Na era de transição, principalmente, nos países subdesenvolvidos, onde os órgãos de poder de Estado são frágeis e a competência do cidadão nem sempre é o critério para a promoção, sempre acontece um estranho correr de águas. Os rios, que o são, viram, por vezes, pântanos onde a mesma água, permite banhar-se por duas vezes, em pouco tempo.

Por William Tonet

E, na secagem do corpo, os homens sem coluna vertebral se agigantam, “camaleonicamente”, para a manutenção do mesmo lugar, no sol de ontem.

Eles não têm qualquer pudor em vender a mãe se necessário, saindo dos armários, ou apontando punhais ao senhor de ontem, para venerar, de joelhos, o senhor de hoje, tudo na busca de um alojamento, na nova corte, para vaidade umbilical.

Desconseguiram implantar um sistema de educação primária digno de realce, porque “matumbezmente”, optaram por uma “eduquês” onde os meninos não aprendem a tabuada, nem a soletrar, salvo a canção que rima:

“…eu vou, eu vou, morrer em Angola…
com arma, com arma de guerra na mão…
granada, granada, será meu caixão…
enterro, enterro, será na patrulha…”

Esta tribo política, quais “gaviões” das trevas, não têm orgulho em exercer o poder com responsabilidade para ajudar na resolução dos ingentes problemas com que a República se debate. Pelo contrário, navegam com a ambição desmedida de se servir do aparelho do Estado, para alimentar as suas contas privadas, através do peculato e da corrupção.

E, para a perpetuação no poder, nada melhor do que a implantação de um pobre ensino médio, onde a maioria dos alunos, não distingue “mas de mais” ou pidi em vez de pedi”.

Daí que o filme corre, sucedendo-se os “takes”, com imagens do “ontem-Agosto2017”, misturadas com as de “hoje-Setembro2018”, e os efeitos, causando choques térmicos verbais, como se fossem virgens inocentes, acabados de desembarcar de Marte.

Estes barões das trevas dão a sensação pública de nunca terem trafegado os mesmos corredores do poder com José Eduardo dos Santos, aliás, afirmam que eram presos políticos; não podiam falar; não podiam gemer; e aqueles que apareciam nas televisões com discursos eloquentes de reverência ao chefe supremo, serem seus clones, para confundir a navegação.

Não é de estranhar, por essa razão, o descaso, na fraca qualidade do ensino superior, onde ao invés de fortes universidades, o regime constituiu, um grande número de instituições comerciais para o ensino superior, onde o rigor e exigência académica, são banalizados, face ao domínio do vil capital. Não existindo quotas obrigatórias de professores efectivos, a maioria são colaboradores, que face à má remuneração, não se importam que os alunos escrevam: “o governo reunicem, na macima força na cede do guverno”

Pese estes erros todos, a cumplicidade com o analfabetismo institucional, estes barões do mal, dizem, só agora, com João Lourenço terem rompido as grilhetas opressoras. Conquistaram a liberdade. Qual, poucos sabemos, salvo a liberdade bajuladora, que permite a continuidade da roubalheira.

O argumento é estranho, mesmo sabendo-se da idolatria quotidiana, que colocava Dos Santos, acima de todos os homens, na face da terra, injustiçado pela Academia Nobel, por nunca lhe ter outorgado o merecido Prémio Nobel da liderança política mundial.

Juram, também, estes arautos, nunca terem sido imperadores da corrupção e toda a riqueza milionária que ostentam, deriva da herança deixada pelos pais, exímios detentores de fazendas de mandioca e gindungo, desde o tempo colonial, que exportam para a India, Rússia, Paquistão, Irão e China…

Desta feita, na história de repatriamento de capitais, não temem a “dead line” de Dezembro, imposta pela nova lei, por ironia do destino, bastante generosa para os poderosos da ladroagem regimental, uma vez ilibar os ilícitos que prejudicaram a maioria dos angolanos e o Estado.

A lei de repatriamento de capitais, em muitos dos articulados é uma “via expresso”, para os criminosos financeiros, lavarem o dinheiro roubado, instalado nos paraísos fiscais, porquanto os “juristas bajuladores”, através de elucubrações jurídicas, concederam uma carta-branca, para os criminosos, cuja riqueza deveria ser confiscada ou alvo de direitos fiscais, terem alojamento privilegiado no capital social de muitas empresas públicas.

É o regabofe total.

Não acredito que o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, tenha tido ciência da subtileza de uma norma jurídica comprometedora, capaz de, num futuro próximo, embaçar a sua vontade política de asfixiar a corrupção, enquanto um dos maiores males que colocou o país no abismo e os seus dirigentes no descrédito.

TPA – Parabéns!

A TPA fez aniversário: 43 anos. Fiquei emocionado e, ingenuamente, pensei com os meus botões: em 2018, Outubro, 18, serei convidado como um dos quase fundadores da Televisão Popular de Angola, ainda vivo, pois, somos poucos, pouquíssimos os sobreviventes, quase uma espécie em vias de extinção, para falar do que sinto deste órgão.

Com a tão alardeada nova abertura, acreditei que veria, nos televisores, para além dos que passaram, aqueles que implantaram os primeiros caboucos, como a Ticha, Carlos Cunha, Paulo Mateta, Toni Pedreira, Ladislau, Cândido, Fitti e outros poucos, para recordarem os momentos que vivemos, naquela casa, desde o pós-independência ou pós-77.

Bom. Foi uma mera ilusão, afinal, mudou o que nada mudou e continuo a ser proibido de entrar numa televisão, onde passei bons momentos da minha vida profissional, deixando dois programas: Horizonte, responsável pelas transmissões em directo da Televisão Popular de Angola e o Panorama Económico de critica contra a má gestão, a corrupção, em pleno período de partido único.

E, no 19, dia seguinte, ainda me lembrei de uma entrevista censurada, em 2016, feita por Fernando Borges, onde eu falava apenas do processo de paz, como tinha ocorrido. No início perguntei, tens certeza, Borges, que tens a autorização do comité de especialidade do MPLA na TPA, para esta entrevista? Ele disse não haver problemas, pois não se tratava de política. Enganou-se. Chegado a televisão, a tesoura da censura cortou a pretensão e a entrevista nunca foi para o ar.

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