A UNITA acusou hoje o Governo angolano (MPLA) de estar “a humilhar” as exéquias fúnebres de Jonas Savimbi, cujos restos mortais foram entregues na segunda-feira no Luena, província do Moxico, e não hoje no Cuíto tal como fora acertado. E assim vai o reino do MPLA, dirigido por João Lourenço, que continua a ser muitíssimo forte com os fracos.

Em declarações à agência Lusa, o coordenador da comissão para as exéquias fúnebres do líder histórico e fundador da UNITA, Álvaro Chik Wamanga, mostrou-se indignado depois de a família e grande parte da direcção da UNITA, incluindo o Presidente Isaías Samakuva, estar no aeroporto Joaquim Kapango, no Cuíto, província do Bié, e não ter recebido os restos mortais de Jonas Savimbi.

A comitiva de jornalistas que deixou Luanda cerca das 08:00 aterrou cerca de uma hora depois no Cuíto, onde centenas de pessoas, dentro e fora do aeroporto, continuam a aguardar pelo início da cerimónia.

O ministro de Estado, Pedro Sebastião, que chegou ao Cuíto, cerca de 15 minutos depois do avião que trouxe os jornalistas, abandonou o aeroporto num dos quatro helicópteros presentes na pista em direcção ao Andulo, segundo Chik Wamanga.

Pedro Sebastião, mostrando o espírito de reconciliação e paz que caracterizam o MPLA, fez-se acompanhar por vários elementos da segurança de Estado e das Forças Armadas, segundo o responsável da UNITA, abandonou o Cuíto sem sequer cumprimentar a direcção do partido presente no aeroporto. Normal, portanto. Desde quando é que os donos do reino cumprimentam os escravos?

“É uma humilhação uma vez que nem se dignou a cumprimentar a direcção da UNITA e foi directamente, ao que pensamos, para o Andulo, onde aparentemente os restos mortais de Jonas Savimbi irão ser entregues vindos directamente do Luena. Não sabemos a quem. Quer a direcção da UNITA, quer sobretudo todos os familiares estão aqui no aeroporto do Cuíto”, disse.

Chik Wamanga acrescentou ainda ter recebido a indicação de que o Governo pretende realizar as exéquias fúnebres na quarta-feira no Andulo, embora esteja ainda a tentar confirmar a informação, uma vez que ninguém da parte governamental está no Cuíto. Também a direcção da UNITA está a tentar a esclarecer a situação, se bem que suas excelências dos donos dos escravos entendam que não têm explicações a dar.

“Estamos a aguardar por alguma novidade porque nesta altura não está aqui ninguém da parte governamental para nos dar explicações”, acrescentou.

Chik Wamanga realçou o facto de a comissão tripartida Governo-UNITA-Família ter consensualizado que os restos mortais seriam entregues hoje de manhã no Luena, situação que unilateralmente o Governo alterou na segunda-feira à tarde para o Cuíto, o que veio baralhar completamente toda a logística que o partido tem montada para dignificar a memória do líder histórico da UNITA, morto em 2002 em combate, o que marcou o fim da guerra civil angolana.

Perante o facto de os restos mortais não terem sido entregues no Cuíto, Chik Wamanga destacou “as manobras do MPLA e do Governo” que pretendem “boicotar toda uma homenagem” a Jonas Savimbi.

Síndroma do MPLA (Estocolmo)

Os angolanos, sobretudo os 20 milhões de pobres, continuam a sofrer do Síndroma de Estocolmo que, durante 38 anos, lhes foi violentamente “injectado” por José Eduardo dos Santos? Continuam. Mas agora pensam que não. Estão a tomar um placebo chamado João Lourenço e, só por isso, já se sentem melhor…

O Síndroma de Estocolmo é um estado psicológico em que uma pessoa, submetida durante muito tempo a um processo violento de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor, admiração, culto e amizade perante o seu agressor. Embora de barriga vazia, os angolanos diziam que José Eduardo dos Santos era o “escolhido de Deus”. Amavam o seu carrasco.

E se, apesar do seu distanciamento e sobranceria perante o Povo, Eduardo dos Santos era idolatrado pelos seus escravos, a João Lourenço é muito mais fácil manter esse estado de coisas, embora maquilhando-o. Está mais perto do Povo, é mais popular e acessível. O Povo continua a comer peixe podre e fuba podre, mas como o novo Presidente lhe permite que arrote sonoramente, acreditam que ele não é o seu carrasco.

Assim, continuam a manter o Síndroma de Estocolmo e a desenvolver sentimentos de afecto para com o seu carrasco.

A população angolana deverá duplicar a actual, passando dos actuais cerca de 28 milhões para quase 65 milhões, em 2050, segundo uma projecção do Governo de Angola. A fazer fé nas previsões do MPLA, que está no poder desde 1975, tudo se resolverá desde que, nessa altura, Angola continue a ser o MPLA e o MPLA continue a ser Angola.

Angola é uma região riquíssima que, apesar de ter nos seus autóctones os líderes formais, continua a gerar riquezas para os outros, ricos internos, e uma crescente população pobre.

Já lá vão 17 anos. Foi a 24 de Fevereiro de 2002 que alguém disse: «Sekulu wafa, kalye wendi k’ondalatu! v’ukanoli o café k’imbo lyamale!». Ou seja, morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados. E fomos. E, tal como no tempo colonial, voltamos a desenvolver o Síndroma de Estocolmo.

Tirando os conhecidos exemplos da elite partidária, a maioria do Povo angolano têm estado deste então a apanhar café, ou algo que o valha. E continua a idolatrar os seus carrascos.

No rescaldo da guerra imediatamente a seguir à Independência, entre 1976 a 1978, houve uma brutal escassez de alimentos e a paralisação dos campos de algodão e café do norte de Angola.nPara fazer face a esse desafio, o governo do MPLA reeditou a guerra do Kwata-Kwata, obrigando pela força das armas os contratados ovimbundos e ou bailundos (que outros poderiam ser?) a ir para as roças, sobretudo do norte.

Com a independência, os camponeses do planalto e sul de Angola sonharam com o fim do seu recrutamento forçado para aquelas roças. Finalmente, pensavam, o Síndroma iria morrer. A reedição da estratégia colonial por um governo independente foi um golpe duríssimo na sua ilusória liberdade.

O líder da UNITA, Jonas Savimbi, agastado com a fraqueza e quase exaustão das forças que conseguiram sobreviver à retirada das cidades, em direcção às matas do leste (Jamba), onde reorganizou a luta de resistência, aproveitou esse facto, bem como a presença de estrangeiros, para mobilizar os angolanos.

«Ise okufa, etombo livala» (Prefiro antes a morte, do que a escravatura ), dizia Savimbi aos seus homens, militares ou não.

E agora? Agora os seus discípulos preferem, talvez porque eles próprios sofram do Síndroma de Estocolmo, a escravatura com alguma (embora pouca) coisa na barriga, renegando a liberdade com ela vazia. O Síndroma de Estocolmo evoluiu para Síndroma do MPLA. Os escravos nutrem admiração, ou até mesmo amor, pelo carrasco.

Num cenário em que os poucos que têm milhões continuam a ter cada vez mais milhões e em que, no mesmo país, muitos milhões não têm sequer o que comer, que futuro terão os angolanos? Livramo-nos do carrasco colonial português mas, em troca, temos de aceitar um carrasco colonial angolano.

Mal por mal, antes a morte do que a escravatura? E se antes foi o tempo dos contratados e escravos ovimbundus ou bailundos irem para as roças do Norte, agora é o enxovalho de transportar pedras à cabeça para ter “peixe podre, fuba podre… e porrada se refilarmos”. Mesmo assim, o tal Síndroma do MPLA existe e, por falta de alternativas válidas, os angolanos vão aceitando como normal e correcto o facto de a maioria ter apenas mandioca e farelo, enquanto os seus donos têm todas as mordomias de uma elite anafada. Ao menos, dizem, o carrasco agora é outro.

Agora, para além de irem apanhar café em terras do norte como contratados, os 20 milhões de angolanos pobres aceitam passivamente ser escravos na terra que ajudaram a, supostamente, libertar.

Foi um síndroma que, pelos vistos, veio para ficar… e ficou mesmo.

Folha 8 com Lusa

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