Habilmente, embora sem efeitos práticos, João Lourenço conseguiu cativar a simpatia de velhos “inimigos” do MPLA. Bastou-lhe, para isso, pôr a correr pelo mundo que iria liderar um sério e decisivo combate à corrupção. A isso juntou um alvo preferencial – Isabel dos Santos. Foi a cereja no topo do bolo. Ligeiramente abaixo estava o seu irmão Zenú e Jean-Claude Bastos de Morais.

Por Orlando Castro

Francisco Louçã, por exemplo, entende que Isabel dos Santos perdeu relevância, não tanto em Portugal, mas certamente em Angola. “Ela tem um investimento significativo em Portugal, tanto no BCP como na EFACEC, entre outros sectores, e isso creio que continuará. Qual a estratégia que ela vai seguir no futuro não sabemos e é muito importante que haja alguma definição, mas os empresários portugueses, angolanos, chineses ou norte-americanos têm que cumprir as mesmas regras”, disse Francisco Louçã à DW África.

Meio mundo (nós estamos no outro meio) acredita que João Lourenço vai aniquilar a “mulher mais rica de África”, reduzindo-a (eventualmente) a uma simples empresária. Para esses novos apologistas do JLo pouco importa se Isabel dos Santos se tornou no que é graças, também, à ajuda e conivência do actual Presidente da República. Para eles, o mais importante não é a sociedade que se quer construir mas, apenas, a sociedade que se quer destruir.

Nesta ofensiva contra a corrupção em Angola, é inevitável mexer nos interesses de Isabel dos Santos, afirmou à DW África João Paulo Batalha, presidente da Transparência e Integridade, Associação Cívica (TIAC).

“Justamente porque os grandes investimentos que Isabel dos Santos fez em Portugal ao longo dos últimos anos foram feitos sob uma suspeita basilar sobre a origem do dinheiro que ela trouxe para Portugal. Portanto, muitos dos investimentos, nomeadamente na Galp, mas, enfim, em todos os outros, foram feitos ou com empréstimos de empresas públicas angolanas ou com capital adquirido através dos negócios de favor que ela fez com o Estado angolano”, explica João Paulo Batalha, acrescentando que, “por isso, todo o império de Isabel dos Santos, numa lógica de transparência e de combate à corrupção, fica posto em causa, incluindo as ramificações desse império em Portugal”,

O presidente da TIAC reconhece que as medidas que o Presidente João Lourenço têm vindo a tomar para esclarecer a origem da fortuna de Isabel dos Santos também terão implicações em Portugal.

“Deve ser um aviso para as autoridades portuguesas, quer as autoridades judiciais quer as autoridades políticas, para, no momento em que querem inaugurar uma nova fase de boas relações com Angola, fazermos nós próprios, aqui em Portugal essa investigação à origem dos capitais e à lisura dos negócios de Isabel dos Santos para que possamos assistir o Estado angolano numa potencial reversão de capitais de Isabel dos Santos para o Estado angolano. Porque, verdadeiramente, o dinheiro que ela tem trazido para Portugal é dinheiro que pertence ao povo angolano”, lembra.

João Paulo Batalha acrescenta que o poder político em Portugal sempre teve “uma relação oportunista” com Angola, privilegiando ligações com a elite angolana, independentemente, de considerações sobre corrupção ou abusos dos Direitos Humanos.

É exactamente isto que João Lourenço espera. Isto é, que os seus principais “advogados” de defesa sejam aqueles que acusam quem está dentro do galinheiro a roubar as galinhas (dos ovos de ouro), esquecendo os que estão, ou estiveram, à porta.

Mas a verdade é que, até agora, João Lourenço não ganhou a guerra e, aliás, tem estado a perder uma série de batalhas importantes. Veja-se o rombo na sua estratégia causado pelo Tribunal Superior de Londres que não só descongelou os fundos da Quantum Global, como requereram Jean-Claude Bastos de Morais e José Filomeno dos Santos (Zenú), como passou um atestado de incompetência aos advogados escolhidos pela equipa de João Lourenço. O governo angolano acusa-os de se apropriarem de cinco mil milhões de dólares do Fundo Soberano de Angola.

Do ponto de vista político e jurídico, este tribunal londrino considerou também que os representantes do Governo de João Lourenço tentaram ludibriar o tribunal, ainda por cima de forma premeditada e consciente.

Os escolhidos por João Lourenço para este caso revelaram incompetência e, mais do que isso, tentaram ocultar essa incompetência passando ao tribunal um atestado de menoridade técnica e matumbez intelectual. Não resultou. Os tribunais britânicos não são propriamente similares aos angolanos.

João Lourenço quis caçar leões, preparou toda a comitiva, mostrou armamento pesado e atiradores de alto gabarito. Todos, ou quase, acreditaram que seria desta que os leões virariam troféus. Chegados ao local, os leões apareceram, os caçadores fizerem pontaria e puxaram o gatilho.

Resultado? Os leões comeram os caçadores. Porquê? As armas de elevado calibre não tinham balas…

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