Luaty Beirão, um dos 17 arguidos que, supostamente, estão a ser julgados em Luanda acusados de prepararem uma rebelião, reafirmou hoje que Angola é uma “pseudodemocracia” e renovou ao Presidente da República um pedido crescente na sociedade angolana: Vá-se embora.

Por Orlando Castro

L uaty Beirão, o sétimo dos réus a ser ouvido na farsa a que o regime chama julgamento, enfrentou com a verticalidade que se lhe reconhece as dúvidas regimentais do juiz presidente Januário José Domingos. Amanhã prossegue a comédia.

Perante o Tribunal e ao contrário da tese do Ministério Público do regime, Luaty Beirão negou que as reuniões que o grupo de activistas realizava desde Maio até à altura da detenção, em Junho, se destinassem a promover acções violentas para a destituição do Presidente, sendo antes uma discussão “meramente académica” em torno de um livro e recusando ter qualquer agenda política pessoal neste caso.

Criticando o que – e muito bem- chamou de “pseudodemocracia”, Luaty Beirão voltou a defender, a título pessoal e tal como o faz publicamente em vários protestos desde 2011, que lhe valeram agressões físicas e outras medidas coercivas, a demissão do Presidente José Eduardo dos Santos, que confirmou ser o “ditador” várias vezes referido nos livros e escutas apresentadas pela acusação.

Não se trata de uma novidade. Por isso, disse Luaty Beirão, José Eduardo dos Santos “já deu o suficiente à nação”, pelo que seria bom que ao fim de 36 anos de poder absoluto – sem nunca ter sido nominalmente eleito – se aposentasse.

O julgamento, ou não fosse esta uma democracia “made in MPLA” adaptada do modelo norte-coreano, decorre com toda a transparência que espelha fielmente as opções do regime, ou seja, sem a presença de jornalistas.

Em alternativa, dir-se-ia com o brilhantismo de qualquer um dos peritos do regime do tipo Luvualu Carvalho, foi montada nos últimos dias um outro espaço dentro do edifício do tribunal, no qual os jornalistas podem assistir ao que se passa na sala de audiências através de uma televisão, mas sem se fazerem acompanhar de qualquer equipamento electrónico.

“Vai acontecer o que o José Eduardo dos Santos decidir. Tudo aqui é um teatro, a gente conhece e sabe bem como funciona [o julgamento]. Por mais argumentos que se esgrimam aqui e por mais que fique difícil de provar esta fantochada, se assim se decidir seremos condenados. E nós estamos mentalizados para a condenação”, disse à Lusa Luaty Beirão no início do julgamento.

O Ministério Público do regime diz que Luaty Beirã “confirmou nas suas respostas” que os encontros que este grupo organizava, aos sábados, em Luanda, visavam “a preparação de realização de acções para a destituição do Presidente da República e do seu Governo, ao que se seguiria a criação de um Governo de transição”, recorrendo para tal a manifestações e com barricadas nas ruas.

O que o regime pensa

O órgão oficial do regime, de seu nome Pravda, Boletim Oficial ou Jornal de Angola, tem o mérito de escrever exactamente o que o regime pensa sobre tudo isto.

Foi por isso que escreveu (memória, memória precisa-se!) no dia 18 de Outubro que «o “caso” Luaty Beirão é um reflexo da política daqueles que fizeram a guerra e a propaganda de Savimbi.»

Será difícil ao Pravda – mas como para o regime nada é impossível… – provar que foi na Jamba que Luaty Beirão andou na escola da rebelião, e que lá “nunca existiu lei e nos palcos políticos que pisa, também não”.

“Nós queremos que os leitores saibam do que é capaz um indivíduo sem escrúpulos, sem princípios e sem moral que evoca a lei para continuar pactuar com graves violações ao direitos humanos denunciadas ao Jornal de Angola por pessoas que deram a cara chamando a atenção para o perigo de essas práticas prosseguirem em todo o país”, escreverá um dia destes o pasquim, reeditando outros brilhantes textos paridos nas latrinas de José Ribeiro.

Como os textos que aparecem no pasquim do MPLA, embora certamente escritos por outros, assinados por José Ribeiro, terá de ser ele responsabilizado (isto se, um dia talvez, Angola vier a ser um Estado de Direito), entre outras coisas, por defender exactamente para o nosso país o que o regime de Salazar defendia para… Angola. Ou seja, um regime colonialista onde impera a regra de que até prova em contrário… todos são culpados.

O sipaio, até porque deverá ter aprendido alguma coisa com os colonos portugueses, sabe que os seus patrões sonegam aos angolanos os seus mais elementares direitos, amordaçando pela força todas as tentativas de colocar a força da razão acima da razão da força. Mas, mesmo assim e compreensivelmente, tem de cumprir as ordens do dono.

Acabaremos um dia destes por ler que “Luaty Beirão, estendido ao comprido numa amálgama de palavras sem nexo, insinuações maldosas e raciocínios inconsistentes”, quer “impor ao país uma censura à verdade dos factos, acontecimentos e declarações de personalidades que são importantes para os cidadãos compreenderem o que de facto se passou e se passa em Angola”.

É certo que – mesmo sendo um eficiente sipaio – José Ribeiro nunca chegará sequer a chefe do posto. Aliás, quem nasce para ribeiro nunca chega (mesmo com o apoio do MPLA) a ser rio.

José Ribeiro afirmará em defesa dos (im)polutos patrões que os amigos de Luaty Beirão são os que “encomendam a morte de civis”, são os que “compraram explosivos e armas para destruir, por exemplo, a estabilidade de Cabinda”.

O sipaio acrescentará que os amigos de Luaty Beirão são também aqueles que assassinaram mais de 40.000 angolanos depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves.

Dirá ainda a criatura que “Luaty Beirão está habituado a dizer sobre as mais altas autoridades o que lhe vem à cabeça, sem contraditório”, mas que “terá agora que se habituar a partilhar esse palco com os que estão empenhados na paz e na reconciliação nacional. E que sabem que isso só é possível com verdade e não por trás do biombo dos falsos activistas dos direitos humanos”.

Curiosamente, na sua ânsia de ser mais do que um riacho, Ribeiro mete água, ao falar de paz e reconciliação nacional. O sipaio estará a reconhecer e – mais do que isso – a contrariar as teses do seu patrão que, desde há muito, diz que está tudo bem, na santa paz do representante divino em Angola, de seu nome José Eduardo dos Santos.

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