre o mesmo partido (o MPLA), estando há 18 anos em paz total, sendo um país rico… algo vai mal (muito mal) no reino.

Será então caso para dar os parabéns a este partido, nomeadamente a João Lourenço (mas sem esquecer José Eduardo dos Santos), e lembrando que o actual Presidente fez durante anos, muitos anos, parte da estrutura dirigente do MPLA, sendo por isso conivente activo no desastre deste país. País que, aliás, é líder noutros “rankings”, casos da corrupção e da mortalidade infantil.

Nos serviços básicos, o país do MPLA tem uma taxa de cobertura de apenas 36%. De entre as nações lusófonas, seguem-se a Guiné-Bissau, com 39%, Moçambique (42%), Timor-Leste (47%), São Tomé e Príncipe (54%), Cabo Verde (62%) e Brasil (77%). Portugal é o país lusófono com melhor resultado, tendo mais de 80% da sua população coberta.

A estratégia de João Lourenço é simples e transparente e respeita todos os cânones do MPLA: os escravos não têm direito a reivindicar seja o que for, muito menos quererem ser considerados iguais aos seus donos. Por muito musculada que seja a força da razão dos escravos, nunca vencerá a razão da força dos seus proprietários.

Assim sendo, antes de ser provado já o MPLA provou o seu direito legal de propriedade sobre – entre outros – os pretos ovimbundos, tal como “consta” do acordo de rendição assinado em 2002 pela UNITA. E não adianta aos “chefes” dos escravos virem falar de “intolerância política”. Não nos esqueçamos que o emblemático e histórico dirigente do MPLA, general Kundi Paihama, disse que em Angola existem dois tipos de pessoas, os angolanos e os kwachas, tal como aconselhou estes a comer farelo porque “os porcos também comem e não morrem”.

A democracia é isso mesmo. Recordam-se de uma célebre Comissão Parlamentar do Inquérito (CPI) sobre a intolerância política na Província do Huambo e que foi presidida pelo deputado e general Higino Carneiro, e que era composta por 15 deputados, dos quais 12 do MPLA e os restantes três divididos democraticamente pela UNITA, PRS e FNLA?

Como seria de calcular, essa CPI apurou que “os assassinatos invocados pela UNITA como tendo ocorrido nos municípios do Bailundo, Katchiungo, Tchikala Tcholohanga, Ukuma, Ecunha, Londuimbali e Caála não resultaram de intolerância politica, mas, de crimes do foro comum, relacionados, com praticas ligadas à feitiçaria”.

E apurou muito bem. Aliás, sendo o MPLA dono absoluto da verdade, estava fácil de ver que a teoria da UNITA era uma manifesta mentira. E a CPI foi, mesmo assim, muito condescendente com os escravos do Galo Negro porque, num acto de assinalável magnanimidade, não acusou a UNITA de ter sido ela própria a provocar as mortes só para acusar, denegrir e enxovalhar a impoluta imagem do partido que nos governa desde 1975.

Como todo o mundo sabe, tudo o que de mal se passou, passa ou passará (se calhar até mesmo a pandemia da Covid-19) em Angola é culpa da UNITA. Desde logo porque, e não foi preciso nenhuma CPI para o provar que durante a guerra, as balas das FALA (Galo Negro) matavam apenas civis e as das FAPLA/FAA (MPLA) só acertavam nos militares inimigos. Além disso, como também é sabido, as bombas lançadas pela Força Aérea do MPLA só atingiam alvos inimigos e nunca estruturas civis.

Aliás, qualquer CPI poderá um dia destes provar que a UNITA é que é responsável pelos milhares e milhares de angolanos torturados e assassinados em todo o país depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

Como poderá provar e comprovar que a UNITA é também responsável pelo massacre de Luanda que visou o seu próprio aniquilamento e de cidadãos Ovimbundus e Bakongos, onde morreram 50 mil angolanos, entre os quais o vice-presidente da UNITA, Jeremias Kalandula Chitunda, o secretário-geral, Adolosi Paulo Mango Alicerces, o representante na CCPM, Elias Salupeto Pena, e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Sapitango Chimbili.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar ao mundo que angolanos são pessoas como Lúcio Lara, Iko Carreira, Costa Andrade (Ndunduma), Henriques Santos (Onanbwe), Luís dos Passos da Silva Cardoso, Ludy Kissassunda, Luís Neto (Xietu), Manuel Pacavira, Beto Van-Dunem, Beto Caputo, Carlos Jorge, Tito Peliganga, Eduardo Veloso, Tony Marta, José Eduardo dos Santos, João Lourenço, Higino Carneiro.

Provará também que não angolanos são aquela subespécie (kwachas) como Alda Sachiango, Isaías Samakuva, Alcides Sakala, Jeremias Chitunda, Adolosi Paulo Mango Alicerces, Elias Salupeto Pena, Jonas Savimbi, António Dembo, Arlindo Pena “Ben Ben” ou Adalberto da Costa Júnior.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que o massacre do Pica-Pau em que, no dia 4 de Junho de 1975, perto de 300 crianças e jovens, na maioria órfãos, foram assassinados e os seus corpos mutilados no Comité de Paz da UNITA em Luanda… foram obra da UNITA.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que o massacre da Ponte do rio Kwanza, em que no dia 12 de Julho de 1975, 700 militantes da UNITA foram barbaramente assassinados, perto do Dondo (Província do Kwanza Norte), perante a passividade das forças militares portuguesas que garantiam a sua protecção, foi obra da UNITA.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que, entre 1978 e 1986, centenas de angolanos foram fuzilados publicamente, nas praças e estádios das cidades de Angola, uma prática iniciada no dia 3 de Dezembro de 1978 na Praça da Revolução no Lobito, com o fuzilamento de 5 patriotas e que teve o seu auge a 25 de Agosto de 1980, com o fuzilamento de 15 angolanos no Campo da Revolução em Luanda… foi tudo obra da UNITA.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que foi a aviação da UNITA que, em Junho de 1994, bombardeou e destruiu Escola de Waku Kungo (Província do Kwanza Sul), tendo morto mais de 150 crianças e professores.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que foi a aviação da UNITA que, entre Janeiro de 1993 e Novembro de 1994, bombardeou indiscriminadamente a cidade do Huambo, a Missão Evangélica do Kaluquembe e a Missão Católica do Kuvango, tendo morto mais de 3.000 civis.

Qualquer CPI não terá igualmente dificuldade em mostrar que, entre Abril de 1997 e Outubro de 1998, na extensão da Administração ao abrigo do protocolo de Lusaka, foi a UNITA quem assassinou mais de 1.200 responsáveis e dirigentes dos órgãos de Base da… UNITA em todo o país.

No acesso a água potável canalizada, Cabo Verde surge em terceiro lugar entre os países lusófonos (86%), à frente de São Tomé e Príncipe (80%), Timor-Leste (70%), Guiné-Bissau (69%) e Moçambique (47%), Angola (41%), Brasil (97%) e Portugal (100%).

Em síntese, o MPLA não conseguiu gerar riqueza, mas conseguiu gerar ricos. Somos o país que mais ricos tem por metro quadrado. Ao lado, o país é o que mais pobres tem, também por metro quadrado.