É claro que eu assumo que fiz parte de uma minoria de privilegiados que beneficiava de um alto padrão de vida na Angola Colonial. Digo isto logo de princípio para que não pensem que me vou esconder atrás de um discurso revolucionário, de alguém que lutou contra um regime que durante cinco séculos dominou Angola. Sou um filho da situação de privilégios para alguns poucos e de graves dificuldades para muitos.

Por Carlos Pinho (*)

À data do 25 de Abril de 1974 eu tinha 20 anos e embora tivesse consciência que o Portugal de então, do Minho a Timor fosse uma enorme falácia, verdade seja dita que as alternativas que a partir da revolução dos cravos começaram a pulular, muitas delas deixavam muito a desejar, no tal luso-universo que ia do Minho a Timor.

E concretamente no caso de Angola, o discurso que passou a ter força de lei, de que só quem fez a luta armada é que tinha direito a governar o país deu no que deu. Mais ainda, com o beneplácito régio do MFA (Movimento das Forças Armadas) só o MPLA é que teve efectivamente tal direito. O resto do pessoal, os outros movimentos de libertação, e a grande massa anónima, de pretos, brancos e mestiços, que viviam e labutavam em Angola, lixo com eles. Tanto valiam terem tido opiniões políticas contra ou a favor do regime colonial, foi tudo varrido pela mesma medida grossa. E mesmo dentro do MPLA, houve igualmente muita gente liminarmente despachada, sabe-se lá para onde. De facto sabe-se para onde muita gente foi despachada, mas adiante…

Como ango-pula, tive o meu direito de escolha, ou alinhar com um regime comunista que eu nunca aceitaria, ou pôr-me a andar. Não faria sentido lutar por um país onde a opção estava condicionada por uma bitola tão estreita e perversa.

Mas logicamente fiquei à espreita. Afinal, pensem o que pensem e decidam o que decidam os senhores deputados do MPLA, Angola é a minha terra. Mas se lá não posso viver em liberdade e ter direito a uma opinião política diferente da propalada por instâncias superiores, paciência. Mesmo que considerem que não reúno condições para ter a nacionalidade, paciência. Fiquei de bem com a minha consciência e fui exercer actividade profissional no país que me acolheu e que era dos meus pais. Tenho a certeza absoluta que quem mais perdeu com isso foi Angola. Desculpem-me a presunção!

Mas como já disse, fiquei à espreita. Tal como a pacaça tenho estado à espera, observando com enorme desgosto como uma classe dirigente, formada por, ou descendente da rapaziada que curtia a boa vida em Kinshasa ou Brazaville, vivendo ricas vidas enquanto os desgraçados lá na mata davam o corpo ao manifesto, tomou conta do país. Tomou conta do país e se foi dando muito bem durante quatro décadas. Afinal eles eram os lutadores que passaram a ter direito ao merecido prémio. Ah, os aselhas da mata que se lixassem! E o resto das pessoas também! Tal como no tempo colonial, Angola é dos espertos!

Mas em finais de 2017 parecia que finalmente Angola ia inverter o caminho descendente que alegremente, para uma minoria “esclarecida”, ia trilhando. Eu, como muitos outros fiquei esperançoso que o General João Lourenço pudesse trazer algo de novo a Angola. Afinal era preciso combater a corrupção, abrir o país a novos horizontes, enfim, uma série de novos possibilidades pareciam colocar-se ao país. E inicialmente assim parecia.

Eu sei que deve ser uma luta difícil contrariar a voracidade obscena da tal minoria de “esclarecidos” que tem espremido despudoradamente o país em benefício próprio.

Mas este ano de 2019 tem sido, para mim, uma grande desilusão. E bastam dois ou três exemplos para o confirmar. Ingenuidade minha, é claro. Sou cá um tanso!

Vejam só, lendo o Jornal de Angola do passado dia 1 de Abril, constato que um navio oceanográfico que custou mais de oitenta e cinco milhões de dólares não funcionava, apresentando inúmeros defeitos. Pensei com os meus botões, “Ora cá está a mentirinha do primeiro de Abril”. Pois enganei-me, fui a correr ler o Jornal de Angola do dia 2 de Abril e a mentirinha do primeiro de Abril era sobre futebol. Sacanagem! O falhanço, ou será que posso dizer, o esquema, do Baía Farta é mesmo verdade. Verdade, verdadinha!

Como é? Então o país mudou de homem do leme e a paródia continua? Eu sei que esta compra foi decidida há vários anos atrás. Mas ainda não vi nenhuma bronca do Presidente João Lourenço sobre isto. Cá para mim o Baía Farta e o Angosat devem ser primos, assim a modos como o Dupond e Dupont da banda desenhada belga, o Tintim.

Bom e há cerca de duas semanas atrás surgiu aquela notícia maravilhosa sobre o quarto fornecedor da rede de telemóveis. Uma certa empresa, quase acabada de ser constituída, a Telstar, limpou os tubarões concorrentes internacionais e ganhou o concurso. Aí valentes! Viva os angolanos que os têm no sítio! Não! Estou a sonhar acordado! Como é que é possível? Só pode ser mais um esquema! Entretanto o Presidente João Lourenço lá anulou o concurso. Será aberto outro. E não se faz mais nada?

E por falar em esquema! E, aquela história da compra dos novos aviões para a TAAG, entretanto suspensa por recomendações do FMI? Com tal brincadeira lá se vão mais 60 milhões de dólares.

Ah! Mas Angola é um país muito rico, foi o dinheiro do satélite, do navio oceânico e agora dos aviões. Está certo, é preciso honrar os compromissos internacionais. Mas já que estamos a falar em honra, onde é que está a honra dos ministros responsáveis por estes disparates. Então não os têm no sítio para apresentarem as respectivas demissões?

E já agora, senhor Presidente João Lourenço, porque não põe uns pares de patins a esses ministros? É que, com a sua condescendência relativamente a tais malandros, a sua credibilidade internacional está a ir alegremente por água abaixo. Sim, já sei que o Tio Celito vai estar sempre disponível para lhe dar umas palmadas nas costas e lhe cantar os parabéns. Mas aquilo é canto de cigarra! Cuidado!

Pois os ango-pulas como eu eram e são uns patifes, somos filhos de estrangeiros, dos colonos, e como tal não temos direito à nacionalidade. Bom, pela amostra dos líderes que o país tem, ainda bem que não podemos ter a nacionalidade, lá diz o ditado “antes só que mal acompanhado”, que no caso vertente se transforma em “antes proscrito que patriota”. Pela amostra dos patriotas que Angola tem, o país está feito…
Pois, e eu vou, como a pacaça, ficar à espera. Pode ser que um dia…

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (Portugal)

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