ANGOLA. Os cerca de 400 trabalhadores da Empresa Nacional de Pontes de Angola preparam-se para o quarto Natal sem salários. O caso tem vindo a assumir contornos de preocupação social, com os trabalhadores a concentrarem-se em vigília, nas últimas semanas, apelando à intervenção do Presidente da República, João Lourenço.

“O Natal aqui em casa vai ser muito triste, principalmente para os meus filhos, porque nada terei para lhes dar e para conviverem nesta quadra festiva”, começa por contar Marcelino Manuel Francisco, chefe de brigada da Empresa Nacional de Pontes de Angola.

Residente no município do Cazenga, um dos mais populosos de Luanda, Marcelino, de 54 anos, refere que hoje sobrevive graças ao esforço da esposa, comerciante num dos mercados locais.

“A minha mulher é que sustenta a família. Eu estou sem meios, já não tenho voz aqui em casa, como de vez em quando, não encaro bem os vizinhos, família e vizinhos”, lamentou, num exemplo do cenário vivido em centenas de famílias dos trabalhadores desta empresa, que continuam a manter a laboração, mesmo sem receberem.

Dificuldades diárias que já não são escondidas pela família de Marcelino, como explica a filha Josefa.

“Está muito mal, o meu pai está sem salário, estou há uma semana doente e não tenho dinheiro para ir ao hospital. E estamos mal aqui em casa”, observa, acrescentando que os quase 50 meses de “pesadelo”, que correspondem a quatro natais, pesam no ânimo de todos os familiares.

António Fragoso, de 14 anos, outro dos sete filhos, já nem pensa no Natal: “O dia está a correr mal porque o pai está há muitos anos sem salários”.

Quatro anos mais nova, Filomena Marcelino, igualmente filha deste funcionário da empresa, sabe que o seu pai está sem salários há 49 meses, pelo que o Natal será “de novo triste” para toda a família.

“Está mal porque o meu pai está há cinco anos sem salários e teremos um Natal triste”. “São lamentações e mais lamentações nesta fase do ano, vamos ter uma mesa vazia sem comida e bebida. Não terei como encarar os meus filhos e a minha esposa”, desabafa o chefe de brigada daquela empresa pública.

Ainda assim, Marcelino alimenta a esperança: “Pelo menos que dessem alguma coisa nesta quadra festiva. Mas é um Natal muito triste e já nem sei como fazer com a família”.

Com dívidas para com os cerca de 400 trabalhadores, que datam desde 2011, a Direcção da Empresa Nacional de Pontes de Angola liquidou em agosto quatro dos salários em falta, pelo que, segundo a comissão sindical, estão ainda em atraso 49 meses de pagamentos.

A comissão sindical da Empresa Nacional de Pontes de Angola reclamou na segunda-feira que continuam em atraso 49 meses de salários, atribuindo a esta situação a morte e doenças de funcionários que vêm ocorrendo nos últimos meses.

Segundo o primeiro secretário da comissão sindical da empresa pública angolana, Mateus Muanza, na segunda-feira um dos colegas, que se encontrava doente, faleceu “por falta de dinheiro para o tratamento médico”.

Em Outubro, o novo ministro da Construção e Obras Públicas de Angola, Manuel Tavares de Almeida, visitou as instalações daquela empresa pública, tendo assumido analisar a situação dos trabalhadores.

“Temos algumas perspectivas no nosso plano orçamental e isso pode ajudar a resolver já os problemas candentes e equacionar o problema dos atrasados”, disse na ocasião o governante, tendo assegurado ainda a elaboração de programas “para alavancar” a empresa.

Lusa

Partilhe este Artigo