Os ataques terroristas do Estado Islâmico em Paris, que causaram pelo menos 127 mortos e 180 feridos, levantam muitas questões. Talvez esta declaração de guerra provoque uma reacção do tipo olho por olho, dente por dente.

Por Orlando Castro

A lguém disse, e outros vão dizendo, mesmo que por palavras diferentes e em contextos diversos, que “nós somos filhos e agentes de uma civilização milenária que tem vindo a elevar e converter os povos à concepção superior da própria vida, a fazer homens pelo domínio do espírito sobre a matéria, pelos domínios da razão sobre os instintos”.

Chegados aqui, voluntariamente ou não, é razoável pensar que são cada vez mais os instintos e cada vez menos as razões. Aliás, a razão é algo que cada vez mais significa menos. De um lado e do outro residem argumentos válidos, tão válidos quanto se sabe (é da História) que para os senhores do poder (hoje terroristas, amanhã heróis – ou ao contrário) o importante é a sociedade que tem de ser destruída e não aquela que tem de ser criada.

É isso que pensam ou pensaram, por exemplo, George W. Bush, Osama bin Laden, Saddan Hussein, Tony Blair, Robert Mwgabe e José Eduardo dos Santos. Aliás, G. Geffroy dizia pura e simplesmente que o importante é avançar por avançar, agir por agir, pois em qualquer dos casos alguns resultados hão-de aparecer.

Depois do 11 de Setembro, os EUA avançaram, feridos que foram no seu orgulho de polícias do Mundo. Com eles estiveram, estão e estarão uma série de países, nem todos de forma sincera. Não será o caso dos europeus mas é, com certeza, o caso de muitos estados árabes que, com medo do cão raivoso, aceitaram (mesmo que contrariados) a ajuda do leão.

Quando se aperceberem (alguns já se aperceberam), o leão derrotou o cão e prepara-se para os comer a eles. O leão, como mais uma vez se confirma, não terá necessariamente de ter nacionalidade norte-americana ou europeia. E mesmo tendo-as está ao serviço de outras causas.

Aliás, os homens do tio Sam são especialistas em criar leões onde mais lhes convém. Em certa medida Osama bin Laden, tal como foi Saddam Hussein, foi um leão «made in USA». Ao contrário do que pensam os ilustres operacionais da NATO, do FBI da CIA ou de qualquer coisa desse tipo, ninguém tem neste planeta (pelo menos neste) autoridade e poder ilimitados e está eternamente incólume.

O mesmo se aplica em relação aos agora chamados (e é isso que eles são) terroristas do Estado Islâmico. Mas, como os instintos ultrapassam a razão, ambos estão convencidos que são donos e senhores da verdade absoluta. O confronto foi, é e será, por isso, inevitável.

Significará esta tese que a 3ª Guerra Mundial está aí ao dobrar da próxima esquina? Talvez signifique exactamente isso. Só falta saber a que distância está a próxima esquina.

Os agora terroristas (segundo a terminologia ocidental, que já usou igual epíteto – entre outros – para Yasser Arafat, recordam-se?) poderão não ter a mesma capacidade bélica do que os EUA e seus aliados europeus. Vão ser humilhados, sobretudo pelo número dos mortos que o único erro que cometeram foi terem nascido.

São as leis da razão? Não. São as leis dos instintos. Instintos que vão muito além das leis da sobrevivência. Entram claramente (tal como entrou Bin Laden) na lei da selva em que o mais forte é, durante algum tempo mas nunca durante todo o tempo, o grande vencedor.

A 3ª Guerra Mundial começou porque o Mundo Árabe só está do lado dos EUA e da Europa por questões estratégicas, por opções instintivas. Bem ou mal, em matéria de razão os árabes estão com os seus… e esses não são os nossos (?) heróis.

É claro que, transitoriamente, alguns admitiram aliar-se aos EUA e à Europa. Foi a opção, neste exacto contexto, pelo mal menor. Mesmo assim, avisaram que não admitirão ataques a outros países árabes. Mas eles aconteceram, como foi o caso da Líbia. Pelo menos desde a Guerra dos Seis Dias, a aprendizagem dos árabes tem sido notável. Aceitam o que os EUA e a Europa definem como inimigos, enforcam até os seus pares com a corda fornecida pelos norte-americanos e europeus mas, na melhor oportunidade, enforcam americanos e europeus com a corda enviada de Washington, Londres, Madrid ou Paris.

Até agora os atentados são a resposta mais visível desta Guerra Mundial. Com bombas, aviões, antrax ou suicidas vão preparando o terreno. E, agora, até já utilizam o próprio armamento do Ocidente. E, quando entenderem, também poderão fazer uso de armamento nuclear.

Então? Então é preciso ir em frente. Sem medo. Olho por olho, dente por dente. No fim, o último a sair – cego e desdentado – que feche a porta e apague a luz…

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