Em entrevista ao Pravda, há quem o conheça por Jornal de Angola, José Marcos Barrica, embaixador do regime em Lisboa, diz que no país se fala mais de Luaty Beirão do que do Papa. É verdade. E porque será? Barrica não chega lá.

Por Orlando Castro

O embaixador do regime angolano em Lisboa acusou Portugal de utilizar o caso dos 15 activistas detidos em Luanda como “pretexto” para voltar a “diabolizar Angola”. Bem nos parecia. A culpa é, só podia, de Portugal. Neste e em outros casos, seja da pobreza, da fome, dos buracos nas estradas, do lixo em Luanda. Tudo é culpa dos tugas.

Em declarações citadas hoje no Pravda, o embaixador (do regime) José Marcos Barrica condena a “insistente diabolização de Angola” por parte de alguns “sectores maléficos” da sociedade portuguesa.

“O problema do cidadão Luaty Beirão (um dos 15 activistas em prisão preventiva desde Junho) é apenas um pretexto para fazer ressurgir aquilo que em Portugal sempre se pretendeu: diabolizar Angola”, apontou o embaixador Marcos Barrica. Tem razão. É só um pretexto. Isso mesmo é confirmado pela posição de cócoras que o Governo, o Presidente da República e os principais partidos têm em relação ao regime de Eduardo dos Santos.

Em causa está o caso dos activistas acusados formalmente, desde Setembro, de actos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano (nunca nominalmente eleito e há 36 anos no poder), com início do julgamento agendado para 16 de Novembro, no Tribunal Provincial de Luanda.

O activista Luaty Beirão, angolano, de 33 anos, também com nacionalidade portuguesa, e que cumpre hoje o 35º dia de greve de fome numa clínica privada de Luanda, onde se encontra sob detenção e com guardas prisionais dentro do quarto (não vá o perigoso activista fugir…), exigindo aguardar julgamento em liberdade.

Na mesma declaração, o diplomata do regime diz assistir hoje, em Lisboa, “a uma campanha para denegrir a imagem de Angola e abafar as suas conquistas alcançadas ao longo dos 40 anos de independência, por causa de um indivíduo que em Portugal é mais falado que o Papa”.

Mais uma vez o embaixador do regime tem razão. Ninguém fala das enormíssimas, antológicas e incontornáveis conquistas do regime nos 40 anos de independência. A saber:

– Todos os dias, a todas as horas, a todos os minutos há angolanos que morrem de barriga vazia. 70% da população passa fome;

– 45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, e que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

– No “ranking” que analisa a corrupção, Angola está no top;

– A dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens, ou seja, o cabritismo, é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos e que o silêncio de muitos, ou omissão, deve-se à coacção e às ameaças do partido que está no poder desde 1975;

– A corrupção política e económica é, hoje como ontem, utilizada contra todos os que querem ser livres, que 76% da população vive em 27% do território, que mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população;

– O acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

Diz ainda Marcos Barrica que, “fiel aos bons costumes e ao princípio de não-ingerência, jamais Angola ousou questionar ou exercer pressão de qualquer espécie sobre decisões de entidades portuguesas, por constituírem assuntos internos deste Estado soberano”.

Daí a impoluta folha de serviços revelada pelos altos dignitários do regime que, diga-se, nunca viram nestes 40 anos os seus nomes investigados pelos tribunais, nunca estiveram envolvidos em nenhum “Angolagate”, nunca constaram das listas da Interpol, nunca foram acusados de coisa alguma.

Em vários países europeus, nomeadamente Portugal, sucedem-se vigílias e manifestações de apoio ao grupo dos 15 detidos, apelos ao fim da greve de fome de Luaty Beirão e pedidos dirigidos ao Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, para libertar os activistas.

Para o embaixador do regime, essa pretensão constituiria uma violação ao princípio da separação de poderes. Fazendo uso da sua conhecida capacidade anedótica, com a qual espera um dia destes ser condecorado pelas maiores democracias do mundo, a começar pela Coreia do Norte, diz Barrica que “o Presidente da República não pode fazer o papel que cabe aos tribunais, interferindo no tratamento de matéria sob a alçada do poder judicial”.

Essa foi mesmo boa. Kim Jong-un, tal como Robert Mugabe, partiram a cabeça de tanto rir.

Só nos falta agora aguardar pelos próximos capítulos em que Marcos Barrica nos vai contar a razão pela qual o Presidente de Angola escolhe o Vice-Presidente, todos os juízes do Tribunal Constitucional, todos os juízes do Supremo Tribunal, todos os juízes do Tribunal de Contas, o Procurador-Geral da Republica, o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas, os Chefes do Estado Maior dos diversos ramos…

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