O Brasil está a viver momentos de indescritível efervescência político-partidária com a realização de convenções de vários partidos, para a indicação dos candidatos as eleições presidenciais de Outubro. O PT é um deles, centrando todas as atenções, desde logo por Lula da Silva ser líder absoluto das sondagens.

Por William Tonet (*)

E, a tensão é maior, devido ao facto do líder absoluto das sondagens, contrariando a poderosa máquina da mídia, capitaneada pela Globo, do sistema judiciário, “colonizado” pela visão jurídico-barroca de Sérgio Moro e do sistema legislativo da direita, continuar a ser, Luiz Inácio Lula da Silva.

O ex-presidente da República, acometido (há três meses) à restrição de movimentos e de pronunciamentos públicos, comanda, sub-repticiamente e com maestria, a gigantesca máquina partidária do Partido dos Trabalhadores, a partir do interior, de 15 metros quadrados, das “fedorentas” masmorras da Polícia Federal de Curitiba.

E foi dentro desta realidade, que a Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, no dia 4 de Agosto, por unanimidade, votou a favor da indicação de Luiz Inácio Lula da Silva como candidato à Presidência da República.

Se a Constituição do Brasil não for rasgada, como tem vindo a ser até aqui, havendo recursos nas instâncias superiores, Lula não poderá continuar encarcerado, por mero capricho pessoal, do juiz Sérgio Moro, que assentou a condenação num arrazoado de mais de 260 páginas, sem blindagem probatória, capa de embaçar uma acusação imparcial.

O acórdão contra o líder do PT baseou-se em muita elucubração jurídica, assente na presunção, o que indignou a comunidade jurídica brasileira e internacional. Vergonhoso! Pese toda esta campanha difamatória e de aprisionamento, antes do trânsito em julgado, Lula da Silva qual animal político, temperado desde a fome do Nordeste e a ditadura de 64, resiste à actual campanha da direita brasileira e, pasme-se, lidera isolado por, do outro lado, não existir ninguém com o seu carisma e popularidade.

É dentro deste quadro, que Fernando Haddad, coordenador do programa económico de Lula, tem a convicção de, não havendo outros obstáculos de ilicitude dos tribunais superiores, o penta pode ser uma realidade: “Será o nosso quinto mandato, rumo à vitória”, enfatizou, diante de uma sala repleta de militantes de todos os Estados da Federação brasileira, que no imediato não se contiveram em ruidosa aclamação: “olé, olé, olá, Lula, Lula”.

E, embalado, nos cânticos, o dirigente e deputado Paulo Pimenta assegurou: “O que está em jogo é se vamos ou não derrubar o golpe, a miséria voltou a assombrar o nosso povo, é hora de voltarmos a governar esse País, e será com Lula”, ressaltou.

Por sua vez, o senador Lindbergh Farias, não deixando de chamar pelo nome os que considera golpistas, aponta o facto da campanha da Rede Globo e do juiz Sérgio Moro, não terem conseguido, até aqui, matar a esperança que é Lula. “A foto que roda o mundo inteiro é de Lula sendo carregado pelo povo, muitos dizem que o ex-presidente irá desistir, mas, se eles impugnarem o nome de Lula, nós vamos até o fim”, afirma, acrescentando, “nós vamos eleger Lula e aprofundar a democracia, precisamos de democratizar os meios de comunicação, promover a reforma política, do judiciário”, concluiu.

Por sua vez, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do governo do PT, Celso Amorim, recentemente recebido pelo Papa Francisco, retratou aos presentes o encontro e motivou nova e contida ovação quando afirmou: “Foi uma honra ser recebido pelo Pontífice, que entregou uma mensagem por escrito para o ex-presidente, evitando qualquer mal-entendido ou deturpação por parte da imprensa. O Papa tem total noção de que há arbitrariedades na mídia e na mídia hegemónica”, assegurou.

GLEISE COLOCA PAVILHÃO AO RUBRO

O momento aguardado com expectativa pela moldura militante, grande parte com o retrato de Lula, era a decisão da direcção quanto à chapa de presidente e vice-presidente da República, por parte do PT, aclarados pela actual presidente Gleisi Hoffmann, que sem pestanejar disse: “Lula da Silva é o candidato do PT e não há plano B, porque apesar dessa mídia golpista, Lula será eleito, nós não temos medo de vocês”.

Outra mulher de grande raça, foi a ex-presidente Dilma Rousseff, candidata a senadora pelo Estado de Minas Gerais que não tem dúvidas, porquanto, “temos de saber que a nossa luta é de todas as horas, nossa batalha é para eleger Lula e aprovar uma Assembleia Constituinte, revogando as medidas do golpe”, disse, acrescentando: “Sou candidata ao Senado e vamos fazer uma votação histórica em Minas”.

ALIANÇAS POLÍTICAS

No campo das alianças, já começaram as movimentações e o PT, pese ter tido muitos combates com o PSB, que apoiou o golpe contra a presidente Dilma parecem unidos para uma coligação, ao ponto do seu presidente nacional, Carlos Siqueira, reconhecer: “Vejo o PT como o partido que sempre vai querer manter a hegemonia na esquerda. Ocorre, entretanto, que política é força. Ou você tem ou não tem. Quem não tem o suficiente vai ter de estar junto dos que demonstram maior força. Mesmo com o candidato do PT preso, o ex-presidente Lula tem a maior intenção de voto do País. Goste ou não do Lula, ele é a única liderança popular do País”.

“PRESENÇA” DE LULA COMOVE A PLATEIA

O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo ausente fez-se presente, numa comovente carta, lida, na altura pelo actor, Sérgio Mamberti, várias vezes interrompido pelos congressistas ao conclave, que vamos reproduzir na integra.

MENSAGEM AO ENCONTRO NACIONAL DO PT

«C ompanheiras e companheiros,

Esta é a primeira vez em 38 anos que não participo pessoalmente de um encontro nacional do nosso partido. Mas sei que estou presente por meio de cada um de vocês, cada dirigente, delegado e militante do PT.

Ao longo desses 38 anos nós construímos a mais importante força política que este país já conheceu. Porque nascemos das bases, da classe trabalhadora da cidade e do campo, lutando pela democracia e pela justiça. E nunca, nunca mesmo, nos afastamos do povo.

Chegamos ao governo pelo voto, depois de um longo aprendizado, para transformar o Brasil. E transformamos. Vencemos a miséria e a fome. Levamos água para quem sofria com a seca e luz eléctrica para quem vivia nas trevas. Levamos as crianças para a escola e os jovens – negros, pobres e indígenas – para a universidade.

São coisas que parecem simples em qualquer país civilizado, mas que representaram uma enorme diferença para nossa gente sofrida. E isso só foi possível porque sempre colocamos os trabalhadores e os mais pobres no centro das atenções do governo.

Criamos um dos maiores e melhores programas de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família. Aumentamos o valor real do salário mínimo. Levamos crédito para os trabalhadores, os aposentados e para a agricultura familiar. Criamos 20 milhões de empregos.

Nos muitos governos anteriores ao nosso, a imensa maioria da população era tratada como se fosse um problema. Nós tratamos a nossa gente como solução, e por isso o Brasil mudou. Provamos que é possível fazer diferente e melhor do que sempre fizeram antes.

Hoje o nosso povo está sofrendo. A fome voltou a rondar os lares e muitos nem têm mais um lar: estão vivendo nas ruas, tornaram-se mendigos junto com os filhos. Milhões de trabalhadores desistiram de procurar emprego, porque não há. Milhões foram excluídos do Bolsa Família. As universidades e os hospitais vivem sua maior crise.

Hoje o nosso país está sendo vendido. Nossa Petrobrás, nosso pré-sal, a Eletrobrás, os bancos públicos; todos na fila para serem entregues a preço de banana aos grandes grupos estrangeiros, como já fizeram com a Embraer. Nossa política externa voltou a ser ditada pelo Departamento de Estado norte-americano.

Hoje a nossa democracia está ameaçada. Há dois anos deram um golpe parlamentar para destituir a presidenta Dilma Rousseff, rasgando a Constituição. Agora querem fazer uma eleição presidencial de cartas marcadas, excluindo o nome que está à frente na preferência popular em todas as pesquisas.

Já derrubaram uma presidenta eleita; agora querem vetar o direito do povo escolher livremente o próximo presidente. Querem inventar uma democracia sem povo.

Este encontro nacional do PT talvez seja um dos mais importantes em toda a história do nosso partido. É enorme a responsabilidade que temos pela frente. A decisão de hoje vai nos conduzir a uma luta sem tréguas pela democracia, pelo povo brasileiro e pelo Brasil. E a vitória dependerá do empenho de cada um de nós.

Gostaria de estar aí para abraçar cada companheira e companheiro. Para agradecer por toda a solidariedade e principalmente por manterem aceso o espírito do PT, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. De onde me encontro, estou sempre renovando minha fé de que o dia do nosso reencontro virá, pela vontade do povo brasileiro.

Viva o Brasil!
Viva o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras!

Um abraço do

Lula»

E com esta carta ficou patente a convicção de Lula ser candidatíssimo pelo Partido dos Trabalhadores, com base na Constituição, na lei, bem como de outros precedentes, que fazem parte do acervo e jurisprudência dos tribunais superiores brasileiros.

(*) Em São Paulo/Brasil

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