O provérbio mais transversal a todos os povos considera o dia 13, como de azar e, ao que parece, o de Março de 2020 não fugiu à regra, para os angolanos. Ante a crítica situação de paralisação económica, desemprego, miséria, inflação, má gestão económica e penúria geral, João Lourenço baixou ao nível da indiferença (tal como os militantes do seu MPLA), ao invés de subir ao pedestal da humildade, reconhecendo ser o programa económico do MPLA, um fracasso total.

Por William Tonet

Aplaudir, diante da fome geral, o refrão do combate à corrupção, cada vez mais inócuo, é assumir, voluntaria e conscientemente, a inexistência de uma agenda coerente, competente e sustentável de gestão socioeconómica do país.

Com o discurso musculado do 13 de Março, a maioria dos angolanos deixou de acreditar que com o actual presidente do MPLA e da República, Angola ainda consiga ser um país de futuro.

Regressamos ao passado mais tenebroso, onde “fuba podre, peixe podre e porrada se refilares”, reencarna, não tantos os colonialistas portugueses, mas a truculência de uns tantos ditos socialistas, repressores de ideias diferentes, dominando o poder absoluto, não conseguem devolver a esperança de um amanhã diferente.

Daí os altos índices de imigração de jovens para o exterior, face ao desemprego e ao masoquismo da Procuradoria-Geral da República e do Titular do Poder Executivo fecharem empresas, por razões políticas, constituir um declarado cartão vermelho e descrença em João Lourenço.

Angola hoje é o país de futuro indefinido, onde a equipa do Titular do Poder Executivo, para além de ter um prazo bastante curto de validade, igual à do iogurte importado, é constituída por “meninos de escola”, cuja teoria não é bastante para enfrentar a exigência da vida real.

Infelizmente o laboratório presidencial é igual ao das clínicas e hospitais, a todos pacientes diagnostica positivo em paludismo, no caso dos ministros de JLo, positivo em incompetência.

A governação não pode constituir um balão de ensaio, incapaz de produzir fármacos ou antídotos para uma saída ou gestão airosa da crise.

O MPLA não tem soluções para o país, ficou demonstrado no discurso do seu líder, ao apresentar a manutenção do poder como única estratégia, daí atirar sempre aos olhos dos incautos a corrupção, que ele é parte estratégica.

Esperava um discurso de compromisso, do presidente do MPLA para os demais partidos e sociedade civil, desafiando-os a cerrar fileiras, unidos num projecto-país, capaz de retirar Angola do precipício. Infelizmente esse projecto não existe. O MPLA não tem, os seus governantes são juniores, sem conhecimento real da matreirice que o momento exige.

Daí baterem palmas e sorrirem, mesmo quando o caos está diante deles, só para agradar ao chefe, que em tão pouco tempo prefere ser assassinado pelo elogio que salvo pela crítica. Santa ignorância e desprezo pelos povos, numa perfeita encarnação do gado burro.

Por falar em gado, era hora, mas desconhecem o país real, de perguntarem as razões de se importar gado do Tchad, quando não se potencia o gado da Huíla e Kunene, que morre de sede.

Importar gado do estrangeiro, com dinheiro público, quando se diz combater a corrupção de José Eduardo dos Santos, quando está subjacente nesta compra, para num futuro próximo, por falta de água, vitaminas, vacinas, virem, também, a morrer é não só monstruosos como um crime. Caberá ao eleitor avaliar, com a cabeça, para definir o novo rumo em 2020.

Angola sempre projectada e sonhada pelos poetas andarilhos, como tendo o futuro aos pés do seu litoral, estepes savanas e desertos, está a tornar-se, velozmente, no país de futuro indefinido, onde a descrença invade o coração de muitos dos seus jovens filhos, que o abandonam, em busca de um futuro melhor, além fronteiras…

As riquezas nacionais que deveriam beneficiar a todos continuam a privilegiar, ainda hoje, um grupo restrito, a terra não é pertença do povo, mas dos homens do poder, a educação que deveria ser igual para todos, não conjuga sequer a equidade, a saúde não é um direito, mas um atestado de morte para a maioria dos cidadãos. Angola tem hoje o futuro indefinido.

Depois de uma ténue esperança, JLo só nos permite sonhar com o passado – aquele que ele abomina, mas em que se comprava o arroz, o saco de 25 kg, a 2.500,00 kwanzas, sendo possível sonhar com poupança.

Havia corrupção? Sim! A acumulação primitiva do capital, beneficiava só um grupo? Sim! O mesmo que permitiu, também, ao Presidente da República ser latifundiário, com fazendas que poucos agricultores de tarimba podem exibir…

INDIFERENÇA AO SOFRIMENTO POPULAR

Hoje falar de corrupção selectiva, muitas vezes anti-patriótica, confesso, por andar nos musseques, sanzalas e mercados populares, os cidadãos têm saudade da época de José Eduardo dos Santos.

Um militante e dirigente do MPLA que não enxerga isso, não vê nada. O combate velado de o responsabilizar, quase como único corrupto, a retirada da esfinge da moeda, quando deviam sair a dos dois (Neto e Dos Santos), o apagar da foto nos quartéis, a catalogação, no estrangeiro, como marimbondo, longe de o descredibilizarem, com a incompetência governativa, deram-lhe mais força, principalmente, quando o Executivo é incompetente em travar o desemprego, a inflação e o encerramento das empresas.

Infelizmente, o Presidente do MPLA e da República ainda não percebeu que o povo não come crime de corrupção, mas comida, que em todos os dias do seu consulado vai minguando na mesa dos autóctones.

Por isso uma maioria diz ter saudades de Eduardo dos Santos, mesmo quando se lhes diz que ele era corrupto e enriquecia os filhos, soltam a dura mais singela resposta: “Ele era isso, corrupto, mas deixava-nos trabalhar e comer”.

Hoje o futuro foi interrompido. Ninguém nele acredita com essa tropa. O país voltou ao tempo de partido único, com ligeiras diferenças, mas o espectro das bichas e da fome geral, espreitam.

A partir de 2017 tudo começou a acelerar e João Lourenço incendiou a alma popular, deu-lhe expectativa que seria diferente, prometeu um futuro melhor, deu-nos o indefinido, tão rapidamente.

Hoje os mandatos dos seus próprios ministros terminam antes do começo, numa clara demonstração de incompetência de nomeação ou selectiva, que nos remete aos idos de 1975. E a descaracterização do passado do MPLA, tentando responsabilizar apenas uma pessoa, José Eduardo e seus filhos, quando todo o sistema é corrupto e o único que deveria ser julgado, nos remete para 1977, ano em que Agostinho Neto cometeu um dos maiores genocídios, mandando assassinar cerca de 80 mil inocentes, para destilar o medo nos cidadãos, que não deveriam ousar, reclamar, reivindicar, manifestar, emitir ideais, se não quisessem ser mortos, sem julgamento.

13 de Março de 2020 foi um claro indicador, dado por João Lourenço que, aliás, idolatra Agostinho Neto e pares.

O primeiro presidente de Angola, é bom que a memória colectiva não esqueça, foi quem deu o pontapé de saída na corrupção, ao falar em socialismo e igualdade, mas ao criar as Lojas do Povo, para a maioria da população e Loja dos Dirigentes, exclusivamente, para os dirigentes do Conselho da Revolução, bureau político e comité central do MPLA.

Nós aí deixamos de ter futuro, muitos sonhávamos com o passado em que não era preciso ficar na bicha para a compra de um sapato.

A corrupção nasceu com o MPLA se lermos o pensamento de Deolina Rodrigues, que denunciava, ainda no maqui, o desvio de ajudas, mantimentos para as frentes, não haverá dúvidas em localizar o seu epicentro, bastando ainda não esquecer ter sido Angola, dita socialista, o único e primeiro país no mundo a comprar viaturas, Mercedes Benz (amarelos) para o serviço de táxis.

A história do MPLA pode esconder a verdade, mas a mente popular impede a perpetuação da mentira, em nome de um futuro diferente. 2022, mesmo com a batota na CNE e no Tribunal Supremo pode começar hoje.

O Presidente João Lourenço não pode continuar a rejeitar a crítica, que liberta, trilhando caminhos sinuosos, atacando quem com a dor do sofrimento, ainda assim, lhe estende a mão, de alerta.

“Todos os meios são usados para descredibilizar o processo em curso, denegrir a boa imagem do executivo angolano, criar a divisão e o enfraquecimento das nossas fileiras. A ambição deles foi desmedida, mas até deviam agradecer, pelo que estamos a fazer, porque se deixássemos a festa continuar talvez viessem a morrer de congestão de tanto, de tanto comer”.

Bravo, camarada presidente, kiakiakiakiakia, entre risos e gritos, ufanavam, alguns correligionários de ocasião, enquanto a maioria silenciosa, contrária ao pensamento de Martin Luther King, apreensiva se interrogava, até quando esta estratégia que é incapaz de suplantar os tiros nos próprios pés?

A verdade é de a imagem do executivo ser ruim, liderando a de todos que o antecederam, que, também, não eram bons.

A divisão nas fileiras, voluntária ou involuntariamente, não deixa de ter as impressões digitais do próprio líder quando diz ter trabalhado 40 anos com JES, conhecer a corrupção, logo, o MPLA é o antro do flagelo (a corrupção), uma organização criminosa.

Ao falar da ambição desmedida e que morreriam de congestão, os próprios camaradas, João Lourenço coloca-se como marqueteiro da UNITA e restante oposição, com palavras com força para a oposição desferir ataques na campanha eleitoral de 2022.

Os anos passam, rápido à velocidade da fome, mais ainda, pois essa pandemia angolana, infelizmente, não é alimentada pelo refrão da corrupção.

O povo quer o hino da comida, tocado por quem não justifica erros sempre no passado, demonstrando fraco recurso à sensibilidade e sabedoria.

“Foi o MPLA que teve a coragem de encabeçar a luta contra estes fenómenos negativos e condenáveis ao reconhecer os danos causados pela corrupção e nepotismo à economia e aos cidadãos”.

Fugir à verdade é como, numa corrida, cortar mato.

Sem necessidade de rememorar intelectuais da sociedade civil ou políticos como Holden Roberto ou Jonas Savimbi, vamos ater-nos ao ano de 2010, quando numa entrevista, ao Folha 8, Kamalata Numa, então secretário-geral da UNITA, afirmou: “Tudo isso tem a sua génese exactamente nas facilidades que permitiram ao MPLA assumir o poder em Angola em 1975. A partir daí o MPLA ficou dono da situação, ajudado mesmo pela comunidade internacional que vê nesta “Nação Crioula” a continuação e um poder que tem de ajudar. É só ver a atitude que o FMI defende num país onde a corrupção vigora, onde a gestão da coisa pública não é transparente”.

O sublinhado é nosso, visando realçar não ter sido uma pérola do MPLA o combate ao flagelo por si criado.

Mas o Presidente parece também talhado não só para coleccionar inimigos internos como externos e ao atacar o auto- proclamado presidente da Guiné-Bissau recebeu a seguinte condenação: “Imaginem, eu Úmaro Sissoco Embaló, mandar prender o filho de José Mário Vaz ou qualquer membro da sua família. Eu não sou ingrato… mas o meu homólogo angolano está a perseguir a pessoa que lhe entregou o poder de uma forma gratuita. Eu sou eleito pelo povo guineense. A João Lourenço foi dado o poder de “bandeja” pelo Presidente José Eduardo Santo, um homem que lutou pela paz em Angola e que merece respeito!”, referiu, acrescentando, “eu não sou ingrato. O cão não morde a mão que o alimenta, portanto lamento ouvir críticas a partir de Angola sobre os problemas da Guiné-Bissau”.

O Presidente deve deixar de coleccionar, em tão pouco tempo, inimigos internos e externos. O país precisa mais de unidade, serenidade, humildade e inteligência, do que de vaidades umbilicais que o estão a levar ao descalabro, pois, no momento, o maior inimigo de João Lourenço é o próprio João Lourenço.