O primeiro secretário provincial do MPLA no Cunene, Kundi Paihama, afirma com todas as palavras que o “MPLA tudo fará para alcançar a vitória nas eleições de 2017”. Que não restem dúvidas. Fará (mesmo) “tudo”.
Por Norberto Hossi
[dropcap]K[/dropcap]undi Paihama, que falava em Ondjiva no acto dos 60 anos da fundação do MPLA, garantiu que, sob as orientações de José Eduardo dos Santos, o MPLA está a trabalhar arduamente para alcançar este objectivo, conquistando mais uma vez o voto dos cidadãos com a mensagem de optimismo e esperança.
“Já traçamos a nossa estratégia eleitoral para o pleito de 2017, aprovado na II reunião ordinária do Comité Central do MPLA, em Luanda, sob presidência do seu líder, José Eduardo dos Santos”, frisou, enaltecendo que o percurso histórico do MPLA e do actual líder do partido, José Eduardo dos Santos, desde a sua fundação até aos dias de hoje, com destaque para o alcance da independência nacional e da paz, bem como na preservação destas duas conquistas.
Kundi Paihama sublinhou que o MPLA tem na sua essência a independência e a unidade da Nação, a justiça social, a manutenção da paz entre outros, como um projecto cuja materialização teve início nos anos 50, concretizado por António Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola.
Se há alguém que cumpre o que promete, esse alguém é Kundi Paihama. E se ele diz que o MPLA “tudo” fará para vencer, é porque fará mesmo tudo. E tudo é… tudo.
Certamente que (quase) todos nos recordamos do emblemático discurso que Kundi Paihama fez no Estádio Nacional de Ombaka (Benguela), então na qualidade o ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria. Nessa altura não disse que o MPLA faria “tudo” para ganhar, mas afirmou que os que lutarem contra o MPLA e contra José Eduardo dos Santos “vão ser varridos”.
E se Kundi Paihama o diz é porque vai mesmo fazer isso. Seja fazer “tudo” ou “varrer”… O regime (ou seja o MPLA), há muito que começou a pôr a razão da força acima da força da razão, mostrando que só é possível haver paz e democracia em Angola se tudo continuar na mesma. Começou em 1975, passou pelo 27 de Maio de 1977 e pelo 22 de Fevereiro de 2002 (assassinato de Jonas Savimbi) e continua hoje com a mesma pujança.
Ao que parece, o regime tem indicações fidedignas de que em 2017, se houver mesmo eleições, os mortos recusarão votar no MPLA. Isso não é impeditivo de uma solução alternativa, testada com êxito nas anteriores eleições, em que em alguns círculos eleitorais apareçam mais votos do que votantes.
Se se estivesse a falar de um Estado de Direito, seria criticável que o partido que governa Angola desde 11 de Novembro de 1975, que tem como seu líder carismático e presidente da República alguém que está no poder há 37 anos, sem ter sido nominalmente eleito, sentisse necessidade de usar a intimidação violenta para ganhar eleições.
Mas como nada disso se passa, “tudo” (como diz Kundi Paihama) vai continuar a ser feito por medida e à medida do MPLA.
E porque o regime só reconhece a existências de um único deus, Eduardo dos Santos, não admite que existam dúvidas, não aceita que a sua liberdade termine onde começa a do Povo. Vai daí, intimida, ameaça, espanca, rapta e mata quem tiver a veleidade de contrariar o “querido líder”.
Como dizia o bispo emérito de Cabinda, Paulino Madeca, “quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, perde a sua credibilidade, torna-se um eterno ditador”.
Por alguma razão Kundi Paihama ontinua a pedir aos militantes do seu partido para que controlem “milimetricamente” todas as acções da oposição, para não serem “surpreendidos”.
Na senda do que tem feito ao longo dos anos, o MPLA acusa a Oposição de enveredar por “manifestações violentas e hostis, provocando vítimas, inventando vítimas, incentivando a desobediência civil, greves e tumultos, provocando esquadras e agentes e patrulhas da polícia com pedras, garrafas e paus” e até patrocinar golpes de Estado.
O MPLA diz que tem, que continua a ter, em seu poder “informações secretas que apontam que a oposição está prestes a levar a cabo um plano B”.
Plano esse que prevê, segundo os dirigentes da ditadura angolana, “uma insurreição a nível nacional, tipo Líbia, Egipto, Tunísia e Síria”. Nada mal. Só falta acrescentar que esse plano conta com o apoio do Estado Islâmico.
Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, a possibilidade de alguma mudança, o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições.
Para além do domínio dos meios mediáticos nacionais, o MPLA aposta forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação.
Aliás, um dia destes vamos ver por o MPLA afirmar que todos aqueles que têm, tiveram, ou pensam ter qualquer tipo de armas são terroristas e devem “ser varridos”.
E, na ausência de melhor motivo para aniquilar os adversários que, segundo o regime, são isso sim inimigos, o MPLA poderá sempre jogar a cartada que tem na primeira linha das suas opções e que é tão do agrado das potências internacionais, e que é a de que há perigo de terrorismo, de guerra civil.
Tal como mandam os manuais, o MPLA começa a subir o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.
Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados que precisam de ser neutralizados.
Aliás, como também dizem os manuais marxistas, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus acólitos para criar a confusão mais útil. E, como também todos sabemos, em caso de dúvida todos os opositores e os seus aliados serão culpados até prova em contrário.
